Nos últimos dias fiz uma maratona da primeira temporada de The Newsroom, da HBO. Já tinha assistido a segunda temporada numa dessas semanas em que o sinal é liberado (sou pobre, só tenho o pacote básico) e conhecer o início da trama só confirmou a ótima impressão que tive da série.
A moda pode ser os universos delirantes de Walking Dead e Game of Thrones, mas em The Newsroom, Aaron Sorkin consegue um mundo ficcional muito próximo da realidade, ajudando o espectador a compreender o funcionamento da imprensa e da política americanas. Ele já havia criado "The West Wing: Bastidores do Poder", a melhor obra audiovisual sobre como é feita a política nos EUA (que, no fundo, se parece muito com qualquer democracia representativa, incluindo o Brasil).
À exemplo da Camelot criada em torno do presidente Jed Bartlett (Martin Sheen), Sorkin cria uma redação ideal em torno do âncora Will McAvoy (Jeff Daniels, um ator que trafega com tranquilidade entre o drama e o humor), do noticiário de horário nobre, que detém a segunda maior audiência entre os canais a cabo, mas tem se acomodado nessa condição. Tido muda quando o diretor do canal, Charles Skinner (Sam Waterston, vindo de quase duas décadas de "Law and Order"), chama de volta a antiga produtora-executiva e ex-namorada de Will, Mckenzie McHale (Emily Mortimer, de "A Invenção de Hugo Cabret"), para chacoalhar a redação. O desafio proposto à nova nova equipe, que inclui o editor-senior Jim Harper (John Galagher Jr.), é criar uma pauta relevante e esclarecedora ao eleitorado americano, para que ele possa fazer escolhas lúcidas nas urnas. Para isso, o republicano Will passa a atacar o Tea Party implacavelmente, a ponto de chamá-lo de "Talibã Americano"; notícias que são manchetes na concorrência, como a mãe acusada de matar sua filhinha, são desprezadas; celebridades, metereologia e outros assuntos "carne-de-vaca" são eliminados.
A ação acontece poucos anos antes do tempo atual, e as notícias cobertas pela equipe são verdadeiras; então o público sabe de antemão o que acontece (se for minimamente informado), casos da Primavera Egípcia, da ameaça nuclear em Fukushima e da morte de Osama Bin Laden (onde descobrimos que não somos só nós que às vezes confundimos Osama com Obama). A exceção é a gigantesca "barriga" provocada pela militantismo de uma produtor temporário e a má fé de uma fonte, cujos desdobramentos atravessam toda a segunda temporada, que se passa durante a campanha presidencial que resultará no segundo mandato de Barack Obama.
Questões como jornalismo versus entretenimento; como a imprensa deveria informar os eleitores para que eles façam boas escolhas na urna ao invés de tentar manipulá-los a escolher este ou aquele; a crescente polarização política que vai transformando divergência de opiniões em ódio; são temas comuns tanto aqui como lá, e que são abordados no seriado de forma adulta, educativa e sem o cinismo de "House of Cards", por exemplo. No mundo de "The Newsroom", que se parece muito com o nosso, boa política e jornalismo relevante são coisas possíveis, apesar de tudo.
Recomendo, principalmente os colegas jornalistas, que assistam a série. Quem não tem HBO, pode alugar na locadora (se você tiver mais de 60 anos), ou usar os inúmeros recursos disponíveis na web, do torrent ao on demand alternativo, se é que você me entende. Abaixo, o trailer da terceira e última temporada que estreia por lá dia 9 deste mes.
Futebol, mulher, cinema, música, política e outros assuntos de botequim.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Jornalistas no cinema
Aproveito o Dia do Jornalista, hoje, uma segunda-feira, para listar meus filmes favoritos que tem colegas como protagonistas. O primeiro é fácil, "A Primeira Página" (1974), de Billy Wilder, a enésima adaptação da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur, mas valorizada pelo cinismo do diretor e pelo elenco com a dupla Walter Matthau & Jack Lemmon, e uma muito jovem Susan Sarandon. Trata-se da cobertura da execução de um pobre coitado acusado de assassinar um policial, que acaba tendo uma reviravolta com o surgimento de provas que o inocentam. Mathau é o editor que faz com que seu melhor repórter, Lemmon, desista de abandonar o jornalismo por um emprego estável e o casamento com a rica e bela Sarandon
Em segundo lugar, do mesmo Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (1951), com Kirk Douglas como um ambicioso repórter que vai parar num lugarejo e transforma um acidente num circo por meio do qual pretende voltar á ribalta da profissão. O recente "Quarto Poder (1997), de Costa Gravas, é quase um remake deste, como Dustin Hoffman no papel do jornalista inescrupuloso e John Travolta como um zelador que faz um grupo e estudantes reféns para ter de volta seu emprego.Aqui já estamos na era da TV e da notícia convertida em entretenimento, mesmo tema de outro grande filme, "Rede de Intrigas" (1976), de Sidney Lumet, em que Pete Finch é um âncora em vias de ser demitido que tem um ataque de nervos no ar, ameaçando se matar. Ao invés de perder o emprego, ele vira a principal atração da emissora, disparando verdades inconvenientes que o público adora. Numa ironia do destino, Finch ganhou o Oscar de melhor Ator, mas póstumo.
"Todos os homens do presidente" (1976), de Alan J. Pakula, tem a vantagem de ser baseada naquela que pode ter sido a mais importante reportagem do século XX, já que derrubou o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, Richard Nixon. Dustin Hoffmann e Robert Redford interpretam Carl Bernstein e Bob Woodard, repórteres do Washington Post que colocaram o prédio Watergate nos livros de história.
Difícil limitar "Cidadão Kane" (1941) ao tema jornalismo, mas o roteiro de Herman J Mankiewicz e Orson Welles é preciso quando mostra a transformação do jornalismo em meados do século passado, e o poder que os magnatas da imprensa teriam com essa modernização, como William Randolph Hearst - o modelo do filme - Assis Chateaubriand e Roberto Marinho em terras tupiniquins.
"O Jornal" (1994), de Ron Howard, não é tão bom quanto os acima citados, mas traz um problema importante para o jornalismo: o processo industrial da mídia impressa versus o compromisso jornalístico. O velho bordão "Parem as máquinas!" já não existe há décadas, pressionado pelas demandas trabalhistas, de distribuição e logística da imprensa. É nesse campo que se dá o embate entre o editor-chefe Michael Keaton e a diretora industrial Glenn Close, ambos jornalistas, que que entram em conflito por conta de uma notícia e última hora que pode salvar uma vida, mas comprometer todo o cronograma do jornal.
E você, jornalista e/ou cinéfilo, tem algum outro preferido sobre essa mais do que carreira ou profissão, mas uma vocação de vida?
Em segundo lugar, do mesmo Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (1951), com Kirk Douglas como um ambicioso repórter que vai parar num lugarejo e transforma um acidente num circo por meio do qual pretende voltar á ribalta da profissão. O recente "Quarto Poder (1997), de Costa Gravas, é quase um remake deste, como Dustin Hoffman no papel do jornalista inescrupuloso e John Travolta como um zelador que faz um grupo e estudantes reféns para ter de volta seu emprego.Aqui já estamos na era da TV e da notícia convertida em entretenimento, mesmo tema de outro grande filme, "Rede de Intrigas" (1976), de Sidney Lumet, em que Pete Finch é um âncora em vias de ser demitido que tem um ataque de nervos no ar, ameaçando se matar. Ao invés de perder o emprego, ele vira a principal atração da emissora, disparando verdades inconvenientes que o público adora. Numa ironia do destino, Finch ganhou o Oscar de melhor Ator, mas póstumo.
"Todos os homens do presidente" (1976), de Alan J. Pakula, tem a vantagem de ser baseada naquela que pode ter sido a mais importante reportagem do século XX, já que derrubou o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, Richard Nixon. Dustin Hoffmann e Robert Redford interpretam Carl Bernstein e Bob Woodard, repórteres do Washington Post que colocaram o prédio Watergate nos livros de história.
Difícil limitar "Cidadão Kane" (1941) ao tema jornalismo, mas o roteiro de Herman J Mankiewicz e Orson Welles é preciso quando mostra a transformação do jornalismo em meados do século passado, e o poder que os magnatas da imprensa teriam com essa modernização, como William Randolph Hearst - o modelo do filme - Assis Chateaubriand e Roberto Marinho em terras tupiniquins.
"O Jornal" (1994), de Ron Howard, não é tão bom quanto os acima citados, mas traz um problema importante para o jornalismo: o processo industrial da mídia impressa versus o compromisso jornalístico. O velho bordão "Parem as máquinas!" já não existe há décadas, pressionado pelas demandas trabalhistas, de distribuição e logística da imprensa. É nesse campo que se dá o embate entre o editor-chefe Michael Keaton e a diretora industrial Glenn Close, ambos jornalistas, que que entram em conflito por conta de uma notícia e última hora que pode salvar uma vida, mas comprometer todo o cronograma do jornal.
E você, jornalista e/ou cinéfilo, tem algum outro preferido sobre essa mais do que carreira ou profissão, mas uma vocação de vida?
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