Luiz Carlos Merten, d'O Estadão, um crítico e cinema que respeito (não são tantos assim) acha "Blue Jasmine" o melhor Woody Allen desta nova fase que se iniciou com "Match Point". Este filme de 2005 era inspirado em "Uma História Americana", de Theodore Dreyser, e na adaptação cinematográfica desse romance por George Stevens, chamada "Um Lugar ao Sol". Novamente o cineasta novaiorquino parte de um clássico americano, "Um Bonde Chamado Desejo", de Tenessee Williams, e da versão para o cinema feita por Elia Kazan, que transformou Marlon Brando em astro e deu o segundo Oscar a Vivien Leigh.
Cate Blanchett é Jasmine, socialite falida de Nova York que vai morar em Los Angeles com Ginger, a irmã pobre, para desgosto de Chili (Bob Carnevale), namorado desta que esperava morar com ela. Como a Blanche Dubois de Williams, Jasmine e acha o futuro cunhado um bronco. Por maio de flash backs, descobrimos que o falecido marido da ex-ricaça, Hal (Alec Baldwin) era um financista escroque que foi preso após roubar milhares de investidores, como a própria Ginger e o ex-marido dela, Augie (Andrew Dice Clay). Desesperada para recuperar sua antiga vida, ela consegue seduzir o diplomata e aspirante a político Dwight (Peter Saasgard).
Com habilidade, e com a ajuda de um elenco bem escalado - em que Cate se destaca - , Allen escapa das armadilhas do óbvio e constrói um trama sólida em torno da protagonista. Com outro diretor e atriz, Jasmine seria uma socialite quebrada de caricatura, mas com Allen e Cate, a personagem e suas neuroses ganham uma tridimensionalidade rara mesmo na obra do cineasta.
Acho que Cate Blanchett, que já tem uma estatueta de Atriz Coadjuvante por "O Aviador", é candidatíssima ao Oscar no ano que vem. Woody Allen é especialista em obter o prêmio da Academia a seus atores. Que o digam Diane Keaton ("Annie Hall"), Diane West ("Hannah e suas irmãs" e "Tiros na Broadway"), Michael Caine ("Hannah e suas irmãs"), Mira Sorvino ("Poderosa Afrodite") e Penélope Cruz ("Vicky Cristina Bascelona").
Se por acaso os velhinho da Academia preferirem Sandra Bullock em "Gravidade" é o caso de internar todo mundo no asilo mais próximo.
Em cartaz em Indaiatuba no Multiplex Topázio do Shopping Jaraguá, provavelmente só até amanhã.
Futebol, mulher, cinema, música, política e outros assuntos de botequim.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
As heroínas mais mortais (fodásticas) do cinema
Assisti "Kickass 2" e mais um show da Chloe Grace Moritz como a Hitgirl. Eu diria que ela encarava a Noiva da Uma Thurman em "Kill Bill" de igual para igual. E nesta sexta, ela assume "Carrie, a estranha", papel que tornou Sissy Spacek uma estrela. Inspirado nessas moças que não levam desaforo para a casa, resolvi voltar com minhas listas de cinema (veja aqui, aqui e aqui) com As Mulheres mais mortais do cinema. Vamos a elas.
1 - A Noiva, ou Beatrix Kiddo, de "Kill Bill" (Uma Thurman, 2003/2004)). A personagem criada por Quentin Tarantino e por sua musa Uma Thurman surgiu na verdade de uma história de "Pulp Fiction". Nesse filme, Uma é a mulher de um traficante, ex-aspirante a atriz que chegou a estrelar um piloto de um seriado sobre uma equipe de espiãs, em que cada integrante era especialista em uma forma de matar. Na primeira parte, Beatrix Kiddo (nome verdadeiro da personagem, que também é conhecida como Black Mamba), massacra uma quadrilha de yakuzás num festival de sangue digno dos melhores "chambara" (como eram conhecidos os filmes de samurais), culminando no belíssimo duelo contra O-Ren Ishii (Luci Liu, a melhor vilã do díptico). No segundo, Tarantino homenageia os filmes de kung fu, destacando o cruel aprendizado com o mestre Pai-Mei (Gordon Liu) que não apenas ajuda a heroína escapar do caixão onde foi enterrada viva como também lhe dá a arma para matar Bill (Keith Carradine), que é a razão de ser do filme desde o título. The Bride rules!
2 - Hit Girl, ou Mindy Macread, de "Kickass" (Chloe Grace Moritz, 2010/2013). A garotinha enfezada do primeiro filme deu lugar a uma ninfeta capaz de usas suas habilidades ninja tanto para combater o crime como sobreviver ao sistema de castas do high school, o maior trauma da vida dos americanos em geral. Chloe Grace Moritz foi revelada nesse papel, que a credenciou para grandes produções como "A Invenção de Hugo Cabret", "Deixe-me entrar", "Sombras da Noite" e para o vestibular para o estrelato na próxima versão de "Carrie". Lembrando que, se a personagem de Stephen King colocou Sissy Spacek no mapa, fez Emily Bergl despontar para o anonimato em "A Maldição de Carrie". Boa sorte, Chloe.
2 - Lara Croft em "Lara Croft: Tomb Rider" (Angelina Jolie, 2001). Tudo fazia crer que as mulheres iriam quebrar o monopólio masculino de action heros estelares de Hollywood. Um ano antes, Cameron Diaz, Drew Barrymore e Luci Liu haviam emplacado "As Panteras" exibindo charme, adrenalina e humor como as detetives comandadas pelo misterioso Charlie. Angelina então encarnou a heroína dos videogames com propriedade e credibilidade com ótima atuação física e todas as caras e bocas (e que boca!) a que tinha direito. Mas, então, o que aconteceu? Duas sequencias meia-boca (por isso estou ignorando "A Origem da Vida") se seguiram, enterraram as duas franquias e o que parecia ser o nascimento de um novo subgênero. Angelina ainda tentou em "Capitão Sky e o Mundo do Amanhã" - praticamente uma ponta - ; "Senhor e Senhora Smith" - mas dividindo a cena com o futuro marido - ; "O Procurado" - como ama seca do protagonista James MacAvoy - e "Salt" - um voo solo mal-sucedido, que ela vai tentar ressuscitar numa sequencia.
3 - Viúva Negra, ou Natasha Romanova, em "Homem de Ferro 2" e "Os Vingadores" (Scarlett Johansson, 2010/2012). Não muito maior que a Hit Girl em 2010 (na verdade, Chloe Nicole Moritz é até mais alta que ela atualmente), ninguém diria que Scarlett Johansson teria physique du role para uma super-heroína. Mas ela surpreendeu todo mundo nocauteando um pelotão de capangas em "Homem de Ferro 2" e encarando, nada mais, nada menos, que o Hulk em "Os Vingadores". Graças a Bourne (e ao MMA), não parece tão irreal que uma garota de 1,60 m de conta de caras muito maiores. E Scarlett sempre parece perigosa.
4 - Alice da franquia "Resident Evil" (Milla Jovovich, 2002 a 2012). Em termos de longevidade, não há dúvida que esta é a heroína de ação mais bem sucedida. Cinco longas lançados mais um anunciado para o ano que vem colocariam a Alice de Milla Jovovich no topo da categoria. Colocaria, porque a franquia originada de um videogame não tem qualquer preocupação com coerência, mesmo para um tipo de filme que não leva esse tipo de coisa muito em consideração. No começo ela era uma garota no lugar e hora erradas, depois, cobaia da grande corporação que destruiu o mundo, mais à frente, um ser superpoderoso que lidera uma legião de clones, aí ela perde os poderes e os clones... Na verdade, seria possível prosseguir a franquia com outros personagens dos games (Jill Valentine, a heroína original, virou figurante no cinema), mas Milla é casada com o diretor - e depois produtor executivo - da série, Paul W.S. Anderson. É um porto seguro para a atriz, cuja carreira começou ainda na puberdade no sexploitation "De volta á Lagoa Azul", decolou em "O Quinto Elemento" (com outro diretor-marido, Luc Besson) e se estabilizou no emprego fixo de "Resident Evil". Até trabalhos fora da franquia se parecem com este, como "Ultravioleta".
5 - Nikita, de "Nikita - Criada para matar" (Annie Paurillaud, 1990). A personagem criada por Luc Besson já foi vivida por quatro atrizes - Anne Paurilaud e Bridget Fonda no cinema; Peta Wilson e Maggie Q na TV - mas é a francesa Anne que causou impacto no longa original. O papel da junkie condenada à morte por causa de um assalto que termina em mortes e recrutada por uma agência governamental para ser a assassina perfeita lhe deu o Cesar, o Oscar francês, Ela fez aulas de judo por três meses antes das filmagens e superou a aversão por armas de fogo, dizendo que parecia que um demônio tomava conta dela ao encarnar Nikita no set. Uma revolução em termos de papéis femininos no cinema.
6 - Mulher-Gato, ou Selina Kyle, de "Batman - Cavaleiro das Trevas Ressurge" (Anne Hathaway, 2012). Anne Hathaway vai se lembrar de 2012 muito provavelmente por causa de seu Oscar de Atriz Coadjuvante por "Les Miserables". Mas para milhões de nerds, ela será a atriz que resgatou a Mulher-Gato da hecatombe que foi o longa estrelado por Halle Berry. Com sua cara de princesa (não é à toa que seu primeiro filme foi "Diário da Princesa") e corpo muito mais para Julie Newmar que para Michelle Pfeiffer, ela remete à Selina Kyle esboçada por Frank Miller em "Batman: Ano Um" (A "namorada" foi sugerida, mas a prostituição foi totalmente eliminada), mas se integra a visão dos irmãos Nolan de Gotham City e Batman. Após as duas Rachel Dawes dos filmes anteriores muito sem graça, Anne Hathaway surge como interesse um romântico convincente a um amargo Bruce Wayne. Para concorrer com ela, tinham mesmo que escalar alguém do nível de Marion Cotillard,a grande surpresa de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge".
6 - Elektra de "Demolidor, o Home sem Medo" (Jennifer Garner, 2003). À exceção do prólogo, que parece tirado das páginas de Frank Miller, o filme-solo da ninja não merece menção. Mas no detestado filme do Homem sem Medo e principal razão por todos temerem a escalação de Ben Affleck com novo Batman, a Elektra de Jennifer Garner é um das poucas coisas boas. Vindo do seriado "Alias", onde sobravam cenas de ação, ela mostra muito melhor forma nas lutas que o protagonista e futuro marido. A sequencia de sua luta com o Mercenário (melhor papel mainstream de Colin Farrell) é ipsis literis a que foi desenhada pelo mestre Miller. Então, como não gostar? Pena que a chance da personagem decolar foi abortada - novamente - num segundo filme.
7 - Selene da série "Anjos da Noite" (Kate Beckinsale, 2003 a 2012). Kate Beckinsale, uma das atrizes mais bonitas de Hollywood (não que as citadas acima não o sejam, muito pelo contrário), começou sua carreira cinematográfica - quem diria - com Shakespeare. Foi em "Muito Barulho por Nada" adaptação da comédia do Bardo por Kenneth Branagh. Dez anos depois ela vestiria a capa da vampira que se apaixona por um inimigo milenar, um lobisomem. Praticamente um Romeu e Julieta dos personagens de terror. Curiosamente, a situação de "Resident Evil" se repete: a estrela e o diretor - depois produtor - se apaixonaram durante as filmagens e se casaram.
A vampira sexy Kate Beckinsale
9 - As garotas de D.O.A. (Jaime Pressly, Holly Valance, Devon Aoki, Sarah Carter e Natassia Malthe, 2006). A produção de baixo orçamento tinha tudo para ser um sucesso entre os adolescentes: tinha belas garotas de biquini lutando entre si e dando porrada em marmanjos e era baseado em um videogame de sucesso. Por que não deu certo? Faltou cinema. As boas cenas de ação não se conectam, os personagens são muito bobos e as interpretações canastronicas até para seu público-alvo. No elenco, Jaime Pressly, mais conhecida pela TV, que usa sua formação de bailarina; Devon Aoki, modelo que já havia feito uma espadachim mortal em "Sin City"; Nastassia Malthe, que foi a vilã Typhoid no desastre "Elektra"; Holly Valance, que trabalhou em "Busca Implacável" e Sarah Carter, do seriado "Falling Skies". Mas o melhor do filme pode ser visto neste teaser, com a piada da imagem acima. Ótimo, mas não tem nada a ver com o resto filme.
1 - A Noiva, ou Beatrix Kiddo, de "Kill Bill" (Uma Thurman, 2003/2004)). A personagem criada por Quentin Tarantino e por sua musa Uma Thurman surgiu na verdade de uma história de "Pulp Fiction". Nesse filme, Uma é a mulher de um traficante, ex-aspirante a atriz que chegou a estrelar um piloto de um seriado sobre uma equipe de espiãs, em que cada integrante era especialista em uma forma de matar. Na primeira parte, Beatrix Kiddo (nome verdadeiro da personagem, que também é conhecida como Black Mamba), massacra uma quadrilha de yakuzás num festival de sangue digno dos melhores "chambara" (como eram conhecidos os filmes de samurais), culminando no belíssimo duelo contra O-Ren Ishii (Luci Liu, a melhor vilã do díptico). No segundo, Tarantino homenageia os filmes de kung fu, destacando o cruel aprendizado com o mestre Pai-Mei (Gordon Liu) que não apenas ajuda a heroína escapar do caixão onde foi enterrada viva como também lhe dá a arma para matar Bill (Keith Carradine), que é a razão de ser do filme desde o título. The Bride rules!
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| Hit Girl: de ninja infantil a ninfeta fatal |
| Angelina Jolie no auge da boa forma como Lara Croft |
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| Viúva Negra invadindo o QG do vilão de Homem de Ferro 2 |
| Milla Jovovich armada até os dentes para combater os zumbis |
6 - Mulher-Gato, ou Selina Kyle, de "Batman - Cavaleiro das Trevas Ressurge" (Anne Hathaway, 2012). Anne Hathaway vai se lembrar de 2012 muito provavelmente por causa de seu Oscar de Atriz Coadjuvante por "Les Miserables". Mas para milhões de nerds, ela será a atriz que resgatou a Mulher-Gato da hecatombe que foi o longa estrelado por Halle Berry. Com sua cara de princesa (não é à toa que seu primeiro filme foi "Diário da Princesa") e corpo muito mais para Julie Newmar que para Michelle Pfeiffer, ela remete à Selina Kyle esboçada por Frank Miller em "Batman: Ano Um" (A "namorada" foi sugerida, mas a prostituição foi totalmente eliminada), mas se integra a visão dos irmãos Nolan de Gotham City e Batman. Após as duas Rachel Dawes dos filmes anteriores muito sem graça, Anne Hathaway surge como interesse um romântico convincente a um amargo Bruce Wayne. Para concorrer com ela, tinham mesmo que escalar alguém do nível de Marion Cotillard,a grande surpresa de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge".
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| Jennifer Garner com suas adagas Sai em "Demolidor" |
7 - Selene da série "Anjos da Noite" (Kate Beckinsale, 2003 a 2012). Kate Beckinsale, uma das atrizes mais bonitas de Hollywood (não que as citadas acima não o sejam, muito pelo contrário), começou sua carreira cinematográfica - quem diria - com Shakespeare. Foi em "Muito Barulho por Nada" adaptação da comédia do Bardo por Kenneth Branagh. Dez anos depois ela vestiria a capa da vampira que se apaixona por um inimigo milenar, um lobisomem. Praticamente um Romeu e Julieta dos personagens de terror. Curiosamente, a situação de "Resident Evil" se repete: a estrela e o diretor - depois produtor - se apaixonaram durante as filmagens e se casaram.
A vampira sexy Kate Beckinsale
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| Dream team de mulheres bonitas e duronas num filme de 2a divisão |
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
50 anos de Lui Cinematográfica
Hoje acontece o jantar de comemoração dos 50 anos da Lui
Cinematográfica, empresa que administra os Multiplex Topazio de Indaiatuba.
Além da amizade e parceria que me liga pessoalmente à família Lui por duas
décadas, devo ao velho Cine Alvorada, onde a história da empresa começou, muito
da minha cultura cinematográfica.
Como quase todo mundo da minha geração, estudei no Grupo
Escolar Randolfo Moreira Fernandes, que ficava na Praça D. Pedro II, em frente
ao Alvorada. Antes ou depois das aulas, costumávamos ir até a porta do cinema –
que fica onde é hoje o Magazine Luiza – e olhar pelo vidro quais seriam as
próximas atrações. A nós praticamente só restavam as matinês de sábado e domingo,
porque a censura etária na época era bem mais rigorosa que hoje. Era o início
da Era de Ouro dos Trapalhões no cinema, que começou com “Robin Hood, O Trapalhão
da Floresta”, de 1974. A partir daí, até 1991 com “Os Trapalhões e árvore da
Juventude”, Renato Aragão estrelaria pelo menos um filme por ano, sempre
liderando as bilheterias.
Na época, durante a semana, aconteciam sessões patrocinadas,
em geral com produções voltadas às donas de casa, como “Dio como ti amo” e às
quartas havia a sessão dupla dedicada à colônia japonesa (em geral, um longa
lacrimogêneo e um de yakuzá). Na Semana Santa era quase obrigatória a exibição
de “Paixão de Cristo”, uma versão antiga da vida de Jesus em que seu rosto
nunca aparecia, e “Os 10 Mandamentos”, o clássico de Cecil B. De Mille com
Charlton Heston. Por outro lado, foi no Alvorada que vi meu primeiro filme
proibido, uma pornochanchada italiana estrelada por Edwige Fenech, starlet
francesa especializada em exbir seu belo corpo em produções B. Não vi na época, mas lembro da fila de dar volta no quarteirão para ver a sex symbol tupiniquim da época, Sonia Braga, em "Dona Flor e seus Dois Maridos", maior público oficial do cinema nacional até "Tropa de Elite 2".
O problema da distribuição na época é que os grande
lançamentos demoravam horrores para chegar até as salas do interior. “Tubarão”
(1975), por exemlo, levou mais de um ano para ser exibido em Indaiatuba (quando
chegou, tenho quase certeza que faltavam alguns dentes na cópia). Quanta
diferença com os lançamentos mundiais simultâneos de hoje em dia. Em
compensação, em tempos pré-home vídeo, as cópias circulavam por anos,
principalmente as que estavam fora do controle das multinacionais, o que
permitiu a sobrevivência dos cineclubes.
Por esse motivo, quando fui fazer o colégio em Campinas, um
novo mundo se abriu para mim. Filmes como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de
Stanley Kubrick, visto no Teatro Castro Mendes; e “Manhattan”, de Woody Allen, assistido
no Cine Regente, me levaram a descobrir o chamado Cinema de Arte.
Mas mesmo quando me tornei adulto, o Alvorada ainda me
proporcionou grandes momentos, como “Apocalipse Now” em sua versão com a
destruição do templo nos letreiros
finais, que nunca mais seria vista nas versões posteriores; “Perdidos na Noite”,
relançado nos anos 80, creio que por causa da censura da Ditadura Militar;
entre outros.
A velha e enorme (mais de mil lugares!) sala da Praça D.
Pedro II fechou suas portas em 1989, com “Uma Cilada para Roger Rabitt”, e até
a inauguração do Cine Topázio no então Shopping Center Indaiatuba, em 1993, a
cidade ficaria sem um cinema. Muita gente cresceu tendo que ir até Campinas ou
recorrendo ao VHS para ver filmes.
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| A família Lui reunida na inauguração do Topázio do Polo Shopping |
Nesse período começa minha relação com a família Lui. Em
1992, trabalhando no Votura, fui encarregado de fazer uma matéria sobre o
shopping que estava sendo construído no local do antigo Cotonifício. Meu
entrevistado era José Roberto Machado, que respondia pelo marketing do
empreendimento. Ele me mostrou a planta, apresentou as bandeiras que ancorariam
o mall (entre as quais Planet Music, Pakalolo, Sé Supermercados, Casa do Pão de
Queijo, Drogasil, únicas sobreviventes de então) e eu falei, tá tudo muito bem,
tá tudo muito bom, mas cadê o cinema? Pigarro. “Nós fizemos uma pesquisa que
mostrou que não havia a necessidade de um cinema no shopping”, disse. Do alto
de meus anos como programador do Cineclube Oscarito, de uma passagem pela Sala
da Cinemateca Brasileira, do meu trabalho como técnico de cinema na oficina
Cultural Oswald de Andrade e órfão do Cine Alvorada eu disse: “Como assim?
Indaiatuba não tem cinema desde 1989 e vocês acham que seu primeiro shopping
não precisa de um?”
Indignado, fui fazer outra matéria, dessa vez com Paulo
Antônio Lui, que herdara o Cine Alvorada do pai Guerino, que por sua vez tinha
sido sócio do ainda mais antigo Cine Rex, que como o Cine Paradiso do filme havia
virado estacionamento. Ele me explicou que até tentou viabilizar uma sala no
shopping, mas o preço que eles pediam era muito alto. Escrevi um texto
revoltado com a oportunidade que a cidade estava perdendo de voltar a ter uma
cinema, quando aconteceu uma reviravolta nos acontecimentos. O banco que iria
abrir uma agência no shopping desistiu, deixando um espaço bem na entrada da
Rua Humaitá. O “buraco” foi oferecido á família Lui, que topou retomar o
negócio do cinema. O projeto foi feito por um amigo do cineclubismo, Luiz Bacelar,
do Cineclube Barão, de Campinas, e surgiu o Topázio. O primeiro filme foi “O Último
Grande Herói”, com Arnold Schwarzenegger. Na pequena sala, Indaiatuba assistiu
grandes blockbusters como “O Rei Leão” e “Titanic”, participou de eventos
mundiais como o pré-lançamento de Star Wars – Episódio 1”, numa sessão à 00h01
e criou uma geração de cinéfilos. E o que se viu em relação ao shopping, que
ganhou o nome Jaraguá ao ser adquirido pelo ex-governador Orestes Quércia? O
Topázio é que virou a grande âncora do mall, tanto é que o grupo Sol Panambi
resolveu investir num mezzanino para abrigar o multiplex e quatro salas. Quando
o Polo Shopping veio, a Lui Cinematográfica era a escolha natural para
gerenciar as novas cinco salas. Hoje, Indaiatuba tem o mesmo número de salas
que tinha Campinas nos meus tempos de colégio.
Desde 2005, o Topázio abriga o Cineclube Indaiatuba, iniciativa
minha e do Antônio da Cunha Penna, que vinha peregrinando por diversos espaços
da cidade – sede da Sociedade Cantátimo, Colégio Monteiro Lobato, Livraria Vila
das Palmeiras – em mídia VHS e depois DVD. Ao invés de clássicos da Sétima
Arte, passamos a exibir lançamentos do segmento Arte, que de outro modo jamais
seriam exibidos aqui em tela grande. O bate-papo pós projeção são um plus, mas
o mais importante, para mim, é aos poucos criar um público mais exigente que
permita, no futuro, inserir filmes de qualidade na programação normal.
Em 50 anos, a Lui Cinematográfica viveu a passagem das
lâmpadas de carvão para as de xênon; do sistema de dois projetores para o rolo
único na horizontal e, finalmente, a projeção digital, talvez a maior revolução
na exibição cinematográfica desde os irmãos Lumière. O que se manteve nesses
meio século da Lui Cinematográfica é a conexão com seu público, o cuidado com
suas salas e com a qualidade da exibição. Parabéns a Paulo Antonio Lui e sua
família por manterem vivo o cinema em Indaiatuba.
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sábado, 19 de outubro de 2013
O centenário do Poetinha
A efeméride da semana é o centenário de Vinícius de Moraes, comemorado hoje, dia 19 de outubro. Ontem, o programa Sarau, da Globo News, trouxe as remanescentes do Quarteto em Cy, grupo descoberto pelo Poetinha, e a cantora Joyce Moreno, que foi regra três de Toquinho, ao substituí-lo como acompanhante de Vinícius em uma turnê pela América Latina. O Canal Brasil, por sua vez. passou o belo documentário "Vinícius", de Miguel Faria Jr., que traz um Chico Buarque saudoso, nada preocupado em preservar intimidades do amigo, muito antes de se tornar o desastrado porta-voz do grupo Procure Saber.
Morto em 1980, o autor de Soneto da Separação não será atingido pelo movimento anti-biografias porque já tem a sua, "Vinícius, Poeta da Paixão", de José Castello, que revela o lado trágico de uma vida cheia de viagens, amigos, poesia, música e mulheres movida a muito uísque, o cachorro engarrafado que ajudou a matá-lo aos 66 anos.Sem patrulhas, por favor, porque viver intensamente foi uma escolha pessoal, e ainda foi mais longe que diversos popstars muito mais jovens. Em todos os sentidos.
Paulo Francis fez um retrato cruel dele em "Cabeça de Papel" e achava que Vinícius passou a se dedicar á rima fácil da música popular por ter perdido a mão para a poesia séria. Eu acho que ele quis fazer sua poesia sair das prateleiras das bibliotecas e dos saraus eruditos e ir para a rua, ao alcance das pessoas comuns. A parceria com Tom Jobim, um popular com um pé e meio no erudito, consolidou as possibilidades de fazer arte de qualidade num meio de muito maior alcance que a literatura tradicional. Sem falar nas benesses da boemia, badalação e mulheres bonitas.
O legado do Poetinha nesses tempos estranhos é dificil de definir. Luis Fernando Veríssimo nos lembra como ele ajudou várias gerações de homens a seduzir mulheres com seus poemas de romantismo derramado, mas será que Soneto da Fidelidade ("De tudo ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento"), ainda cola em tempos de "Gata me liga mais tarde tem balada/Quero curtir com você na madrugada/Dançar, pular/Até o sol raiar" (Que rima! Que lirismo!)?
Mas apesar do mercantilismo, do hedonismo, da ânsia pelo poder e fama neste novo século pós-Vinícius de Moraes, o que ele nos deixa é uma visão de um mundo, onde "quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não", "quem tem mulher para usar ou pra exibir" não está com nada; e "para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro, seja lá como for".
Afinal de contas, "mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, com toda a lama, a gente vai levando", "porque hoje", dia de seu Centenário, "é sábado!"
Morto em 1980, o autor de Soneto da Separação não será atingido pelo movimento anti-biografias porque já tem a sua, "Vinícius, Poeta da Paixão", de José Castello, que revela o lado trágico de uma vida cheia de viagens, amigos, poesia, música e mulheres movida a muito uísque, o cachorro engarrafado que ajudou a matá-lo aos 66 anos.Sem patrulhas, por favor, porque viver intensamente foi uma escolha pessoal, e ainda foi mais longe que diversos popstars muito mais jovens. Em todos os sentidos.
Paulo Francis fez um retrato cruel dele em "Cabeça de Papel" e achava que Vinícius passou a se dedicar á rima fácil da música popular por ter perdido a mão para a poesia séria. Eu acho que ele quis fazer sua poesia sair das prateleiras das bibliotecas e dos saraus eruditos e ir para a rua, ao alcance das pessoas comuns. A parceria com Tom Jobim, um popular com um pé e meio no erudito, consolidou as possibilidades de fazer arte de qualidade num meio de muito maior alcance que a literatura tradicional. Sem falar nas benesses da boemia, badalação e mulheres bonitas.
O legado do Poetinha nesses tempos estranhos é dificil de definir. Luis Fernando Veríssimo nos lembra como ele ajudou várias gerações de homens a seduzir mulheres com seus poemas de romantismo derramado, mas será que Soneto da Fidelidade ("De tudo ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento"), ainda cola em tempos de "Gata me liga mais tarde tem balada/Quero curtir com você na madrugada/Dançar, pular/Até o sol raiar" (Que rima! Que lirismo!)?
Mas apesar do mercantilismo, do hedonismo, da ânsia pelo poder e fama neste novo século pós-Vinícius de Moraes, o que ele nos deixa é uma visão de um mundo, onde "quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não", "quem tem mulher para usar ou pra exibir" não está com nada; e "para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro, seja lá como for".
Afinal de contas, "mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, com toda a lama, a gente vai levando", "porque hoje", dia de seu Centenário, "é sábado!"
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terça-feira, 3 de setembro de 2013
Cineclube Indaiatuba exibe "Hannah Arendt" hoje às 20h
A atração do Cineclube Indaiatuba hoje ás 20h é "Hannah Arendt", de Margarethe Von Trotta. O ingresso é R$ 6,00 para todos e após a projeção no Topázio do Shopping Jaraguá haverá bate-papo com o público. O filme é estrelado por Barbara Sukowa, estrela de um dos derradeiros Fassbinder ("Lola") e parceira da cineasta em dois de seus filmes mais conhecidos, "Os Anos de Chumbo" e "Rosa de Luxembrugo".
"Hannah Arendt" aborda um dos episódios mais importantes da vida de uma das grandes pensadoras do século XX, sua reportagem-ensaio sobre o julgamento de Adolf Eichmann, o responsável pelo transporte dos judeus aos campos de extermínio durante a II Guerra Mundial. Sendo ela mesma uma sobrevivente (ela fugiu da França para o Estados Unidos antes que Hitler ocupasse o país), ela se surpreendeu ao se deparar com a figura patética do oficial da SS. Longe de ser o demônio pintado por seus captores israelenses, Eichmann não passava de um burocrata, um cumpridor de ordens que pessoalmente não havia matado ninguém. Isso levou Arendt a formular o famoso conceito da "banalidade do mal", que na verdade é mais aterrorizante que o pensamento de termos seres diabólicos andando entre nós, porque lança a possibilidade de qualquer um, dentro de um contexto moralmente distorcido como o nazismo, ser capaz de cometer as maiores atrocidades sem assumir qualquer culpa.
Seus artigos para a revista The New Yorker (que bancou a viagem e os quase dois anos de elaboração dos textos) e o livro publicado depois, "Eichmann em Jerusalém", fez com que ela recebesse ataques de todos os lados, principalmente do poderoso lobby judeu americano. Seu relacionamento amoroso na juventude com Martin Heidegger, um dos maiores filósofos contemporâneos que acabou se alinhado com Hitler, foi usado para sugerir uma suposta simpatia pelos nazistas
O filme de Von Trotta se situa na vida de Arendt nos EUA como professora universitária, vivendo com seu companheiro Heinrich Blücher (Axel Milberg) e tendo entre seus amigos a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer) e o filósofo Hans Jonas (Ulrich Noethen), um judeu alemão que lutou ao lado dos Aliados contra o Nazismo.
"Hannah Arendt" aborda um dos episódios mais importantes da vida de uma das grandes pensadoras do século XX, sua reportagem-ensaio sobre o julgamento de Adolf Eichmann, o responsável pelo transporte dos judeus aos campos de extermínio durante a II Guerra Mundial. Sendo ela mesma uma sobrevivente (ela fugiu da França para o Estados Unidos antes que Hitler ocupasse o país), ela se surpreendeu ao se deparar com a figura patética do oficial da SS. Longe de ser o demônio pintado por seus captores israelenses, Eichmann não passava de um burocrata, um cumpridor de ordens que pessoalmente não havia matado ninguém. Isso levou Arendt a formular o famoso conceito da "banalidade do mal", que na verdade é mais aterrorizante que o pensamento de termos seres diabólicos andando entre nós, porque lança a possibilidade de qualquer um, dentro de um contexto moralmente distorcido como o nazismo, ser capaz de cometer as maiores atrocidades sem assumir qualquer culpa.
Seus artigos para a revista The New Yorker (que bancou a viagem e os quase dois anos de elaboração dos textos) e o livro publicado depois, "Eichmann em Jerusalém", fez com que ela recebesse ataques de todos os lados, principalmente do poderoso lobby judeu americano. Seu relacionamento amoroso na juventude com Martin Heidegger, um dos maiores filósofos contemporâneos que acabou se alinhado com Hitler, foi usado para sugerir uma suposta simpatia pelos nazistas
O filme de Von Trotta se situa na vida de Arendt nos EUA como professora universitária, vivendo com seu companheiro Heinrich Blücher (Axel Milberg) e tendo entre seus amigos a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer) e o filósofo Hans Jonas (Ulrich Noethen), um judeu alemão que lutou ao lado dos Aliados contra o Nazismo.
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quinta-feira, 11 de julho de 2013
A importância do Atlético na final da Libertadores
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| Vitro defende a cobrança de Maxi Rodrigues: a imagem do jogo |
Dos grandes times brasileiros, apenas tres não foram campeões da Libertadores - Atlético, Fluminense e Botafogo - e só dois nunca foram à final, sendo um deles o Galo Mineiro, justamente o primeiro campeão brasileiro, nos moldes com conhecemos agora.
Outro tabu envolvendo o jogo é pessoal: o técnico Cuca nunca ganhou um campeonato que não fosse estadual, a despeito de ser reconhecido como um dos mais destacados estrategistas do futebol brasileiro hoje. Afinal, até Celso Roth tem uma Libertadores, meu Deus!
A grande proeza de Cuca até então tinha sido evitar o rebaixamento do Fluminense em 2009. Tem sob seu comando o que é, provavelmente, o melhor elenco do futebol brasileiro hoje, o que ficou provado hoje, quando substituiu Diego Tardeli por Alecsandro e Bernard por Guilherme, sendo que este marcou o gol redentor no final do jogo e os dois reservas marcaram suas cobranças de penalidades. Finalmente, ele terá a chance de provar que é um técnico de elite, e não um eterno vice.
Em tempo: apesar do que o goleiro Vitor tem feito nesta Libertadores, ao defender aquele pênalti contra o Tijuana e agora a cobrança de Maxi Rodrigues, ainda não justifica ser igualado a São Marcos. Naquela Libertadores de 2000, que o Palmeiras nem venceu no fim das contas, ele pegou um penalti de Marcelinho Carioca, o jogador mais odiado do principal rival do Palmeiras. Para ser a mesma coisa, Vitor teria que pegar um penalti num jogo decisivo da Libertadores contra o Cruzeiro batido por, digamos, Diego Souza. Ainda assim, não é a mesma coisa.
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terça-feira, 2 de julho de 2013
Rumo ao Hexa? Muita calma nessa hora!
O esperado jogo contra a que é chamada melhor seleção do mundo e o Brasil terminou com a retumbante e convincente vitória por 3 a 0 para os donos da casa, que conquistaram assim o quarto título (o terceiro seguido) da Copa das Confederações. Felipão mostrou que tem um time e a torcida verdeamarela vibrou pela volta do campeão, após os anos de estiagem de títulos e futebol convincente dos tempos de Mano Meneses.
O que o Brasil mostrou ter de melhor que Espanha e Itália é ataque. Iniesta e Xavi criam para Pedro, Torres (depois o decadente Davi Villa) e Mata (depois Jesus Navas), quaisquer que sejam as opções são inferiores aos definidores Neymar e Fred e o carregador de piano Hulk. O mesmo se pode dizer da Itália, que depende muito de Balotelli. Fazer marcação é questão de treino e aplicação, fazer gol é uma questão de talento, daí o título do Brasil na melhor edição da Copa das Confederações.
Há que se considerar que alguns craques adversários estavam baleados ou em má fase, casos de Pirlo, que se contundiu contra o Japão, não jogou contra o Brasil e fez número na semifinal; e Xavi, que há tempos não joga no mesmo nivel de seu parceiro Iniesta. Repito, muita coisa pode e vai acontecer daqui a um ano, coisa que Felipão sabe e fez questão de deixar claro ao afirmar que as portas estão abertas a Ronaldinho gaúcho e Kaká, desde que eles joguem. Além do mais, vai que nesse meio tempo apareça algum fenômeno, como aconteceu na Alemanha, que revelou em plena Copa da África do Sul os então desconhecidos Özil, Khedira e Thomas Müller.
Contra o já ganhou a um ano do que realmente interessa - a Copa do Mundo - é bom lembrar que quem ganha ou joga bem a Copa das Confederações tem sido sempre uma decepção no ano seguinte. Pode não parecer, mas 12 meses é muito tempo em futebol. Basta lembrar que na edição de 2009, o destaque do título do Brasil na África do Sul foi Luis Fabiano (que decepcionou na Copa e não é cogitado por ninguém a voltar à seleção) e que no primeiro semestre de 2010 surgiram os fenômenos Neymar e Ganso, ignorados por Dunga com a justificativa do "grupo fechado" (coisa de técnico de Casados x Solteiros).
Falando em técnico, será que agora vão parar de chamar Felipão de retranqueiro e superado? Jogar com tres atacantes e um volante artilheiro com Paulinho é coisa de retranqueiro? Encurralar o tik-tak espanhol em seu próprio campo e anular aquele extraordinário meio-de-campo é próprio de um treinador superado? Uma característica do treinador é montar o time a partir dos jogadores, e não encaixá-los num esquema pronto. Foi assim em 2002, quando a equipe foi centrada em Rivaldo e Ronaldo, e 2002, quando o medíocre time do Palmeiras conseguiu vencer a Copa do Brasil (a queda para a segunda divisão do Brasileirão foi o choque com a realidade, que Felipão alertou logo após seu único título nesta segunda passagem pelo Parque Antártica).
O que o Brasil mostrou ter de melhor que Espanha e Itália é ataque. Iniesta e Xavi criam para Pedro, Torres (depois o decadente Davi Villa) e Mata (depois Jesus Navas), quaisquer que sejam as opções são inferiores aos definidores Neymar e Fred e o carregador de piano Hulk. O mesmo se pode dizer da Itália, que depende muito de Balotelli. Fazer marcação é questão de treino e aplicação, fazer gol é uma questão de talento, daí o título do Brasil na melhor edição da Copa das Confederações.
Há que se considerar que alguns craques adversários estavam baleados ou em má fase, casos de Pirlo, que se contundiu contra o Japão, não jogou contra o Brasil e fez número na semifinal; e Xavi, que há tempos não joga no mesmo nivel de seu parceiro Iniesta. Repito, muita coisa pode e vai acontecer daqui a um ano, coisa que Felipão sabe e fez questão de deixar claro ao afirmar que as portas estão abertas a Ronaldinho gaúcho e Kaká, desde que eles joguem. Além do mais, vai que nesse meio tempo apareça algum fenômeno, como aconteceu na Alemanha, que revelou em plena Copa da África do Sul os então desconhecidos Özil, Khedira e Thomas Müller.
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terça-feira, 18 de junho de 2013
As mídias e a voz rouca das ruas
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| Repórter Jeans Raupp com microfone sem logo da Globo |
Um salto de 29 anos e a história se repete, desta vez, por causa dos interesses do conglomerado envolvendo a Copa das Confederações que está acontecendo agora e a Copa do Mundo no próximo ano. Não fica bem esses protestos ocorrerem quando estamos sendo vistos por todo o planeta, e querendo vender uma imagem de segurança e tranquilidade para 2014 e 2016. Em 1984, a Folha de S. Paulo acabou se tornando o órgão oficial das Diretas Já, o que ajudou-a a se tornar o mais importante jornal do País nos anos seguintes. Desta vez, como todos os grandes órgãos de imprensa aliados ao retrocesso, coube à Internet romper o truste da informação e fazer com que a poderosa emissora camufle seus profissionais com medo da hostilização.
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| Jovens vão às ruas contra Collor ao som de "Alegria, Alegria" |
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| O herói Jean-Pierre, vivido Edson Celulari |
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| Um dos "Guy Fawkes" na manifestação de Indaiatuba |
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sexta-feira, 14 de junho de 2013
Um pouco de história sobre os conflitos de rua nas capitais brasileiras
Duas coisas são importantes de serem destacadas nos recentes conflitos de rua. A primeira é que não houve articulação política para levar todos esses jovens às manifestações: os partidos políticos em geral foram pegos de surpresa, da mesma forma como aconteceu no quebra-quebra em São Paulo em 1983, e no Domingo Negro de 1992 que praticamente decidiu o destino do então presidente Fernando Collor de Mello. Ver jovens irem ás ruas lutar por seus direitos e tomando porrada da polícia é um dejá vu alvissareiro, já que eu mesmo imaginava que a galera estava mais interessada em saber quando seria a próxima balada e de onde viria a grana para bancá-la. Nunca me senti tão feliz em estar equivocado.
A segunda é que todo mundo morre de medo de mexer na Máfia do Transporte Público, uma estrutura arcaica, ineficiente e poderosa. Pelo menos um prefeito petista, Celso Daniel, de Santo André, foi morto por causa de esquemas com empresas de ônibus. O outro assassinato, de Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, de Campinas, teria como motivo sua tentativa de disciplinar o transporte alternativo pelas vans, na época um tormento do trânsito da cidade. Mexer com transporte urbano, portanto, é mexer num vespeiro.
Na aparência, a reivindicação que motivou os jovens a tomarem as ruas de São Paulo foi deter o aumento do preço da passagem de ônibus em R$0,20, mas na verdade essa foi a gota d'água que transbordou o copo, após sucessivas elevações do custo do transporte no bolso do usuário nas administrações anteriores. A voz das ruas fez ressurgir ainda a tese da Tarifa Zero, que originalmente nem estava na pauta dos manifestantes, proposta pelo governo de Luiza Erundina, mas que foi engavetada pela Câmara Municipal dominada pela oposição.
De cara, imprensa e autoridades se encarregaram de taxar a ideia de absurda, inviável e populista, sem discutir a sério o projeto original, criada por um engenheiro que estava longe de ser um maluco xiita. No anos 80, em meus tempos de USP, frequentei regularmente a casa de Lúcio Gregori, o secretário de Transportes de Erundina, e pai de uma de minhas melhores amigas, Márcia. Além de filar o almoço, usufruia de sua bela coleção de discos de jazz, que ele tocava ao piano também. Isso foi anos antes dele assumir a pasta de Transportes na primeira administração petista importante, mas Gregori estava longe de ser o militante fanático e idealista daqueles tempos. É sensato e até bem burgues, daí porque sua proposta não foi alicerçada sobre ideologia, mas sobre fatos e projeções.
Trazido de volta à ribalta pelos acontecimentos desta semana, ele deu a seguinte entrevista ao site Mobilize.org.br.
Tarifa Zero é possível?
A ideia do transporte público gratuito é tão possível quanto a da escola pública gratuita, da saúde pública gratuita, da segurança pública, da coleta de lixo e de uma série de serviços que são pagos pelas prefeituras, com nossos impostos. O problema no Brasil é que o transporte público se tornou um negócio tão rentável e poderoso que é quase intocável.
Há exemplos de transporte gratuito em outros países?
Quando elaborei o projeto para São Paulo descobri que apenas nos Estados Unidos existem ao menos 35 cidades, todas elas com mais de 200 mil habitantes, que já adotavam o transporte inteiramente subsidiado antes de 1990.
Em Hasselt, cidade com mais de 400 mil habitantes, na Bélgica, o transporte gratuito foi adotado em 1994 e desde então houve um aumento de 1000% na demanda. Daí a prefeitura de lá deixou de investir em uma série de obras, como anéis rodoviários, túneis e viadutos e alocou esses recursos na expansão do transporte público. Em Talim, na Estônia, o transporte já tinha um subsídio de 70% e recentemente, depois de um plebiscito, a cidade adotou a tarifa zero.
E no Brasil?
Pelo menos três cidades brasileiras - Ivaiporã, no Paraná; Porto Real, no Rio de Janeiro e mais uma cidade de Minas Gerais, que não me ocorre agora - já adotaram a gratuidade do transporte. Em São Paulo, a cidade de Paulínia tinha tarifa zero até 1990.
Qual seria a tarifa justa?
O transporte deveria ser gratuito porque as pessoas saem de casa para trabalhar, estudar, enfim, para movimentar a máquina que gera riqueza e faz com que as cidades possam ser mantidas. O transporte é uma atividade econômica como qualquer outra, que tem seus custos, assim como a educação, a limpeza pública, a segurança. O grande peso, no caso dos ônibus, é o da mão de obra (60%). Além disso, tem que remunerar o capital do empresário. A questão central é "Quem paga por isso?".
Quem paga?
Em outros países, a maior parte é paga pelo poder público. No Brasil, o subsídio é baixíssimo, cerca de 12%, quando em outros países chega a 70%. Daí que o transporte coletivo é caríssimo frente ao transporte individual e isso explica o uso tão intenso de carros e motos nas cidades brasileiras.
Por que a proposta da tarifa zero não deu certo em São Paulo?
Na época, nós fizemos um estudo sobre os custos e propusemos um aumento nos impostos para subsidiar o transporte. Uma pesquisa realizada pela prefeitura em 1990 mostrou que a maior parte da população havia compreendido a proposta e estava de acordo. O problema é que a Câmara Municipal decidiu não discutir a proposta, apesar da aprovação da sociedade. Nas discussões, notamos que os vereadores das comissões que avaliaram o projeto somente discutiam os itens que eram de interesse das empresas do setor, o que revelou uma influência forte dos empresários de transporte dentro do Legislativo.
O que o senhor acha das manifestações contra o aumento da tarifa?
Elas são a expressão de uma disputa política. E como em toda disputa política, há alguns setores no governo, na imprensa, que vão fazer o jogo dos empresários.
A segunda é que todo mundo morre de medo de mexer na Máfia do Transporte Público, uma estrutura arcaica, ineficiente e poderosa. Pelo menos um prefeito petista, Celso Daniel, de Santo André, foi morto por causa de esquemas com empresas de ônibus. O outro assassinato, de Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, de Campinas, teria como motivo sua tentativa de disciplinar o transporte alternativo pelas vans, na época um tormento do trânsito da cidade. Mexer com transporte urbano, portanto, é mexer num vespeiro.
Na aparência, a reivindicação que motivou os jovens a tomarem as ruas de São Paulo foi deter o aumento do preço da passagem de ônibus em R$0,20, mas na verdade essa foi a gota d'água que transbordou o copo, após sucessivas elevações do custo do transporte no bolso do usuário nas administrações anteriores. A voz das ruas fez ressurgir ainda a tese da Tarifa Zero, que originalmente nem estava na pauta dos manifestantes, proposta pelo governo de Luiza Erundina, mas que foi engavetada pela Câmara Municipal dominada pela oposição.
De cara, imprensa e autoridades se encarregaram de taxar a ideia de absurda, inviável e populista, sem discutir a sério o projeto original, criada por um engenheiro que estava longe de ser um maluco xiita. No anos 80, em meus tempos de USP, frequentei regularmente a casa de Lúcio Gregori, o secretário de Transportes de Erundina, e pai de uma de minhas melhores amigas, Márcia. Além de filar o almoço, usufruia de sua bela coleção de discos de jazz, que ele tocava ao piano também. Isso foi anos antes dele assumir a pasta de Transportes na primeira administração petista importante, mas Gregori estava longe de ser o militante fanático e idealista daqueles tempos. É sensato e até bem burgues, daí porque sua proposta não foi alicerçada sobre ideologia, mas sobre fatos e projeções.
Trazido de volta à ribalta pelos acontecimentos desta semana, ele deu a seguinte entrevista ao site Mobilize.org.br.
Tarifa Zero é possível?
A ideia do transporte público gratuito é tão possível quanto a da escola pública gratuita, da saúde pública gratuita, da segurança pública, da coleta de lixo e de uma série de serviços que são pagos pelas prefeituras, com nossos impostos. O problema no Brasil é que o transporte público se tornou um negócio tão rentável e poderoso que é quase intocável.
Há exemplos de transporte gratuito em outros países?
Quando elaborei o projeto para São Paulo descobri que apenas nos Estados Unidos existem ao menos 35 cidades, todas elas com mais de 200 mil habitantes, que já adotavam o transporte inteiramente subsidiado antes de 1990.
Em Hasselt, cidade com mais de 400 mil habitantes, na Bélgica, o transporte gratuito foi adotado em 1994 e desde então houve um aumento de 1000% na demanda. Daí a prefeitura de lá deixou de investir em uma série de obras, como anéis rodoviários, túneis e viadutos e alocou esses recursos na expansão do transporte público. Em Talim, na Estônia, o transporte já tinha um subsídio de 70% e recentemente, depois de um plebiscito, a cidade adotou a tarifa zero.
E no Brasil?
Pelo menos três cidades brasileiras - Ivaiporã, no Paraná; Porto Real, no Rio de Janeiro e mais uma cidade de Minas Gerais, que não me ocorre agora - já adotaram a gratuidade do transporte. Em São Paulo, a cidade de Paulínia tinha tarifa zero até 1990.
Qual seria a tarifa justa?
O transporte deveria ser gratuito porque as pessoas saem de casa para trabalhar, estudar, enfim, para movimentar a máquina que gera riqueza e faz com que as cidades possam ser mantidas. O transporte é uma atividade econômica como qualquer outra, que tem seus custos, assim como a educação, a limpeza pública, a segurança. O grande peso, no caso dos ônibus, é o da mão de obra (60%). Além disso, tem que remunerar o capital do empresário. A questão central é "Quem paga por isso?".
Quem paga?
Em outros países, a maior parte é paga pelo poder público. No Brasil, o subsídio é baixíssimo, cerca de 12%, quando em outros países chega a 70%. Daí que o transporte coletivo é caríssimo frente ao transporte individual e isso explica o uso tão intenso de carros e motos nas cidades brasileiras.
Por que a proposta da tarifa zero não deu certo em São Paulo?
Na época, nós fizemos um estudo sobre os custos e propusemos um aumento nos impostos para subsidiar o transporte. Uma pesquisa realizada pela prefeitura em 1990 mostrou que a maior parte da população havia compreendido a proposta e estava de acordo. O problema é que a Câmara Municipal decidiu não discutir a proposta, apesar da aprovação da sociedade. Nas discussões, notamos que os vereadores das comissões que avaliaram o projeto somente discutiam os itens que eram de interesse das empresas do setor, o que revelou uma influência forte dos empresários de transporte dentro do Legislativo.
O que o senhor acha das manifestações contra o aumento da tarifa?
Elas são a expressão de uma disputa política. E como em toda disputa política, há alguns setores no governo, na imprensa, que vão fazer o jogo dos empresários.
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quinta-feira, 9 de maio de 2013
Matéria sobe "Caro Francis", publicada em janeiro de 2010
Por conta do e-mail do Japs, mostrado no post anterior, fui procurar minha matéria sobre o lançamento do documentário "Caro Francis" na Tribuna de Indaiá. Pelos visto, não se preocuparam em colocá-lo na Internet, então faço isso eu mesmo, incluindo uma retranca
Documentário relembra o polemista Paulo Francis
Caro Francis,
segundo Nelson Hoineff, é o resgate de uma dívida de gratidão com o amigo
Marcos Kimura
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| O diretor Nelson Hoineff durante o lançamento de "Caro Francis" |
Quarta-feira (6 de janeiro de 2010), Reserva Cultural, na Avenida Paulista, onde na
minha juventude funcionavam os cines Gazeta e Gazetinha. Pergunto ao diretor de
Caro Francis, Nelson Hoineff, como
ele via as criticas de que faltou isenção jornalística no seu documentário.
“Não é para ser isento mesmo, é um trabalho a favor do Paulo Francis! É uma
pequena forma de pagar uma grande dívida de gratidão que tenho com ele”,
respondeu-me pouco antes da projeção. Finda a sessão e volto a abordá-lo, para
parabenizá-lo e desmenti-lo: “Não concordo com você. Você ouviu todos os lados
nas polêmicas abordadas no filme”.
Mas vamos ao começo. Por que é que o repórter de Cultura
desta Tribuna dirigiu até São Paulo, debaixo de uma tempestade, só para ver a
pré-estréia de um documentário? Pelo mesmo motivo de ter recebido mais ligações
quando Paulo Francis morreu, em 1997, do que quando meu próprio pai faleceu, em
2002. Se não devo favores e gentilezas pessoais ao comentarista do Pasquim, Folha, Estado, Jornal da Globo e
Manhattan Connection; graças a ele minha geração teve um guia de leitura
para um jovem se considerar minimamente informado, como bem observou, certa vez,
André Forastieri.
Voltando ao documentário em si: é verdade que, para
contrapor às declarações de Caio Túlio Costa no episódio que levou á saída de
Paulo Francis da Folha, Hoineff colocou Diogo Mainardi, cuja língua é mais
venenosa que do seu mestre, mas sem a mesma graça. A polêmica é minimizada no
livro oficial da Folha de S. Paulo
sobre seu caderno de Cultura, Pós-Tudo,
50 anos de Cultura na Ilustrada, mas na época a discussão incendiou a mídia
brasileira. A ida de Francis para o Estadão
tornou o Caderno 2, óbvia imitação da
Ilustrada, relevante. O filme de
Hoineff resgata o caso e permite aos mais jovens lembrarem que Costa fez
praticamente o mesmo com Paulo Henrique Amorim há uns dois anos no IG, só que
aí uma posição de poder que ele não tinha na Folha.
Hoineff é um jornalista de formação que virou documentarista
a partir do elogiado O Homem Pode Voar,
sobre Alberto Santos Dumont. Ano passado ele emplacou Alo, Alo Terezinha, sobre Abelardo Barbosa, o Chacrinha e agora
estréia Caro Francis, esta semana em
São Paulo e na próxima, no Rio. Em rápida entrevista na saída do filme, o
diretor disse que se fixou em alguns nós da carreira do amigo: seu início como
critico de teatro (marcado por um mal-entendido com a atriz Tônia Carrero, no
qual ele admitiu ter errado), sua participação no Pasquim (época em que foi
preso com quase toda a diretoria do hebdomadário), sua entrada na Globo (depois de ter desancado Roberto
Marinho anos a fio), a virada política de trostkista a fã de Roberto Campos, a
já mencionada saída da Folha e o
processo da Petrobrás que, segundo quase todos os amigos, acabou por matá-lo. Hoineff
diz que o que mais o surpreendeu foram os testemunhos sobre a generosidade e
demonstrações de amizade. “Eu achava que era só comigo”, conta. Perguntei qual
exatamente sua dívida com Francis, e o cineasta citou vários casos em que o
amigo usou seu prestígio pessoal para arrumar trabalho em diversos momentos
difíceis, sem que lhe fosse solicitado. “Esse era o Francis que os amigos conheciam”.
Desses, Hoineff disse que só não conseguiu falar com dois, Ivan Lessa, que mora
em Londres e está com um problema de saúde; e Millor Fernandes, por problemas
de agenda.
Vamos partir do princípio de que não existe documentário
isento. O clássico Corações e Mentes
já foi roteirizado a partir de uma posição contra a Guerra do Vietnã. O recente
Uma Verdade Inconveniente, além de
chato, é um catecismo com pouco ou nenhum espaço á contestação. E o que dizer
de Michael Moore então? Hoineff faz a lição de casa e deu voz tanto para Caio
Túlio quanto para Gustavo Krause, chamado por Francis de caipira antes de
assumir o Ministério da Fazenda, e João Rennó, o ex-presidente da Petrobrás que
processou o jornalista em US$ 100 milhões. No caso deste último, o diretor
gravou uma ligação telefônica, uma vez que ele se recusou a conceder
entrevista. Antiético, como escreveu Neusa Barbosa do Cineweb? Os telejornais globais fazem o mesmo cotidianamente.
É evidente que Francis foi irresponsável no episódio, que
aconteceu em um dos Manhattan Connection,
mas Rennó, ao invés de processá-lo como pessoa física por uma suposta calúnia
pessoal, o fez usando todo o poder da estatal e tendo como fórum os Estados
Unidos, o que não faz sentido, já que o programa só era transmitido para o
Brasil. O depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o caso é
hilário, em que ele revela ter aconselhado o então presidente da Petrobrás a
recuar, mas pergunta pateticamente para o entrevistador se ele o fez. Pô, ele
era o presidente da República! Curiosamente, a viúva Sonia Nolasco conta que
FHC foi um dos primeiros a ligar quando Francis morreu.
Muito além do polemista televisivo, Paulo Francis conhecia
história e política internacional como ninguém. Foi um dos poucos que previu que
Margaret Thatcher cairia após um voto de desconfiança do Parlamento em 1990 e
que o golpe contra Gorbatchev em 1991 não iria para a frente, quando muitos
analistas previam uma longa guerra civil. Nas Artes, suas especialidades eram o
teatro, a ópera e a literatura. Dizia que Irmãos
Karamazov indispensável, mas que preferia arrancar um dente a frio do que
reler certas passagens de Aliosha. Esse Francis que nos ensinou tanto
infelizmente não está no filme. Mas permanece o personagem que divertia com seu
texto único, suas opiniões idiossincráticas de que ríamos secretamente, quando
chamava Itamar Franco de Shirley, por exemplo. Caro Francis é para quem lia religiosamente o Diário da Corte às quintas e sábado (depois domingo, no Estadão) e aguardava suas pílulas no Jornal da Globo. Não tem Diogo Mainardi,
Arnaldo Jabor ou mesmo Daniel Piza que preencha o vazio que ele deixou.
Quem foi Paulo Francis
Hoje em dia temos que explicar desde o que era compacto
simples até quem foi Paulo Francis. Afinal, estamos perto de completar 13 anos
de sua morte. Como o próprio diretor do documentário "Caro Francis" disse, seu
filme não é um documentário explicando quando ele nasceu, quem foi sua primeira
professora, essas coisas, então vamos aos fatos importantes. Paulo Francis
nasceu quando Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn entrou para o Teatro do
Estudante, dirigido por Paschoal Carlos Magno, que achava que esse nome
germânico e aristocrático não dava certo no palco. Batizou-o de Paulo Francis,
que mais mais tarde achou que o nome parecia de bailarino de teatro de revista
Começou sua carreira na imprensa como crítico de teatro do Diário Carioca, onde se lançou no desafio de fazer resenhas
isentas, sem levar em consideração igrejinhas e vacas sagradas. Depois, teve
uma coluna política na Última Hora,
quando aprofundou seu esquerdismo e apoiou a resistência de Leonel Brizola ao
veto que o militares queriam impor ao vice de Jânio Quadros, João Goulart. Após
o golpe de 64, fez parte da primeira turma do Pasquim, o semanário que revolucionou a linguagem jornalística, da
qual fizeram parte Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Millor Fernandes,
Sérgio Cabral e tantos outros. Também escreveu para a Tribuna de Imprensa. No
início dos anos 70 mudou-se para Nova York e passou a ser correspondente do
próprio Pasquim, da Tribuna da Imprensa, da revista Status (a Playboy da época) e a partir
de 1976, da Folha de S. Paulo, a
convite de Cláudio Abramo. O Diário da
Corte, uma página inteira com ilustração de Marisa, publicado às quintas e
sábados, torna-se a coluna mais lida do jornal. Em 1980 passa ser comentarista
do Jornal da Globo e se torna
celebridade nacional, sendo imitado por humoristas como Chico Anysio e Hubert,
do Casseta e Planeta. Em 1990, após a briga com o ombudsman Caio Túlio Costa, sai da Folha e vai para o concorrente O
Estado de São Paulo. Em 1993, passa a fazer parte do time do Manhattan Connection, do canal pago GNT, no qual é a principal atração. É
por causa de um comentário feito nesse programa, em 1997, que o então
presidente da Petrobrás, João Rennó, decide processá-lo por calúnia numa ação
de US$ 100 milhões, como foro em Nova York. Morreu de ataque cardíaco em 4 de
fevereiro daquele ano.
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