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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Oscar 2015 - acertamos o que importava

Sean Penn anunciando "Birdman" como Melhor Filme: "quem eu  o
Greencard pra esses caras?" 
Mais uma premiação da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, o popular Oscar, foi realizada ontem, dia 22,fazendo com que cerca de 1 bilhão de pessoas sintonizassem o show na TV em 24 fusos horários diferentes. Nenhum outro evento do gênero desperta tanto interesse global, nenhuma láurea é tão reconhecida, fora o Nobel.Eo Conversa de Botequim On Line acertou no que importava (clique aqui)!

No entanto, esse espetáculo cheio de pompa e circunstância não deixa de ser o que foi desde o começo: uma festa paroquial de autocongratulação da indústria de cinema americano.  É como chamar o jogo final entre os campeões das duas ligas nacionais de World Series, mas como no beisebol, os latinos já andam desbancando os donos da casa. Alfonso Cuarón no ano passado e Alejandro Iñarritu este ano marcaram o bi dos diretores mexicanos. Arriba!

Mas não se trata de escolher os “melhores”, mas o que os “acadêmicos” consideram importante no momento. Ou uma execução de projeto extraordinária. Isso explica a ocasional esquizofrenia de dar o Oscar de melhor filme para um e melhor direção para outro, como no ano passado, quando “12 anos de escravidão” ganhou o primeiro e Alfonso Cuarón o segundo, por “Gravidade”. Não vamos subestimar também o preconceito ianque: alguns poucos negros já ganharam como intérpretes, mas como diretores – um cargo executivo – é outra história. Lembremo-nos de 10 anos atrás, quando o rotineiro “Crash – No limite” deixou para trás o muito melhor “Brockeback Mountain”, restando a Ang Lee o prêmio de Diretor.

"Birdman" recebeu três dos cinco prêmios principais, portanto, independente
do total é o gane vencedor da noite
Isso não aconteceu este ano, com “Birdman” vencendo em Filme, Direção e Roteiro Original, tendo como única derrota significativa na categoria Ator, com Eddie Redmayne (“A Teoria de Tudo”) batendo Michael Keaton, em sua chance de ouro. Pessoalmente achei “Teoria de Tudo” fraco e condescendente, e a atuação de Redmayne, um nome em ascensão, inferior à de Keaton e Benedict Cumberbatch (este, sim, vai ter outras oportunidades). Mas a Academia não resiste a um handcap.
O premio para Julianne Moore, também por um trabalho sobre deficiência, foi a grande chance para uma atriz respeitada que nunca havia levado um premio de cinema importante em seu país, mesmo já tendo vencido em Cannes, Berlim e Veneza. Com “Para sempre Alice” levou o Oscar, o Globo de Ouro e o Sindicato dos Atores. Pena para Rosamund Pike, uma atriz que sempre se destacou pela beleza fria (Hitchcock faria horrores com ela) e que teve em “Garota Exemplar” o papel de sua vida.

Entre os coadjuvantes, J.K. Simmons, um coadjuvante veterano querido por todos, era uma barbada por “Whiplash” (que erá exibido amanhã, dia 23, no Cineclube Indaiatuba); e Patricia Arquette, era favorita por ter carregado o projeto “Boyhood” em cena. Se não pela atuação – que achei parecida da mãe-vidente de “Medium” – valeu pelo seu discurso feminista ao receber sua estatueta. Tão importante quanto o de Emma Watson na ONU, o que não deixa de ser triste, em pleno século XXI.

Common e John Legend com seu Oscar pela canção "Glory":
prêmio de consolação para "Selma" 
O show em si foi um dos melhores dos últimos anos, com um ótimo número de abertura e algumas apresentações marcantes, como o de Commom e John Legend interpretando “Glory” imediatamente antes de receberem o premio de Melhor Canção-Consolação pelo filme “Selma”; e Lady Gaga cantando um medley de “Noviça Rebelde”, na homenagem pelos 50 anos do musical que bateu “...E o Vento levou” nas bilheterias. Quem poderia pensar em alguém mais surpreendente para fazer um cover de Julie Andrews?

Lady Gaga foi meme no Red Carpet, mas se redimiu na hora de cantar
Na categoria Longa de Animação, um dos prêmios mais recentes e que já foi mais relevante, “Operação Big Hero” deu o bi à Disney, enquanto o mestre Hayao Miyazaki se aposenta e a Pixar vive seu período sabático.


Em Documentário de Longa-Metragem, o teuto-brasileiro “O Sal da Terra”, sobre Sebastião Salgado, dirigido por seu filho Juliano e por Wim Wenders, perdeu para “Citzenfour”, sobre Edward Snowden. O polonês “Ida” deu o primeiro Oscar ao seu país, batendo o argentino “Relatos Selvagens” e “Timbuktu”, que Inácio Araújo considerou o melhor filme de toda a seleção deste ano. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

And the Oscar goes to...

Amanhã acontece mais uma cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mais conhecido como Oscar. No Brasil, a maior festa do cinema pode ser visto pelo canal pago TNT a partir das 20h30 e na Globo só depois do Big Brother Brasil, lá pelas 23h45.

Michael Keaton em "Birdman"
No páreo principal estão “Birdman (ou a Inesperada virtude da ignorância)”, “Boyhood – da Infância à Juventude”, “O Grande Hotel Budapeste”, “O Jogo da Imitação”, “A Teoria de Tudo”, “Whiplash: Em busca da perfeição”, "Selma" e “Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo”. Concorrendo a melhor diretor estão Alejandro González Inárritu (“Birdman”), Richard Linklater (“Boyhood”), Bennet Miller (“Foxcatcher”), Wes Anderson (“Grande Hotel Budapeste”) e Morten Tyldum (“O Jogo da Imitação”). Os atores principais indicados são Eddie Redmayne (“A Teoria de Tudo”), Michael Keaton (“Birdman”), Bennedict  Cumberbatch (“O Jogo da Imitação”), Steve Carrell (“Foxcatcher”) e Bradley Cooper (“Sniper Americano”). As atrizes principais são Julianne Moore (“Para sempre Alice”), Felicity Jones (“A Teoria de Tudo”), Marion Cottilard (“Dois dias, uma noite”), Rosamund Pike (“Garota exemplar”) e Reese Witherspoon (“Livre”). A disputa para ator coadjuvante está entre J.K. Simmons (“Whiplash”), Robert Duvall (“O Juiz”), Ethan Hawke (“Boyhood”), Edward Norton (“Birdman”) e Mark Ruffalo (“Foxcatcher”). As indicadas a atrizes coadjuvantes são Patricia Arquette (“Boyhood”), Laura Dern (“Livre”), Keira Knightley ("O Jogo da Imitação”), Meryl Streep (“Caminhos da floresta”) e Emma Stone (“Birdman”). Vamos nos focar nesses, que são os de maior interesse geral.

As mudanças ao longo de 12 anos em Boyhood
Eu já ordenei em primeiro de cada lista os favoritos, que não o são por serem necessariamente melhores, mas pelas chances. O Oscar não é concedido pelo mérito artístico, mas pelo que os votantes da Academia consideram ser meritório. Pelos meus anos de janela, o premio fica entre “Boyhood” e “Birdman”, pela ótima execução de seus projetos complicados. Os acadêmicos são, em geral, profissionais de cinema, então como não se impressionar com um filme feito ao longo de 12 anos e outro que simula uma gigantesco plano-seqüência. E os dois são mesmo os melhores da lista, que poderia incluir ainda “O Grande Hotel Budapeste”, mas vai ser difícil. Em geral, filme e diretor ganham juntos, e é o que deve acontecer este ano, ao contrário de 2014, quando “12 anos de escravidão” foi o melhor filme e Alfonso Cuarón foi melhor diretor por “Gravidade” (justamente pela dificuldade do projeto, ainda que tenha resultado num longa mais ou menos).
Eddie Redmayne em "A Teoria de Tudo"

Entre os atores, a disputa é entre Michael Keaton e Eddie Redmayne, com ligeira vantagem para o segundo. Atuações físicas como a do inglês em geral prevalecem na Academia, sem falar que é sempre mais interessante valorizar um jovem talento a premiar um veterano que teve o papel de sua vida, mas de quem não se espera muito no futuro. A primeira vez que notei Redmayne foi na minissérie "O Pilares da Terra" (que tinha ainda a Agent Carter Halley Atwell) e de lá para cá sua ascensão foi meteórica. A atuação de Cumberbatch e, como sempre, impressionante, mas deve ficar para uma próxima vez.
Julianne Moore, barbada com "Para sempre Alice"
A estatueta de atriz principal é uma barbada. Julianne Moore ganhou tudo até agora, é uma intérprete respeitada por todos e só tem um Urso de Prata de Berlim como premio significativo no cinema (tem cinco indicações ao Oscar).  Azar de Rosamund Pike, que teve o papel de sua vida em “Garota Exemplar”, mas dificilmente leva.
Entre os coadjuvantes, J.K. Simmons é a barbada entre os homens (também ganhou tudo e é um veterano querido entre seus pares) e Patricia Arquette é a favorita entre as mulheres, mesmo parecendo ainda estar no seriado “Medium”.  Achei Emma Stone em “Birdman” melhor, mas acho que deve dar Patricia mesmo.


O sensacional "Relatos selvagens, que pode marcar 3 a O
da Argentina contra o Brasil no Oscar
Os dois principais concorrentes a melhor Filme disputam também Roteiro Original, e quem levar aqui deve ganhar também o grande premio. Há ainda algum interesse em Filme de Animação, mas não tenho a menor idaia de quem leva, e Filme em Lingua Não-Inglesa, que tem entre os indicados o argentino “Relatos selvagens”. Se ganhar, será a terceira vez que los hermanos ganham o Oscar, contra nenhuma do Brasil.  

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O legado de Robin Williams

Quando Robin Williams virou polêmica ao ironizar a vitória do Rio de Janeiro sobre Chicago na disputa pelos Jogos Olímpicos de 2016, dizendo que a eleição se devia às 50 strippers e ao meio quilo de pó enviadas pela delegação brasileira ao Comitê Olímpico (piada pouco mais agressiva que os dois episódio dos Simpsons ambientados aqui), o que me veio à lembrança foi ator que muitas vezes deixava sua verve histriônica ofuscar seu papel e cujo único  sucesso nos anos recentes era como coadjuvante de Ben Stiller na franquia “Uma Noite no Museu”.

No entanto, após o anúncio de sua morte ontem, dia 11, o que nos vem à lembrança são os inúmeros trabalhos inesquecíveis do ator. Poucos podem se orgulhar de um currículo desses.
Após o início de carreira no cinema desastroso com “Poppeye” (1980), dirigido por um improvável Robert Alrman, Williams fez alguns filmes que chamaram a atenção como “O Mundo Segundo Garp” (1982), “Moscou em Nova York” (1984) e “Clube Paraíso (1986). Ele também havia emplacado uma popular sitcom na TV chamado “Morky & Mindy”, que nunca foi exibido no Brasil.

Se o talento já era reconhecido pela crítica, ele se tornou conhecido pelo grande público a partir de “Bom dia, Vietnã” (1987) com seu famoso bordão “Goood morning, Vietnam” (que lhe deu a primeira indicação ao Oscar); e dois anos depois com “Sociedade dos Poetas Mortos (1989), sua segunda indicação ao Prêmio da Academia de melhor Ator, apesar da pedagogia duvidosa defendida no roteiro. Em 1990, em “Tempo de Despertar”, ajudou Robert De Niro a obter sua primeira indicação desde o Oscar de “Touro Indomável”.

Com o belo “Pescador de Ilusões”, de 1991, vem a terceira indicação á estatueta dourada. Nesse momento Williams já estava entre os principais nomes da indústria, a ponto de Steven Spielberg escalá-lo para o dream team de seu ambicioso – e fracassado – “Hook, a Volta do Capitão Gancho”, também de 1991. Se a superprodução afundou, o mesmo não se pode dizer de seu Peter Pan, cujo intérprete caiu como uma luva fazendo o menino que se liberta do corpo do adulto careta. 

No ano seguinte, veio mais um marco na carreira, ao fazer a voz do Gênio de “Aladdin”.A introdução do personagem, em que Williams imita inúmeras celebridades e diversos sotaques como uma metralhadora de gags (abaixo).


 iniciou a tendência de se contratar atores consagrados para dar voz a personagens de animações da Disney – que também foi seguido pela Pixar – do outro abriu as comportas do histrionismo de Williams, que a partir daí passou a improvisar mais do que interpretar. O megasucesso de “Uma babá quase perfeita” marcou o auge da popularidade.

Em 1995, mais dois grandes sucessos, “Jumanji”, um clássico da Sessão da Tarde, e “Gaiola das Loucas”, em que ele resuma a dança americana em cinco segundo ao aspirante a bailarino-bofe (abaixo).


Em 1997, trabalha com Woody Allen em “Desconstruindo Harry” e contribui para que “Gênio Indomável” coloque a dupla Matt Damon e Bem Affleck no mapa de Hollywood, levando, de quebra o tão ambicionado Oscar (de Ator Coadjuvante). Sua atuação em “Patch Adams, o Amor Contagia”, no ano seguinte, contribui, no mínimo, para que os Doutores da Alegria se multipliquem no diversos hospitais de tratamento de câncer infantil. “Amor Além da Vida” deve ser o trabalho que seus fãs espíritas lembraram no dia de ontem.

Após a consagração do premio da Academia, sua carreira parece entrar no mais do mesmo. Em 1999 tenta repetir “A vida é bela” com “Um sinal de esperança” e se repete em “O Homem Bicentenário”. Tenta se reinventar como psicopata em dois bons trabalhos, “Retratos de uma Obsessão” e “Insônia” (2002), que poucos viram.
A partir de então, como dissemos na abertura deste texto, suas atuações mais lembradas são como o Ted Roosevelt nos dois “Uma Noite no Museu” e usando apenas a voz em “Happy Feet”.

Aos 63 anos, não tão velho para um comediante, ainda poderia oferecer muito ao seu público. Pena que não houve tempo. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Jornalistas no cinema

Aproveito o Dia do Jornalista, hoje, uma segunda-feira, para listar meus filmes favoritos que tem colegas como protagonistas. O primeiro é fácil, "A Primeira Página" (1974), de Billy Wilder, a enésima adaptação da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur, mas valorizada pelo cinismo do diretor e pelo elenco com a dupla Walter Matthau & Jack Lemmon, e uma muito jovem Susan Sarandon. Trata-se da cobertura da execução de um pobre coitado acusado de assassinar um policial, que acaba tendo uma reviravolta com o surgimento de provas que o inocentam. Mathau é o editor que faz com que seu melhor repórter, Lemmon, desista de abandonar o jornalismo por um emprego estável e o casamento com a rica e bela Sarandon

Em segundo lugar, do mesmo Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (1951), com Kirk Douglas como um ambicioso repórter que vai parar num lugarejo e transforma um acidente num circo por meio do qual pretende voltar á ribalta da profissão. O recente "Quarto Poder (1997), de Costa Gravas, é quase um remake deste, como Dustin Hoffman no papel do jornalista inescrupuloso e John Travolta como um zelador que faz um grupo e estudantes reféns para ter de volta seu emprego.Aqui já estamos na era da TV e da notícia convertida em entretenimento, mesmo tema de outro grande filme, "Rede de Intrigas" (1976), de Sidney Lumet, em que Pete Finch é um âncora em vias de ser demitido que tem um ataque de nervos no ar, ameaçando se matar. Ao invés de perder o emprego, ele vira a principal atração da emissora, disparando verdades inconvenientes que o público adora. Numa ironia do destino, Finch ganhou o Oscar de melhor Ator, mas póstumo.

"Todos os homens do presidente" (1976), de Alan J. Pakula, tem a vantagem de ser baseada naquela que pode ter sido a mais importante reportagem do século XX, já que derrubou o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, Richard Nixon. Dustin Hoffmann e Robert Redford interpretam Carl Bernstein e Bob Woodard, repórteres do Washington Post que colocaram o prédio Watergate nos livros de história.

Difícil limitar "Cidadão Kane" (1941) ao tema jornalismo, mas o roteiro de Herman J Mankiewicz e Orson Welles é preciso quando mostra a transformação do jornalismo em meados do século passado, e o poder que os magnatas da imprensa teriam com essa modernização, como William Randolph Hearst - o modelo do filme - Assis Chateaubriand e Roberto Marinho em terras tupiniquins.

"O Jornal" (1994), de Ron Howard, não é tão bom quanto os acima citados, mas traz um problema importante para o jornalismo: o processo industrial da mídia impressa versus o compromisso jornalístico. O velho bordão "Parem as máquinas!" já não existe há décadas, pressionado pelas demandas trabalhistas, de distribuição e logística da imprensa. É nesse campo que se dá o embate entre o editor-chefe Michael Keaton e a diretora industrial Glenn Close, ambos jornalistas, que que entram em conflito por conta de uma notícia e última hora que pode salvar uma vida, mas comprometer todo o cronograma do jornal.

E você, jornalista e/ou cinéfilo, tem algum outro preferido sobre essa mais do que carreira ou profissão, mas uma vocação de vida?


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O melhor show do Oscar dos últimos anos

Não sei até que ponto o ótimo show do Grammy Awards influenciou a 85a cerimônia de entrega dos Premios da Academia de Hollywood, mas acho que contribuiu para que esta fosse o melhor Oscar dos últimos anos em termos de programa. O apresentador Seth MacFarlene abriu o evento com uma piada que desculpou toda a irreverencia - ou piadas politicamente incorretas - que se esperava dele.

O capitão James T. Kirk vem do futuro para alertar Seth MacFarlane
Aliás, a presença de William Shatner como Capitão James T. Kirk no telão foi m momento "geek" que divertiu os rapazes e entediou as moças, o que seria compensado mais tarde pelos diversos números musicais, incluindo todo o elenco de "Os Miseráveis" (ironicamene, em trajes nada misérables) cantando a canção principal. 
Todo o eneco de "Os Miseráveis" cantando em trajes de gala
Antes, Catherine-Zeta Jones havia voltado a "Chicago" em boa forma na dança, mas visivelmente dublada na voz, e uma esguia Jennifer Hudson lembrou sua atuação em "Dreamgirls", sendo aplaudida em pé. A franquia James Bond foi homenageada pelo seus cinquentenario, com apresentação da única Bond Girls oscarizada, Halle Berry, e a presença da veterana Shirley Bassey cantando a emblemática "Goldfinger". Depois de Shirley e seu histrionismo típico, a apresentação de uma muito mais jovem Adele defendendo seu "Skyfall" foi anticlimático, com a intérprete e compositora inglesa visivelmente travada. Mas com a estatueta de Melhor Canção e a de edição de som (em um raro empate com "A Hora mais escura") fez deste o melhor ano de 007 nos Prêmios da Academia. 
Barbra Streisand mostra que ainda canta muito

Outro momentão nostálgico foi a aparição surpresa de Barbra Streisand na homenagem aos falecidos do ano, cantando "The way we were" (de um de seus sucessos, "Nosso amor de ontem"), de Marvin Hamlish, grande compositor morto em 2012. Outra surpresa foi a participação on line da primeira-dama Michelle Obama para o anuncio do melhor filme. Será que Hollywood ficou feliz coma  reeleição de Barack Obama? Sim ou com certeza?
 No todo, o show foi dinâmico, razoavelmente enxuto e bem conduzido por McFarlane (melhor piada, a da Família von Trapp para anunciar Christopher Plummer), que salvo acidente de percurso neste ano, deve voltar no ano que vem. Detalhe, gostei da "homagem" aos perdedores no fim. Foi um momento mal-comportado quando quase todo mundo já havia desligado a TV para dormir.
***
Michelle Obama rouba a cena de Jack Nicholson
Tradicionalmente o primeiro premio a ser anunciado, a categoria ator coadjuvante começou com uma pequena surpresa: a vitória de Christoph Waltz por "Django Livre" (que já havia faturado o "Globo de Ouro") sobre o favorito Tommy Lee Jones por "Lincoln". Não dá para falar em injustiça num páreo em que todos os indicados já tinham suas estatuetas e pelo menos um, Robert De Niro, é uma lenda viva de Hollywood. Na verdade, na disputa entre os dois concorrentes que tratavam sobre a escravidão nos EUA, Tarantino levou pequena vantagem sobre Spielberg. Ambos levaram duas estatuetas, mas "Django Livre" ganhou em duas das categorias principais - ator coadjuvante e roteiro original - enquanto "Lincoln" ganhou em uma principal - ator para Daniel Day-Lewis, a barbada da noite - e uma secundária - direção de arte.
Em animação,  tudo ficou em casa: venceram o bonito curta da Disney "Paperman", que antecedeu "Detona Raplh" nos cinemas; e o longa "Valente, da Pixar,  num dos anos mais fracos desde a criação da categoria em 2002.
"As Aventuras de Pi", filme que muitos amam mas que era visto como azarão, foi o mais premiado da noite, a maioria em categorias técnicas, mas tendo como cereja do bolo o Oscar de direção para Ang Lee, o chines (bom, taiwanes na verdade) mais bem sucedido em Hollywood, mas que andou atirando para todos os lados em sua fase americana (vide seu fraco "Hulk"). É a segunda vitória em três indicações.
Como eu previra, a indicação de "Amor" para Filme e Filme Estrangeiro significava que ele ficaria com o menor mas cada vez mais importante Oscar para filme em idioma não-ingles. Os mesmo já havia acontecido com "O Carteiro e o Poeta".
Tadinha da Jennifer Lawrence, levando um tombo a caminho da glória

A jovem Jennifer Lawrence, revelada há apenas dois anos em "Inverno da Alma", já é praticamente uma estrela de primeira grandeza, tendo duas indicações ao Oscar - e uma vitória - e participações em duas franquias blockbusters, "X-Men" e "Jogos Vorazes". Sua vitória por "O lado bom da vida" é mais ou menos como o premio para Angelina Jolie em 2002, que a catapultou para ser superstar. Já o premio para Anne Hathaway por "Os Miseráveis" consagra uma estrela a quem a Academia queria há muito tempo laurear e só aguardava um trabalho adequado. Mais ou menos como os Oscars para Gwyneth Paltrow por "Shakespeare Apaixonado" e para Julia Roberts por "Erin Brokovich". Trata-se de um lógica de indústria, que é onde a maioria dos votantes trabalha.
Wolverine e Mulher-Gato se abraçam no palco
 Capítulo à parte para Daniel Day-Lewis. A primeira vez que o vi foi em "Minha adorável lavanderia" (1985) de Stephen Frears, em que ele fazia o namorado gay do imigrante indiano dono da tal lavanderia. Tres anos depois o assisti em "A Inustentável Leveza do Ser", de Philip Kaufman, ótima adaptação do péssimo romance de Milan Kundera, como o médico-garanhão que mandava as mulheres tirarem a roupa ("Take off your clothes") e elas obedeciam na hora. Consagrou-se com Oscar em "Meu pé esquerdo" ( de 1989, batendo Kenneth Branagh no magnífico "Henrique V") e depois virou galã em produções como "O último dos moicanos" (1992) e "A época da inocência" (1993). Depois de "O lutador" (1997), resolveu abandonar a atuação e pensou em virar sapateiro, mas aí Martin Scorcese o convenceu a fazer "Gangues de Nova York" (2002), que o animou a continuar o ofício. É o grande ator de sua geração e acaba de fazer história com seu terceiro Oscar como ator principal, superando lendas como Spencer Tracy, Marlon Brando e Tom Hanks
Terceira estatueta de ator principal consagra "o cara" Daniel Day-Lewis

Com a ausência de Ben Affleck entre os concorrentes a melhor diretor - a grande gafe/injustiça do ano - quando "Argo" foi anunciado como melhor roteiro adaptado, o Grande Prêmio já estava no papo. Durante a abertura da transmissão da TNT brasileira, Rubens Edwald Filho disse que este era o ano com os melhores filmes indicados dos últimos anos. Para mim, 2008, ano em que Daniel Day-Lewis ganhou seu penúltimo Oscar, continua sendo o melhor dos últimos anos, com os ótimos "Desejo e Reparação", "Ouro Negro" e "Onde os facos não tem vez" (que acabou levando) disputando cabeça a cabeça, secundados por "Conduta de Risco" e "Juno".Desde então, não tem havido uma páreo como este, e 2013 não é exceção. "Argo" ganhou porque é um thriller melhor que "A hora mais escura", é mais cinema que "Lincoln", mais fácil de entender que "As aventuras de pi", mais "sério" que "O lado bom da vida" (só Frank Capra vencia com comédias romanticas) e mais convencional que "Django livre" ("Os Miseráveis" e "Adorável sonhadora" estavam lá para fazer número). Foi uma boa escolha, mas a disputa deste ano não ficará na história.
Veja a lista completa de indicados e vencedores aqui.
Ben Affleck, injustiçado e ao mesmo tempo grande vencedor da noite


***
 Outro dia o jornal Independent sacou um lista dos maiores filmes esquecidos do Oscar e colocou "Um sonho de liberdade" (perdeu para "Forrest Gump") em primeiro lugar; "À espera de um milagre" (perdeu para "Beleza Americana") em segundo; "Avatar" (perdeu par "Guerra ao Terror") em terceiro; "O Resgate do Soldado Ryan" (perdeu para "Shakespeare Apaixonado") em quarto; "ET" (perdeu para "Gandhi") em quinto; "Star Wars" (perdeu para "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa") em sexta; "Mary Poppins" (perdeu para "Minha Bela Dama") em sétimo; "Doutor Jivago" (perdeu para "A Noviça Rebelde") em oitavo; "Pulp Fiction - Tempo de Violência" (perdeu para "Forrest Gump") e "O Sol é Para Todos" (perdeu para "Lawrence da Arábia"). Queria saber qual o critério dessa pesquisa, mas só pode ser coisa de leitor que nunca ouvu falar em "Cidadão Kane" ou "Apocalipse Now". Comentem, por favor.
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pitacos do Oscar 2 - Quem leva

Jessica Chastain em "A hora mais escura"
Ontem assisti "A Hora mais escura" e fechei a conta dos favoritos ao Oscar (hoje estréia em todo o País "Indomável Sonhadora" e, em Indaiatuba, "Amor", mas o primeiro tem poucas chances e o segundo deve levar apenas o premio de filme estrangeiro).
Daniel Day-Lewis é aposta certa para melhor ator por sua extraordinária caracterização como "Lincoln". Será o primeiro com tres premios de ator principal. Entre as mulheres, depois de ver Jessica Chastain ontem, me parece que o favoritismo de Jennifer Lawrence se confirma: sua rival está bem em "A Hora mais Escura", mas a jovem estrela de "Jogos Vorazes" é destaque absoluto num elenco em que todo mundo foi indicado (Bradley Coooper como ator, Robert de Niro e Jacki Weaver como coadjuvantes poe "O lado bom da vida"). Aliás, é uma pena que De Niro tenha concorrentes tão bons como Alan Arkin em "Argo", Christoph Waltz em "Django Livre" e Tommy Lee Jones em "Lincoln", que aparentemente deve ganhar. Entre as mulheres a disputa é ainda mais interessante, a queridinha da Academia Sally Field (dois Oscars) concorrendo por "Lincoln" contra a namoradinha da América Anne Hatthaway, indicada por sua atuação em "Os Miseráveis". Sally está muito bem como a primeira-dama Mary Todd Lincoln, mas Anne tem aquele número emocionante cantando as desgraças de Fantine, que é a cara do Oscar. Pra mim, já ganhou.
A grande incógnita é o grande prêmio de filme. O mais premiado até agora é "Argo", cujo diretor não foi indicado, uma contradição em termos. É muito bom, mas não sensacional, e um dos pontos fortes é justamente a direção de Ben Affleck. "Lincoln", o segundo favorito, é gradiloquente mas não grande, e Spielberg não está em sua melhor forma (mas pode levar o premio de direção só com seu nome). "Os Miseráveis" corre por fora mas, francamente, não merece. "A hora mais escura" trata de um tema contemporâneo, mostra a competencia de Katryn Bigelow para películas de ação (e ela nem foi indicada), porém, não é muito mais que um bom thriller. A irreverência e inconvencionalismo de Quentin Tarantino tiram ele e "Django Livre" dos páreos de direção e filme, mas pode lhe dar um novo Oscar de roteiro original. "As aventuras de Pi" é bonito, mas não acho que rendam a ele e a Ang Lee os grandes premios. Resumindo, acho que dá "Argo" como melhor filme e Steven Spielberg como diretor (lembrando que ele ganhou seu segundo premio pela direção de "O Resgate do Soldado Ryan" em 1999, ano em que "Shakespeare Apaixonado" foi o melhor filme).
Dentro dessa lógica, "Argo" deve levar ainda o premio de roteiro adaptado e o original deve ficar entre "Django Livre" e "A hora mais escura". O filme estrangeiro deve ser "Amor" e a melhor canção, "Skyfall" com Adele. Este ano, uma das categorias mais legais, o de longa de animação, tem a lista mais fraca dos últimos anos. "Valente" é o trabalho mais fraco da Pixar junto com "Carros 1 e 2", "Detona Raplh" da Disney é ok, mas não sensacional. Será que Tim Burton leva por "Frankenweenie"? Curiosamente, um dos autores mais originais e bem sucedidos de Hollywood até  hoje só foi indicado pela produção de dois filmes de animação, este e "A noiva cadáver".
A Globo inicia a transmissão do Oscar domingo a partir das 23h30 (por causa do maldito BBB), mas quem tem TV por assinatura pode ver o pré-show na TNT a partir das 20h30 e o início da cerimônia de premiação a partir  das 21h30.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Lincoln", de Steven Spielberg

Sally Field e Daniel Day-Lewis já levaram o Actors Guild Awards, ele também
o Globo de Ouro

Já faz algum tempo que Peter Pan de Hollywood acordou para as mazelas da América e vem se tornando um crítico de seu país. Há quem se refira a “O Terminal” (2004), “Guerra dos Mundos” (2005) e “Munique” (também 2005) como uma trilogia sobre os Estados Unidos pós-11 de setembro.
Seu recente “Lincoln”, embora se passe no século XIX, refere-se à divisão atual dos Estados Unidos, não pela escravidão, mas pela visão de mundo entre os adeptos do Tea Party e o resto do país. Nem mesmo a crise econômica causa pelo capitalismo selvagem sem freios defendido por eles fez com que suas convicções fossem abaladas. O resultado é um Congresso praticamente paralisado em meio à maior depressão econômica desde os anos 1930.
O guru da nova direita, Luis Felipe Pondé, rejeita na Folha de S. Paulo a aproximação que o crítico de cinema do mesmo jornal, Ricardo Calil, fez entre Lincoln e Obama, por que acha o segundo um banana, que só se reelegeu por ser negro (não é verdade, no pleito do ano passado ficou claro que o que os americanos não queriam era a volta do governo para os muito ricos, cristãos, heterossexuais – ainda que no armário – e, preferencialmente, brancos). Mas Calil tem razão em ver no subtexto nem tão sutil uma mensagem para o atual presidente. Se é isso o que ele fará em seu derradeiro quatriênio, e o que veremos.
Outro articulista importante da Folha, Elio Gaspari, adorou o filme, já que mostra de forma crua e chocante para leigos idealistas, como é que se fazem as leis nas democracias representativas, mesmo as leis mais nobres. Mas não há opções realistas a esse sistema, como bem observou Winston Churchill (“A democracia representativa é o pior sistema que existe, com exceção de todos os outros”). Nenhum jornalista que já tenha coberto qualquer legislativo acharia extraordinário o que acontece em “Lincoln”: é assim que é nos EUA, nas democracias européias e no Brasil (com diferenças importantes e fundamentais, mas, no fundo, é o mesmo). A alternativa a esse toma-lá-dá-cá é a ditadura, que é muito pior.
O Lincoln de Daniel-Day Lewis (tem tudo para quebrar o recorde do Oscar com uma terceira vitória como melhor ator principal) deixa isso claro na explicação que dá a seu gabinete sobre a necessidade da emenda mesmo depois de sua declaração de libertação dos escravos nos Estados Confederados. Nenhum presidente teve tanto poder quanto ele durante a Guerra Civil, mas seus atos executivos embasados no estado de guerra aproximavam-se de uma ditadura, e ele sabia disso. Tudo o mais poderia ser revertido ou contestado na paz, menos a escravidão, e por isso a necessidade de uma emenda constitucional que tornasse permanente a abolição da escravidão. A rigor, Pondé tem razão quando diz que não foi a liberdade dos negros que levou ao fraticídio americano, mas o desejo dos 11 estados confederados de deixar a União e manter o dixie way of life que podemos ver em versão devidamente edulcorada em “...E o Vento Levou”. A famosa Constituição Americana dava brechas para isso, só que Abraham Lincoln achou, com razão, que isso transformaria a América em dois – ou mais – países de segunda, e manteve a União a ferro e fogo. O mundo seria outro que a América do Norte se tornasse uma versão mais fria das fragmentadas Américas do Sul e Central. Isso é ser estadista. Ao centralizar a ação nos últimos meses da presidência e da vida de Lincoln, Spielberg deixa essa questão em segundo plano e se concentra na liberdade aos negros, o motivo idealista da guerra.
Cinematograficamente, entretanto, o resultado não é tão bom. O filme é muito falado, muito solene e se sustenta na atuação de Day-Lewis, em alguns momentos secundados por Sally Field como a primeira-dama Mary Odd Lincoln (seu estilo soap opera cai como uma luva no papel) e pos Tommy Lee Jones como o abolicionista radial Thadeus Stevens. Somente quem se interessa por política e história como eu, meu amigo João Marcos Martinho e Elio Gaspari apreciamos de fato. Assim, mesmo sem ser um filmão, “Argo” é muito mais cinema, e acho que ganha pontos no Oscar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Considerações sobre "Django Livre"

O quarteto principal em um único enquadramento

Primeira coisa a dizer sobre “Django Livre”: é muito bom, e é programa imperdível para cinéfilos em geral. É lógico que conhecer um pouco de western spaghetti ajuda, já que Quentin Tarantino usa e abusa de suas marcas registradas, que de certa forma deu sobrevida ao faroeste americano, moribundo nos anos 60 e 70, auge do bang-bang à italiana. Sérgio Leone deu respeitabilidade ao gênero, com sua trilogia dos dólares e a obra-prima “Era uma vez no Oeste”. Mas Tarantino tem como referencia outro Sérgio, o Corbucci, um daqueles diretores que trabalhavam incessantemente na então prolífica indústria cinematográfica italiana, mas que nunca entrou para o clube dos “maestros”. No entanto, fez grandes filmes como o próprio “Django” original, “Vamos matar, companheiros” e “O Vingador Silencioso”.
 É curioso como nenhum crítico tenha percebido o sarcasmo de Tarantino contra seus próprios compatriotas em “Bastardos Inglórios” e agora em “Django Livre”. No primeiro, quem praticam os atos mais brutais e os massacres mais sagrentos são os ianques. O diretor ainda brinca com a ingenuidade de grande parte dos roteiros “men on mission” que ele homenageia no filme: seria possível um bando de americanos francamente monoglota conseguir se passar por alemães ou mesmo italianos em plena Europa ocupada? De forma categórica e cinematograficamente primorosa, Tarantino mostra que não.
Seu western spaghetti na verdade se passa bem antes do período clássico dos faroestes, que são as décadas 1870 e 1880. Datando sua história em 1858, o cineasta coloca a ação na época e no coração do escravagismo, quando ninguém imaginava que dois anos depois, Abraham Lincoln dividiria o país por causa da abolição, tema do filme de Spielberg que estreia na próxima sexta, aliás. O período é ideal para abordar uma das maiores vergonhas da civilização ocidental, mas não é o melhor para o bang-bang. Revólveres ainda não eram tão fáceis de encontrar e ainda não haviam sido inventados os rifles com cartucho metálico (a tecnologia da morte só seria incrementada pela Guerra Civil). Mas é uma licença poética menor em relação ao massacre de Adolf Hitler e toda a elite nazista em seu filme anterior. 
Com revolveres Colt e rifles Henry e Sharp (ambos não existentes em 1858), Django (Jamie Foxx) e o dr. King Schultz (Christoph Waltz, ganhador do Globo de Ouro e candidato ao Oscar de novo) detonam malfeitores e escravagistas - entre os quais, Don Johnson e uma hilária proto-Klu Klux Klan -  em um mar de sangue e tripas, para alegria e catarse da plateia, pois vemos ao mesmo tempo a crueldade da escravidão, essa sim,com grande acuidade histórica, incluindo o instrumentos de tortura usados para punir e/ou dificultar a fuga, que eu mesmo pensava que eram exclusividade luso-brasileira (uma pesquisa rápida mostra que houve intercâmbio de técnicas de tortura entre EUA e Brasil muito antes de Dan Mitrione).
Mas como vários grandes cineastas, como Hitchcock, Buñuel e Almodóvar, Tarantino cede às suas obsessões. É notória sua obsessão por pés femininos, ainda mais grandes como os de Uma Thurman, mas menos percebida ou comentada é como ele gosta de judiar das mulheres (nos filmes, é claro). Suas heroínas são habitualmente estupradas, torturadas, esfaqueadas e assassinadas. Depois de Uma em “Pulp Fiction” e “Kill Bill”, das pobres Vanessa Ferlito, Sydney Tamia Poitier, Jordan Ladd, Rose McGowan e Mary Elisabeth Winsted em “À Prova de Morre”;  Mèlani Laurent e Diane Kruger em “Bastardos Inglórios, agora é a vez de Kerry Washington comer o pão que o diabo amassou. Seu calvário é a motivação para que seu homem parta em sua Odisséia sem Ítaca. A opção por Foxx ao invés de Will Smith, como se pretendia inicialmente, foi acertada: ele passa a intensidade da paixão pela mulher que o leva a uma busca quase suicida.
Até que Django a encontre, Brunhilde Von Shaft (Kerry Washington) sofre muito
Tem razão quem acha que a Academia de Hollywood esnobou novamente Leonardo Di Caprio. Seu fazendeiro sulista é sensacional, e justifica ele ter sido a primeira escolha para ser o Coronel Hans Landa (Tarantino acabou preferindo um ator que falasse alemão fluente, para sorte de Waltz), especialmente em sua grande cena, em que cortou a mão de verdade.  Outro que brilha é Samuel L. Jackson como o mordomo f.d.p.. O personagem é uma ótima sacada, faz o roteiro escapar do maniqueísmo preto e branco. Gente como Spike Lee fica furioso por ele abusar do termo nigger em quase todos seus filmes, e seu parceiro desde “Pulp Fiction” dispara um a cada meio minuto. Assim como o holocausto judeu só foi possível com o auxílio e conivência dos próprios judeus, a escravidão nas Américas só foi possível com a participação ativa de muitos negros como o personagem de Jackson, que ainda manda um contemporâneo motherfucker para completar a provocação.
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Aliás, acabo de ler no ótimo “1493”, de Carl C. Mann (autor do igualmente fundamental “1491”), que “os africanos da região central insistiam que os visitantes europeus usassem a palavra portuguesa “negro” para se referir a escravo e a palavra portuguesa “preto” para se referir a africanos livres”. Daí, o termo pejorativo em inglês “nigger”, de negro, enquanto os afronorte-ameticanos se autodenominam “black”. Aqui, onde falamos português, é o contrário: “preto” é feio e negro que é “bonito”. 

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Avatar que não deu certo

intolerance20set
Aproveitando recente convalescença, assisti “Intolerância”, um clássico que todo estudioso de cinema deve ver. Filme mudo, de 1916, com 3 horas e 16 minutos de duração não é ara um simples cinéfilo. Já foi, mas não hoje em dia. Com olhos contemporâneos é muito difícil assistr a uma estética morta, que com menos de 100 anos parece tão distante de nós quanto a Bablônia que ela retrata de forma nunca mais repetida.
D.W. Griffith era o mais repeitado cineasta daqueles primórdios da indústria cinematográfica americana, e provavelmente um dos poucos a considerarem o cinema como forma de arte. Foi um dos introdutores do conceito de longametragem em Hollywood, consgrando-se com o épico “O Nascimento de uma Nação”, de 1915, mas incomodou-se com a críticas sobre racismo, já que em sua obra, os membros da Klu Klux Klan eram os “mocinhos” e os negros libertos os “bandidos” (interpretados ridiculamente por brancos pintados de preto).
Decidiu então investir o que hoje é calculado entre US$ 400 mil e US$ 2 milhões – não importa, era orçamento recorde na época – num gigantesco painel histórico sobre a intolerância. São quatro histórias que são narradas paralelamente: uma, no tempo em que filme foi feito, outra na época da Noite de São Bartolomeu, na Paris do século 16; partes da vida de Cristo e a Queda da Babilônia. Tragédias do passado serviriam como alerta para a intolerancia nos dias de hoje.
A partir desse ponto de partida ambicioso, Griffith ergue um monumento às coquistas da Sétima Arte até então. Como já disseram outros estudiosos, a Paixão de Cristo é filmada dentro dos cânones consagrados até então para contar a história de Jesus, a corte de Catarina de Médicis é filmada no estilo Cinema de Arte francesa, a guerra entre Ciro dos Persas e Baltahzar dos babilonios segue a estética dos épicos italianos e a tragédia contemporânea tem a sintaxe do próprio Griffith, ou o melhor de Hollywood até então, à exceção das comédias.
O objetivo manifesto do cineasta era estabelecer um novo padrão ao cinema, fazer com que fosse reconhecido como Arte. Embora os méritos de "Intolerância" a tenham inscrito na história da Sétima Arte, no todo a obra é irregular, longa demais e pretensiosa. O resultado foi um gigantesco fracasso de bilheteria e um caminho possível para o cinema que foi abortado.
O paralelo que fiz com "Avatar" no título deste texto é que James Cameron também quis mudar o cinema, em crise por causa da pirataria e de outras opções de lazer doméstico, como a Internet, videogames e TV por assinatura. É longo, politicamente ingênuo, mas definitivamente apontou parta um novo caminho para a Sétima Arte. A tecnologia 3D que ele desenvolveu para o filme elevou o valor agregado da experiência de ir ao cinema e também tornou irreversível a conversão da projeção em película pelo digital. Se vai conseguir salvar a industria de Hollywood é outra conversa, mas que deu no mínimo um sobrevida, isso é certo.