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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Corra! – Um filme a ser visto

Consagrado com o percentual de 99% de avaliações positivas no Rotten Tomatoes, o site americano que recolhe críticas de filme em todos EUA, “Corra!” estreia esta semana no Brasil. O autor – diretor e roteirista – é Jordan Peele, um comediante praticamente desconhecido por aqui (mas que já ganhou um Emmy em 2012), que conseguiu juntar cerca de 5 milhões de dólares para realizar seu projeto, que arrecadou quase 175 milhões até o dia 15 deste mês.

Daniel Kaluuya (da série “Black Mirror”) é o jovem fotógrafo negro Chris Washington, que namora a hipster branca Rose Armitage (Allison Williams, do seriado “Girls”, em sua estreia no cinema). Eles partem em viagem para visitar os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Withford, do melhor seriado político americano – fuck “House of Cards” – “The West Wing”) e a terapeuta Missy (Catherine Keener, de “Quero ser John Malkovich” e “O Virgem de 40 anos”), além do irmão esquisitão Jeremy (Caleb Landry Jones, o Banshee de “X-Men: Primeira Classe”). Ele fica sabendo que o pai votaria no Obama para um terceiro mandato, que a mãe usa hipnose para curar tabagismo e que o irmão tem tendências psicopatas. Além disso, o caseiro e a criada negros comportam-se como zumbis. Mas a coisa piora quando ele fica sabendo que naquele fim de semana acontece uma grande festa cheia de brancos ricos e esquisitos, que o tratam com uma condescendência acima do normal, e que o único negro presente além dele, Andrew (Lakeith Stanfield, de “Straight Outta Compton”) também parece um morto vivo.  Mas um incidente faz com que Andrew desperte e grite para Chris o título do filme: Corra! Ou Get Out, em inglês.

Até então o que me vinha à mente era que se tratava de uma espécie de “Esposas de Stepford” (que, por sua vez é nitidamente inspirado em “Vampiro de Almas”) com negros. Mas aí vemos que o negócio é outro, e mais aterrorizante. A virada final é sensacional e faz  o filme ganhar vida. Chris, até então se comportando como negro “civilizado” em um campo minado, tem que lutar por sua vida de forma inesperada.

Se nos EUA o filme causou um grande impacto, aqui ele recebeu resenhas mornas do meu amigo Ângelo Cordeiro, no Nerd Interior, e Marcelo Hessel, no Omelete. Acho que a diferença é de contexto. Numa América pós-Obama e em pleno governo Trump, o clima opressivo do filme causa identificação imediata. Não é apenas o racismo segregacionista, mas os clichês dominantes entre os brancos sobre negros. Possivelmente a visão de humorista do diretor Peele seja responsável por este mérito de “Corra!”. E pouco depois de ver o brazuca “O Rastro”, outro terror que aborda temas contemporâneos, admiramos ainda mais as soluções do roteiro americano.

A escalação do elenco é outro trunfo do filme, desde o protagonista Daniel Kaluuya, passando pelo seu melhor amigo Rod, um segurança de aeroporto interpretado por LilRel Howery (do sitcom de curta vida “The Carmichael Show”), pela família da moça e os criados, especialmente na caracterização sinistra de Betty Gabriel.


Não costumo dar notas neste blog, mas como agora colaboro intermitentemente com o Nerd Interior, que pede notas, dou 8/10. Para mim mais satisfatório dentro do tema que o vencedor do Oscar “Moonlight”.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera: já vimos

Um dos filmes mais esperados do semestre – pelo menos pelas mulheres – a versão live action de “A Bela e a Fera” chega esta semana nos cinemas brasileiros. Emma Watson, a eterna Hermione da franquia “Harry Potter”, estrela a produção que traz Dan Stevens, protagonista da ótima série “Legion”, como a Fera. Luke Evans,  o Vlad de “Drácula, a história nunca contada”, é o vilão Gaston e Josh Gad, de “Pixels”, seu valete Le Fou.

Para mim, este “A Bela e a Fera” remeteu mais ao universo do seriado “Once upon a time” que à animação que foi a única até hoje a concorrer ao premio principal do Oscar. Todo mundo conhece a história, decerto, mas há mais canções (até demais) e consequentemente mais metragem (zzz...). A ação se passa numa França que parece ter perdido a Guerra dos 100 anos, dada a quantidade de britânicos no elenco – além de Emma, Evans e Stevens, ainda tem Ewan McGregor (“Trasnpotting”), Ian McKellen (o Gandalf de  “Senhor dos Anéis”) e Emma Thompson (“Simplesmente Amor”) como os utensílios animados do castelo. A presença da atriz e cantora seis vezes vencedora do Tony, Audra McDonald, sugere que teremos em breve uma versão para o palco do filme.


Embora Hollywood adore um sotaque britânico e considere os súditos de Elizabeth II melhores atores, a atuação do elenco é irregular, com estaque negativo para Luke Evans, definitivamente canastrão como vilão. Josh Gad, por sua vez, surpreende como seu comparsa e, talvez, algo mais. O ótimo Kevin Kline interpreta o pai de Bela, num desperdício e um ator que já viveu dias melhore, como em seu merecido Oscar por “Um peixe chamado Wanda”. Dan Stevens se esforça para atuar debaixo de uma roupa que tinha até ventilador no traseiro e com a voz alterada eletronicamente, e Emma Watson, bom, faz tempo que ela trabalha mais com sua persona pública que como atriz. O CGI é surpreendentemente ruim, especialmente depois de assistir há pouco “Kong – A Ilha da Caveira” e levar em consideração que trata-se de uma produção Disney. Não que nada  disso importe para o público-alvo, que são as mulheres que tem no desenho animado de 1991 uma referencia afetiva. Para estas, vai valer a ida ao cinema.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: quem leva?

A cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o popular Oscar, acontece neste domingo, com transmissão pelo canal pago TNT (a Globo . Nas chamadas para o programa, Rubens Edwald Filho afirma que é a maior premiação do mundo do entretenimento, o que é verdade. A penetração que a música (Grammy), TV (Emmy) ou mesmo teatro (Tony) americanos tem no mundo inteiro não se compara à do cinema, que vem se ampliando até em territórios antes inexpugnáveis, como a China.

A Grande Aposta
Se em 2015, “Birdman” era barbada, neste a disputa é bem mais equilibrada. “Spotlight”, “A Grande Aposta” e “O Regresso” são igualmente favoritos, com ligeira desvantagem para o último porque o diretor Alessandro Iñarritu ganhou Filme e Direção (justamente com “Birdman”) no ano passado. A lógica é que o Melhor Filme leva também Direção, mas não para a Academia, que recentemente esnobou Steve McQueen (“12 anos de escravidão”), e Ben Affleck (“Argo”) mesmo premiando seus filmes. Pior foi
Spotlight - Segredos Revelados
há dez anos, quando deram a estatueta para o medíocre “Crash – No limite” mas a consciência pesada fez com que premiassem a direção de Ang Lee pelo muito melhor “Brokeback Mountain”. Além do mais, se Iñarritu fizer o bis, serão três anos seguidos de mexicanos (em 2014, que levou foi Alfonso Cuaron por "Gravidade"). Só se fosse para Donald Trump perder a peruca. Enfim, no próximo domingo, é grande a chance que o Oscar vá para um cineasta sem renome, como Tom McCarthy (“Spotlight”), Adam McKay (“A Grande Aposta”). Pessoalmente, “Mad Max Estrada da Fúria” é meu preferido para Filme e Direção, mas não vai rolar.

Brie Larson em O Quarto de Jack
Nas atuações – ladies first – deve dar a novata Brie Larson por “O Quarto de Jack” como Melhor Atriz e Alicia Vikander por “A Garota Dinamarquesa”. Para mim, Charlotte Rampling em "45 anos" faz um trabalho superior e até mesmo Jennifer Lawrence em "Joy" está melhor, mesmo que o filme não ajude. O "Quarto de Jack" é totalmente centrado no garoto Jacob Tremblay, que está ótimo e não foi lembrado, talvez porque não de para enquadrá-lo como coadjuvante, e como principal não fica bem.
Nos prêmios masculinos, prevejo muita comoção pelo premio de Ator Coadjuvante para Sylvester Stallone por “Creed” (já foi emocionante no Globo de Ouro) e por finalmente darem o Oscar a Leonardo Di Caprio, nem tanto por “O Regresso”, mas pela sua carreira brilhante, que é uma rara combinação de carisma de lead man e talento como intérprete. Christian Bale está excelente em “A Grande aposta” (quem lembra de Batman ao vê-lo neste filme?) e Michael Fassbender brilha em “Steve Jobs”, mas não o suficiente para tirar o doce da boca de Leo, que se não ganhar desta vez, é melhor pensar num filme de Holocausto.
Leonardo di Caprio em "O Regresso"


Os roteiros são um capítulo à parte este ano, com vários trabalhos de alto nível, até entre os esquecidos pela Academia, como “Steve Jobs” de Aaron Sorkin. Mas pelas premiações pregressas, deve dar “A Grande Aposta”, de Charles Randolph eAdam McKay entre os Adaptados; e “Spotlight”, de Josh Singer e Tom McCarhty entre os Originais. Vencedor de dois Oscars e Fotografia, Emmanuel Lubezki deve levar o terceiro por “O Regresso”.


Divertida Mente
Este ano, o prêmio de Animação ganhou um interesse especial para nós pela indicação do brasileiro “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu. Se fosse no ano passado, até teria chance, mas contra “Divertida Mente”, fica difícil. Na categoria Filme Estrangeiro, nem o brazuca “Que horas ela volta?” ou o argentino “O Clã” – Leão de Outro em Veneza – entraram. O húngaro “O Filho de Saul” é o favorito, preenchendo a cota “Filme de Holocausto”. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Matéria sobe "Caro Francis", publicada em janeiro de 2010


Por conta do e-mail do Japs, mostrado no post anterior, fui procurar minha matéria sobre o lançamento do documentário "Caro Francis" na Tribuna de Indaiá. Pelos visto, não se preocuparam em colocá-lo na Internet, então faço isso eu mesmo, incluindo uma retranca

Documentário relembra o polemista Paulo Francis

Caro Francis, segundo Nelson Hoineff, é o resgate de uma dívida de gratidão com o amigo

Marcos Kimura

O diretor Nelson Hoineff durante o lançamento de "Caro Francis"
Quarta-feira (6 de janeiro de 2010), Reserva Cultural, na Avenida Paulista, onde na minha juventude funcionavam os cines Gazeta e Gazetinha. Pergunto ao diretor de Caro Francis, Nelson Hoineff, como ele via as criticas de que faltou isenção jornalística no seu documentário. “Não é para ser isento mesmo, é um trabalho a favor do Paulo Francis! É uma pequena forma de pagar uma grande dívida de gratidão que tenho com ele”, respondeu-me pouco antes da projeção. Finda a sessão e volto a abordá-lo, para parabenizá-lo e desmenti-lo: “Não concordo com você. Você ouviu todos os lados nas polêmicas abordadas no filme”.
Mas vamos ao começo. Por que é que o repórter de Cultura desta Tribuna dirigiu até São Paulo, debaixo de uma tempestade, só para ver a pré-estréia de um documentário? Pelo mesmo motivo de ter recebido mais ligações quando Paulo Francis morreu, em 1997, do que quando meu próprio pai faleceu, em 2002. Se não devo favores e gentilezas pessoais ao comentarista do Pasquim, Folha, Estado, Jornal da Globo e Manhattan Connection; graças a ele minha geração teve um guia de leitura para um jovem se considerar minimamente informado, como bem observou, certa vez, André Forastieri.
Voltando ao documentário em si: é verdade que, para contrapor às declarações de Caio Túlio Costa no episódio que levou á saída de Paulo Francis da Folha, Hoineff colocou Diogo Mainardi, cuja língua é mais venenosa que do seu mestre, mas sem a mesma graça. A polêmica é minimizada no livro oficial da Folha de S. Paulo sobre seu caderno de Cultura, Pós-Tudo, 50 anos de Cultura na Ilustrada, mas na época a discussão incendiou a mídia brasileira. A ida de Francis para o Estadão tornou o Caderno 2, óbvia imitação da Ilustrada, relevante. O filme de Hoineff resgata o caso e permite aos mais jovens lembrarem que Costa fez praticamente o mesmo com Paulo Henrique Amorim há uns dois anos no IG, só que aí uma posição de poder que ele não tinha na Folha.
Hoineff é um jornalista de formação que virou documentarista a partir do elogiado O Homem Pode Voar, sobre Alberto Santos Dumont. Ano passado ele emplacou Alo, Alo Terezinha, sobre Abelardo Barbosa, o Chacrinha e agora estréia Caro Francis, esta semana em São Paulo e na próxima, no Rio. Em rápida entrevista na saída do filme, o diretor disse que se fixou em alguns nós da carreira do amigo: seu início como critico de teatro (marcado por um mal-entendido com a atriz Tônia Carrero, no qual ele admitiu ter errado), sua participação no Pasquim (época em que foi preso com quase toda a diretoria do hebdomadário), sua entrada na Globo (depois de ter desancado Roberto Marinho anos a fio), a virada política de trostkista a fã de Roberto Campos, a já mencionada saída da Folha e o processo da Petrobrás que, segundo quase todos os amigos, acabou por matá-lo. Hoineff diz que o que mais o surpreendeu foram os testemunhos sobre a generosidade e demonstrações de amizade. “Eu achava que era só comigo”, conta. Perguntei qual exatamente sua dívida com Francis, e o cineasta citou vários casos em que o amigo usou seu prestígio pessoal para arrumar trabalho em diversos momentos difíceis, sem que lhe fosse solicitado. “Esse era o Francis que os amigos conheciam”. Desses, Hoineff disse que só não conseguiu falar com dois, Ivan Lessa, que mora em Londres e está com um problema de saúde; e Millor Fernandes, por problemas de agenda.
Vamos partir do princípio de que não existe documentário isento. O clássico Corações e Mentes já foi roteirizado a partir de uma posição contra a Guerra do Vietnã. O recente Uma Verdade Inconveniente, além de chato, é um catecismo com pouco ou nenhum espaço á contestação. E o que dizer de Michael Moore então? Hoineff faz a lição de casa e deu voz tanto para Caio Túlio quanto para Gustavo Krause, chamado por Francis de caipira antes de assumir o Ministério da Fazenda, e João Rennó, o ex-presidente da Petrobrás que processou o jornalista em US$ 100 milhões. No caso deste último, o diretor gravou uma ligação telefônica, uma vez que ele se recusou a conceder entrevista. Antiético, como escreveu Neusa Barbosa do Cineweb? Os telejornais globais fazem o mesmo cotidianamente.
É evidente que Francis foi irresponsável no episódio, que aconteceu em um dos Manhattan Connection, mas Rennó, ao invés de processá-lo como pessoa física por uma suposta calúnia pessoal, o fez usando todo o poder da estatal e tendo como fórum os Estados Unidos, o que não faz sentido, já que o programa só era transmitido para o Brasil. O depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o caso é hilário, em que ele revela ter aconselhado o então presidente da Petrobrás a recuar, mas pergunta pateticamente para o entrevistador se ele o fez. Pô, ele era o presidente da República! Curiosamente, a viúva Sonia Nolasco conta que FHC foi um dos primeiros a ligar quando Francis morreu.
Muito além do polemista televisivo, Paulo Francis conhecia história e política internacional como ninguém. Foi um dos poucos que previu que Margaret Thatcher cairia após um voto de desconfiança do Parlamento em 1990 e que o golpe contra Gorbatchev em 1991 não iria para a frente, quando muitos analistas previam uma longa guerra civil. Nas Artes, suas especialidades eram o teatro, a ópera e a literatura. Dizia que Irmãos Karamazov indispensável, mas que preferia arrancar um dente a frio do que reler certas passagens de Aliosha. Esse Francis que nos ensinou tanto infelizmente não está no filme. Mas permanece o personagem que divertia com seu texto único, suas opiniões idiossincráticas de que ríamos secretamente, quando chamava Itamar Franco de Shirley, por exemplo. Caro Francis é para quem lia religiosamente o Diário da Corte às quintas e sábado (depois domingo, no Estadão) e aguardava suas pílulas no Jornal da Globo. Não tem Diogo Mainardi, Arnaldo Jabor ou mesmo Daniel Piza que preencha o vazio que ele deixou.

Quem foi Paulo Francis

Hoje em dia temos que explicar desde o que era compacto simples até quem foi Paulo Francis. Afinal, estamos perto de completar 13 anos de sua morte. Como o próprio diretor do documentário "Caro Francis" disse, seu filme não é um documentário explicando quando ele nasceu, quem foi sua primeira professora, essas coisas, então vamos aos fatos importantes. Paulo Francis nasceu quando Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn entrou para o Teatro do Estudante, dirigido por Paschoal Carlos Magno, que achava que esse nome germânico e aristocrático não dava certo no palco. Batizou-o de Paulo Francis, que mais mais tarde achou que o nome parecia de bailarino de teatro de revista Começou sua carreira na imprensa como crítico de teatro do Diário Carioca, onde se lançou no desafio de fazer resenhas isentas, sem levar em consideração igrejinhas e vacas sagradas. Depois, teve uma coluna política na Última Hora, quando aprofundou seu esquerdismo e apoiou a resistência de Leonel Brizola ao veto que o militares queriam impor ao vice de Jânio Quadros, João Goulart. Após o golpe de 64, fez parte da primeira turma do Pasquim, o semanário que revolucionou a linguagem jornalística, da qual fizeram parte Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Millor Fernandes, Sérgio Cabral e tantos outros. Também escreveu para a Tribuna de Imprensa. No início dos anos 70 mudou-se para Nova York e passou a ser correspondente do próprio Pasquim, da Tribuna da Imprensa, da revista Status (a Playboy da época) e a partir de 1976, da Folha de S. Paulo, a convite de Cláudio Abramo. O Diário da Corte, uma página inteira com ilustração de Marisa, publicado às quintas e sábados, torna-se a coluna mais lida do jornal. Em 1980 passa ser comentarista do Jornal da Globo e se torna celebridade nacional, sendo imitado por humoristas como Chico Anysio e Hubert, do Casseta e Planeta. Em 1990, após a briga com o ombudsman Caio Túlio Costa, sai da Folha e vai para o concorrente O Estado de São Paulo. Em 1993, passa a fazer parte do time do Manhattan Connection, do canal pago GNT, no qual é a principal atração. É por causa de um comentário feito nesse programa, em 1997, que o então presidente da Petrobrás, João Rennó, decide processá-lo por calúnia numa ação de US$ 100 milhões, como foro em Nova York. Morreu de ataque cardíaco em 4 de fevereiro daquele ano.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pitacos do Oscar 2 - Quem leva

Jessica Chastain em "A hora mais escura"
Ontem assisti "A Hora mais escura" e fechei a conta dos favoritos ao Oscar (hoje estréia em todo o País "Indomável Sonhadora" e, em Indaiatuba, "Amor", mas o primeiro tem poucas chances e o segundo deve levar apenas o premio de filme estrangeiro).
Daniel Day-Lewis é aposta certa para melhor ator por sua extraordinária caracterização como "Lincoln". Será o primeiro com tres premios de ator principal. Entre as mulheres, depois de ver Jessica Chastain ontem, me parece que o favoritismo de Jennifer Lawrence se confirma: sua rival está bem em "A Hora mais Escura", mas a jovem estrela de "Jogos Vorazes" é destaque absoluto num elenco em que todo mundo foi indicado (Bradley Coooper como ator, Robert de Niro e Jacki Weaver como coadjuvantes poe "O lado bom da vida"). Aliás, é uma pena que De Niro tenha concorrentes tão bons como Alan Arkin em "Argo", Christoph Waltz em "Django Livre" e Tommy Lee Jones em "Lincoln", que aparentemente deve ganhar. Entre as mulheres a disputa é ainda mais interessante, a queridinha da Academia Sally Field (dois Oscars) concorrendo por "Lincoln" contra a namoradinha da América Anne Hatthaway, indicada por sua atuação em "Os Miseráveis". Sally está muito bem como a primeira-dama Mary Todd Lincoln, mas Anne tem aquele número emocionante cantando as desgraças de Fantine, que é a cara do Oscar. Pra mim, já ganhou.
A grande incógnita é o grande prêmio de filme. O mais premiado até agora é "Argo", cujo diretor não foi indicado, uma contradição em termos. É muito bom, mas não sensacional, e um dos pontos fortes é justamente a direção de Ben Affleck. "Lincoln", o segundo favorito, é gradiloquente mas não grande, e Spielberg não está em sua melhor forma (mas pode levar o premio de direção só com seu nome). "Os Miseráveis" corre por fora mas, francamente, não merece. "A hora mais escura" trata de um tema contemporâneo, mostra a competencia de Katryn Bigelow para películas de ação (e ela nem foi indicada), porém, não é muito mais que um bom thriller. A irreverência e inconvencionalismo de Quentin Tarantino tiram ele e "Django Livre" dos páreos de direção e filme, mas pode lhe dar um novo Oscar de roteiro original. "As aventuras de Pi" é bonito, mas não acho que rendam a ele e a Ang Lee os grandes premios. Resumindo, acho que dá "Argo" como melhor filme e Steven Spielberg como diretor (lembrando que ele ganhou seu segundo premio pela direção de "O Resgate do Soldado Ryan" em 1999, ano em que "Shakespeare Apaixonado" foi o melhor filme).
Dentro dessa lógica, "Argo" deve levar ainda o premio de roteiro adaptado e o original deve ficar entre "Django Livre" e "A hora mais escura". O filme estrangeiro deve ser "Amor" e a melhor canção, "Skyfall" com Adele. Este ano, uma das categorias mais legais, o de longa de animação, tem a lista mais fraca dos últimos anos. "Valente" é o trabalho mais fraco da Pixar junto com "Carros 1 e 2", "Detona Raplh" da Disney é ok, mas não sensacional. Será que Tim Burton leva por "Frankenweenie"? Curiosamente, um dos autores mais originais e bem sucedidos de Hollywood até  hoje só foi indicado pela produção de dois filmes de animação, este e "A noiva cadáver".
A Globo inicia a transmissão do Oscar domingo a partir das 23h30 (por causa do maldito BBB), mas quem tem TV por assinatura pode ver o pré-show na TNT a partir das 20h30 e o início da cerimônia de premiação a partir  das 21h30.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Considerações sobre "Django Livre"

O quarteto principal em um único enquadramento

Primeira coisa a dizer sobre “Django Livre”: é muito bom, e é programa imperdível para cinéfilos em geral. É lógico que conhecer um pouco de western spaghetti ajuda, já que Quentin Tarantino usa e abusa de suas marcas registradas, que de certa forma deu sobrevida ao faroeste americano, moribundo nos anos 60 e 70, auge do bang-bang à italiana. Sérgio Leone deu respeitabilidade ao gênero, com sua trilogia dos dólares e a obra-prima “Era uma vez no Oeste”. Mas Tarantino tem como referencia outro Sérgio, o Corbucci, um daqueles diretores que trabalhavam incessantemente na então prolífica indústria cinematográfica italiana, mas que nunca entrou para o clube dos “maestros”. No entanto, fez grandes filmes como o próprio “Django” original, “Vamos matar, companheiros” e “O Vingador Silencioso”.
 É curioso como nenhum crítico tenha percebido o sarcasmo de Tarantino contra seus próprios compatriotas em “Bastardos Inglórios” e agora em “Django Livre”. No primeiro, quem praticam os atos mais brutais e os massacres mais sagrentos são os ianques. O diretor ainda brinca com a ingenuidade de grande parte dos roteiros “men on mission” que ele homenageia no filme: seria possível um bando de americanos francamente monoglota conseguir se passar por alemães ou mesmo italianos em plena Europa ocupada? De forma categórica e cinematograficamente primorosa, Tarantino mostra que não.
Seu western spaghetti na verdade se passa bem antes do período clássico dos faroestes, que são as décadas 1870 e 1880. Datando sua história em 1858, o cineasta coloca a ação na época e no coração do escravagismo, quando ninguém imaginava que dois anos depois, Abraham Lincoln dividiria o país por causa da abolição, tema do filme de Spielberg que estreia na próxima sexta, aliás. O período é ideal para abordar uma das maiores vergonhas da civilização ocidental, mas não é o melhor para o bang-bang. Revólveres ainda não eram tão fáceis de encontrar e ainda não haviam sido inventados os rifles com cartucho metálico (a tecnologia da morte só seria incrementada pela Guerra Civil). Mas é uma licença poética menor em relação ao massacre de Adolf Hitler e toda a elite nazista em seu filme anterior. 
Com revolveres Colt e rifles Henry e Sharp (ambos não existentes em 1858), Django (Jamie Foxx) e o dr. King Schultz (Christoph Waltz, ganhador do Globo de Ouro e candidato ao Oscar de novo) detonam malfeitores e escravagistas - entre os quais, Don Johnson e uma hilária proto-Klu Klux Klan -  em um mar de sangue e tripas, para alegria e catarse da plateia, pois vemos ao mesmo tempo a crueldade da escravidão, essa sim,com grande acuidade histórica, incluindo o instrumentos de tortura usados para punir e/ou dificultar a fuga, que eu mesmo pensava que eram exclusividade luso-brasileira (uma pesquisa rápida mostra que houve intercâmbio de técnicas de tortura entre EUA e Brasil muito antes de Dan Mitrione).
Mas como vários grandes cineastas, como Hitchcock, Buñuel e Almodóvar, Tarantino cede às suas obsessões. É notória sua obsessão por pés femininos, ainda mais grandes como os de Uma Thurman, mas menos percebida ou comentada é como ele gosta de judiar das mulheres (nos filmes, é claro). Suas heroínas são habitualmente estupradas, torturadas, esfaqueadas e assassinadas. Depois de Uma em “Pulp Fiction” e “Kill Bill”, das pobres Vanessa Ferlito, Sydney Tamia Poitier, Jordan Ladd, Rose McGowan e Mary Elisabeth Winsted em “À Prova de Morre”;  Mèlani Laurent e Diane Kruger em “Bastardos Inglórios, agora é a vez de Kerry Washington comer o pão que o diabo amassou. Seu calvário é a motivação para que seu homem parta em sua Odisséia sem Ítaca. A opção por Foxx ao invés de Will Smith, como se pretendia inicialmente, foi acertada: ele passa a intensidade da paixão pela mulher que o leva a uma busca quase suicida.
Até que Django a encontre, Brunhilde Von Shaft (Kerry Washington) sofre muito
Tem razão quem acha que a Academia de Hollywood esnobou novamente Leonardo Di Caprio. Seu fazendeiro sulista é sensacional, e justifica ele ter sido a primeira escolha para ser o Coronel Hans Landa (Tarantino acabou preferindo um ator que falasse alemão fluente, para sorte de Waltz), especialmente em sua grande cena, em que cortou a mão de verdade.  Outro que brilha é Samuel L. Jackson como o mordomo f.d.p.. O personagem é uma ótima sacada, faz o roteiro escapar do maniqueísmo preto e branco. Gente como Spike Lee fica furioso por ele abusar do termo nigger em quase todos seus filmes, e seu parceiro desde “Pulp Fiction” dispara um a cada meio minuto. Assim como o holocausto judeu só foi possível com o auxílio e conivência dos próprios judeus, a escravidão nas Américas só foi possível com a participação ativa de muitos negros como o personagem de Jackson, que ainda manda um contemporâneo motherfucker para completar a provocação.
***
Aliás, acabo de ler no ótimo “1493”, de Carl C. Mann (autor do igualmente fundamental “1491”), que “os africanos da região central insistiam que os visitantes europeus usassem a palavra portuguesa “negro” para se referir a escravo e a palavra portuguesa “preto” para se referir a africanos livres”. Daí, o termo pejorativo em inglês “nigger”, de negro, enquanto os afronorte-ameticanos se autodenominam “black”. Aqui, onde falamos português, é o contrário: “preto” é feio e negro que é “bonito”. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tarantino está de volta em "Django Livre"

O Django de Tarantino, Jamie Foxx, encontra o Django de Sergio Corbucci, Franco Nero
“Django Livre”, de Quentin Tarantino, chega aos cinemas brasileiros nesta sexta (inclusive Indaiatuba, obrigado Lui Cinematográfica). Quando o cineasta foi anunciado como vencedor do Globo de Ouro de Melhor Roteiro no último domingo, o crítico Rubens Edwald Filho – que não é exatamente fã dele – comentou que ele havia conseguido transformar seu nome em um subgênero cinematográfico, o que é uma proeza. Antes dele, talvez só Frank Capra com suas comédias otimistas; Alfred Hitchcocok, com suas obras-primas do suspense; John Ford e seus westerns; Cecil B. de Mille com suas superproduções, Woody Allen e seu humor “cabeça” e o antigo Steven Spielberg pré-“A Lista de Schindler” haviam conseguido isso.
Recentemente comprei o livro “Quentin Tarantino”, de Paul Woods, uma compilação de resenhas sobre sua obra publicado originalmente em 2005 e atualizado ano passado para incluir textos sobre “Sin City” (em que ele dirige a melhor cena), “A Prova e Morte” e “Bastardos Inglórios”. É decepcionante no geral, nem tanto por não conter material inédito, mas porque as análises arranham a superfície do fenômeno Tarantino, mas não sua essência. Em resumo, não é a mistura de gêneros como kung fu, samurai, western spaghetti, policiais B ou filmes de guerra italianos - considerados menores – que fazem dele um grande diretor, mas sim saber identificar o grande cinema em filmes pequenos e transferir isso ao seu trabalho. Isso o treinou para ter um olho cinematográfico como poucos. Considere seu segmento “O Homem de Hollywood” em “Grande Hotel”, inspirado em um episódio da série de TV “Alfred Hitchcock apresenta”. A câmera entra no apartamento como a visão subjetiva da personagem de Tim Roth, num longo take em que ela é apresentada pelo próprio Tarantino aos participantes da festinha.É inspirado em “Festim Diabólico”, do mesmo Hitchcock, é sozinha, a cena é melhor que tudo o que Alison Anders, Alexandre Rockwell (que fim deram?) e Robert Rodriguez fizeram nos metros de celulóide anteriores. E a abertura de “Bastardos Inglórios”, com a música de western spaghetti, o enquadramento em panorâmica enquanto o camponês francês corta lenha?  Introduz e forma perfeita e inusitada a visita amistosamente ameaçadora do coronel Hans Landa, que durante o filme só comete um ato de violência pessoalmente, mas ainda assim é um dos vilões mais fascinantes do cinema contemporâneo.
Aliás, violência é, sim, marca regirada do cinema de Quentin Tarantino, como o subtítulo brasileiro de Pulp Fiction vaticinava: a partir daquele trabalho começava um Tempo de Violência em Hollywood. Mas não se trata de apologia, banalização ou seja lá o que mais se tenha acusado o diretor. É uma estética tirada daqueles filmes “pequenos” dos irmãos Shaw, Sergio Corbucci, Enzo Castellari, Sonny Chiba e tantos outros. Por exemplo, após a orgia de laminas e sangue em Kill Bill, segue-se a quase poética luta entre a Noiva e Oren-Ishi, sobre a neve e ao som de Santa Esmeralda.
Em “À Prova de Morte”, no entanto, suas experiências com a violência atingiram o limite do suportável, e se constituiu em seu maior fracasso. Mas ele persistiu em sua estética sádica, só que mudando de alvo, de quatro jovens lindas para nazistas, tipo de vilão de quem ninguém tem dó. Em “Django Livre”, as “vítmas” do massacre também são igualmente desprezíveis, traficantes de escravos e sulistas escravocratas. Daqui a pouco vou ver e escreverei minhas impressões.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Woody Alen perde o rumo para Roma

Penelope Cruz, única espanhola entre diversos italianos

Dizem que todos os caminhos levam a Roma, mas esse não foi o caso para Woody Allen. De todos seus recentes filmes-homenagens a cidades europeias (alguns deles, generosamente subsidiados pelas respectivas prefeituras – “Para Roma com Amor” é a pior. E curiosamente, na semana passada, a revista Sight and Sound divulgou sua lista anual de melhores filmes de todos os tempos, ressaltando as escolhas de alguns diretores convidados, Alen entre eles. Os top 10 do novaiorquino são 1º ) Ladrões de Bicicletas (1948, de Vittorio De Sica); 2º) O Sétimo Selo (1957, de Ingmar Bergman); 3º) Cidadão Kane (1941, de Orson Welles); 4º) Amarcord (1973, de Federico Fellini); 5º) 8 1/2 (1963, também de Federico Fellini); 6º) Os Incompreendidos (1959, de Francois Truffaut); 7º) Rashomon (1950, de Akira Kurosawa); 8º) A grande Ilusão (1937, de Jean Renoir); 9º) O Discreto Charme da Burguesia (1972, de Luis Bunuel) e, 10º) Glória Feita de Sangue (1957, de Stanley Kubrick). Como se vê, a lista de Mr. Allen tem três filmes de diretores italianos, contra apenas dois de americanos, dois de autores franceses, um espanhol, um sueco e um japones. Fica, portanto, frisada sua predileção pelo cinema produzido na Itália.
Infelizmente seu filme mais recente não consegue chegar a ser uma homenagem decente a essa cinematografia que ele tanto aprecia. O episódio italiano de “Tudo o que voce sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar” (1972) é um tributo mais adequado do que todo “Para Roma com Amor”. Allen parece ter tentado homenagear uma moda da Itália dos anos 60 – o filme de episódios amarrados por um tema em comum. Alguns resultavam em obras de qualidade, como “Rogopag” (1963), cujo título era formado pelos nomes dos diretores Rosselini, Goddard, Pasolini e Gregoretti; outros eram produtos oportunistas que reuniam realizadores e elenco de prestígio como chamariz do público, como “As Bonecas” (1965).
Allen amarra – frouxamente – seus episódios em torno da Cidade Eterna, mas esta resulta numa Roma para turista, estereotipada, sem alma. O melhor segmento, o do estudante de arquitetura  Jesse Eisenberg sendo seduzido por Ellen Page, como a amiga maluca de sua namorada; é cópia de “Igual a tudo nessa vida”, incluindo o conselheiro vivido por Alec Baldwin, que no outro filme era vivido pelo próprio Allen.
O episódio mais fraco é, de longe, o do casal interiorano, justamente  que remete mais á comédia de costumes clássica italiana. À exceção de Penelope Cruz, os demais atores estão mal dirigidos, talvez por causa da barreira do idioma, desperdiçando um enredo que poderia ser melhor. Destaque para a rápida aparição de Ornella Muti, ex-musa de Marco Ferreri, inesquecível em “Crônica do amor louco” (“Love”, diria o recém-falecido Ben Gazzara, com Ornella debruçada na janela...).
Para finalizar, a idade tirou a graça de Allen como comediante, algo que já dava para notar em “Scoop” (2006), sua aparição anterior como ator, uma pena, já que ele foi um dos grandes do humor verbal americano.  Ao mesmo tempo, Roberto Benigni continua previsível e sem graça.