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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Debate entre os candidatos a prefeito de Indaiatuba


O início do debate, em foto da colega Samanta de Martino postado no Facebook
O Debate entre os candidatos a prefeito de Indaiatuba, que aconteceu ontem, dia 20, na Faculdade Max Planck, foi um momento histórico na história da cidade. Organizado pela instituição de ensino em parceria com a 113ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o evento foi transmitido com exclusividade pela TV Sol Comunidade, que se por um lado constituiu um desafio técnico e, por que não dizer, de credibilidade para a emissora, por outro deixou de fora a imensa maioria do eleitorado, já que apenas assinantes da NET tem acesso á sua programação. Uma abertura para transmissão on line daria uma importância e alcance muito maior. Mas não dá para excluir o componente comercial da equação, já que não deixa de ser um programa de televisão, que tem que se pagar.

Todos os candidatos compareceram: o favorito Bruno Ganem (PV), o situacionista Nilson Gaspar (PMDB), Rinaldo Wolf (PT), Gervásio Silva (PTB) e Emanoel Messias (PMN).  Isso provavelmente não aconteceria se a iniciativa fosse somente da TV, já que nesse caso, o mediador seria o “repórter” policial Rubinho Queiroz. Obviamente, como me informaram os irmãos Flavia Vaz e Caio Guimarães, que chefiam a redação da TV Sol, isso foi descartado após o escândalo do vazamento do áudio em que o “repórter” foi flagrado maquinando em favos do candidato Nilson Gaspar (PMDB). A organização da Max Planck com o aval da OAB deu um caráter se isenção ao debate, que aconteceu de forma democrática e dentro das regras pré-estabelecidas e aceitas por todos os participantes. O senão foi o atraso de 45 minutos, que carregou toda a programação até altas horas.

Esse tipo de encontro serve para que os postulantes apresentem suas ideias e mostrem a que vieram na campanha. Assim, Ganem demonstrou preparo para expor suas propostas, ideias novas e uma agressividade moderada contra o ponto fraco da atual administração, que são os processos criminais de corrupção que levaram o prefeito licenciado Reinaldo Nogueira para a cadeia e envolvem o próprio candidato Gaspar, que teve o sigilo bancário quebrado pela Justiça. Foi aplaudido quando citou o sumiço dos R$ 53 milhões aplicados pela atual administração em um banco posteriormente liquidado pelo BC, contrariando a legislação, e o que poderia ter sido feito com esses recursos. Sublinhou por diversas vezes seu conceito de Cidade Inteligente, que por meio da tecnologia pretende maximizar os recursos e agilizar o atendimento à população. Com esperteza, usou algumas perguntas, até de adversários, para falar de seu próprio plano de governo, como um veterano em debates. Oito anos de trabalho legislativo valem alguma coisa.

Gaspar por sua vez, embora bem treinado, como Ganem, a usar todo o tempo disponível, demonstrou muito nervosismo a princípio, já que é neófito em campanhas eleitorais e insistiu no discurso da continuidade, de que em time que está ganhando não se mexe, o que até faria sentido não fosse a prisão de seu padrinho e mentor, em um processo de desapropriações fraudulentas, o que significa corrupção administrativa. E o nome da coligação é "Reinaldo Nogueira". Gaspar também não teve resposta à acusação de Gervásio sobre a participação de integrantes da mídia, em tese isenta, em sua campanha, revelada no mesmo escândalo de vazamento de áudio supracitado. Em vez disso, repetiu a história de que Bruno tem por trás de sua candidatura os irmãos José Carlos e Flávio Tonin, ambos ex-prefeitos, para quem não conhece a história da cidade. A comissão julgadora formada por diretores da OAB local indeferiu o pedido de resposta pedido pela assessoria de Ganen, talvez porque seus integrantes também já estivessem cansados, como todos, e concluíram que a afirmação de Gaspar não significa nada e já é desespero de causa de quem estava oito pontos atrás na última pesquisa divulgada.

Gervásio ainda remói a defenestração da Secretaria da Habitação, e sua agressividade tornou o debate muito mais interessante. Insistiu em sua experiência como empresário e gestor da pasta da Habitação na administração passada, quando se licenciou para se candidatar a vereador, a pedido do prefeito Reinaldo Nogueira, e quando obteve a maior votação para a chapa situacionista, não teve o cargo de volta. Isso o levou a uma posição de quase oposicionista na Câmara e ao lançamento de sua candidatura a prefeito. Sua posição em quarto lugar na pesquisa do Jornal Todo Dia, divulgada no último dia 8, deve tê-lo decepcionado. Foi quem mais insistiu na corrupção da atual administração, ainda que seus dois irmãos tenham sido presos no mesmo processo policial que envolveu Reinaldo e seu pai, Leonício.

Rinaldo Wolf (PT), por sua vez, surpreendeu na mesma pesquisa ao despontar em quarto lugar. Sua participação no debate, no entanto, foi uma decepção. Limitou-se a defender os governos Lula e, principalmente, Dilma Roussef, mandou um “Fora Temer!” e apresentou como sua prioridade de governo o velho Orçamento Participativo. No contexto atual do seu partido, é como uma freira pregando no bordel.

É difícil saber a motivação de Emanoel Messias (PMN) em concorrer à Prefeitura. Foi vereador uma vez, não se reelegeu, não tem proposta, acha boa a atual administração e, em resumo, não disse a que veio.

Muitos esperavam ver mais sangue, com um confronto direto entre os dois principais concorrentes, Bruno e Gaspar. Dentro das regras eleitorais, a forma como se deu o debate se Indaiatuba é um modelo do qual não se pode fugir muito. É democrático dar espaço igual a todos, mesmo aos que não tem chance, mas resulta nessa chatice. Entre os principais eleitorados, ninguém vai mudar o voto por causa do que assistiu ontem, o que é bom para quem está na frente. No máximo, o Gervásio vai ultrapassar o Rinaldo na próxima pesquisa, o que também não vai mudar nada. Mas a democracia, de um modo geral, ganhou com o debate. Pontos para a a Max Planck, OAB, TV Sol Comunidade e para os candidatos, que não fugiram da raia..

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

The Newsroom e o jornalismo ideal em tempo de cólera

Nos últimos dias fiz uma maratona da primeira temporada de The Newsroom, da HBO. Já tinha assistido a segunda temporada numa dessas semanas em que o sinal é liberado (sou pobre, só tenho o pacote básico) e conhecer o início da trama só confirmou a ótima impressão que tive da série.

A moda pode ser os universos delirantes de Walking Dead e Game of Thrones, mas em The Newsroom, Aaron Sorkin consegue um mundo ficcional muito próximo da realidade, ajudando o espectador a compreender o funcionamento da imprensa e da política americanas. Ele já havia criado "The West Wing: Bastidores do Poder", a melhor obra audiovisual sobre como é feita a política nos EUA (que, no fundo, se parece muito com qualquer democracia representativa, incluindo o Brasil).

À exemplo da Camelot criada em torno do presidente Jed Bartlett (Martin Sheen), Sorkin cria uma redação ideal em torno do âncora Will McAvoy (Jeff Daniels, um ator que trafega com tranquilidade entre o drama e o humor), do noticiário de horário nobre, que detém a segunda maior audiência entre os canais a cabo, mas tem se acomodado nessa condição. Tido muda quando o diretor do canal, Charles Skinner (Sam Waterston, vindo de quase duas décadas de "Law and Order"), chama de volta a antiga produtora-executiva e ex-namorada de Will, Mckenzie McHale (Emily Mortimer, de "A Invenção de Hugo Cabret"), para chacoalhar a redação. O desafio proposto à nova nova equipe, que inclui o editor-senior Jim Harper (John Galagher Jr.), é criar uma pauta relevante e esclarecedora ao eleitorado americano, para que ele possa fazer escolhas lúcidas nas urnas. Para isso, o republicano Will passa a atacar o Tea Party implacavelmente, a ponto de chamá-lo de "Talibã Americano"; notícias que são manchetes na concorrência, como a mãe acusada de matar sua filhinha, são desprezadas; celebridades, metereologia e outros assuntos "carne-de-vaca" são eliminados.

A ação acontece poucos anos antes do tempo atual, e as notícias cobertas pela equipe são verdadeiras; então o público sabe de antemão o que acontece (se for minimamente informado), casos da Primavera Egípcia, da ameaça nuclear em Fukushima e da morte de Osama Bin Laden (onde descobrimos que não somos só nós que às vezes confundimos Osama com Obama). A exceção é a gigantesca "barriga" provocada pela militantismo de uma produtor temporário e a má fé de uma fonte, cujos desdobramentos atravessam toda a segunda temporada, que se passa durante a campanha presidencial que resultará no segundo mandato de Barack Obama.

Questões como jornalismo versus entretenimento; como a imprensa deveria informar os eleitores para que eles façam boas escolhas na urna ao invés de tentar manipulá-los a escolher este ou aquele; a crescente polarização política que vai transformando divergência de opiniões em ódio; são temas comuns tanto aqui como lá, e que são abordados no seriado de forma adulta, educativa e sem o cinismo de "House of Cards", por exemplo. No mundo de "The Newsroom", que se parece muito com o nosso, boa política e jornalismo relevante são coisas possíveis, apesar de tudo.

Recomendo, principalmente os colegas jornalistas, que assistam a série. Quem não tem HBO, pode alugar na locadora (se você tiver mais de 60 anos), ou usar os inúmeros recursos disponíveis na web, do torrent ao on demand alternativo, se é que você me entende. Abaixo, o trailer da terceira e última temporada que estreia por lá dia 9 deste mes.




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Lincoln", de Steven Spielberg

Sally Field e Daniel Day-Lewis já levaram o Actors Guild Awards, ele também
o Globo de Ouro

Já faz algum tempo que Peter Pan de Hollywood acordou para as mazelas da América e vem se tornando um crítico de seu país. Há quem se refira a “O Terminal” (2004), “Guerra dos Mundos” (2005) e “Munique” (também 2005) como uma trilogia sobre os Estados Unidos pós-11 de setembro.
Seu recente “Lincoln”, embora se passe no século XIX, refere-se à divisão atual dos Estados Unidos, não pela escravidão, mas pela visão de mundo entre os adeptos do Tea Party e o resto do país. Nem mesmo a crise econômica causa pelo capitalismo selvagem sem freios defendido por eles fez com que suas convicções fossem abaladas. O resultado é um Congresso praticamente paralisado em meio à maior depressão econômica desde os anos 1930.
O guru da nova direita, Luis Felipe Pondé, rejeita na Folha de S. Paulo a aproximação que o crítico de cinema do mesmo jornal, Ricardo Calil, fez entre Lincoln e Obama, por que acha o segundo um banana, que só se reelegeu por ser negro (não é verdade, no pleito do ano passado ficou claro que o que os americanos não queriam era a volta do governo para os muito ricos, cristãos, heterossexuais – ainda que no armário – e, preferencialmente, brancos). Mas Calil tem razão em ver no subtexto nem tão sutil uma mensagem para o atual presidente. Se é isso o que ele fará em seu derradeiro quatriênio, e o que veremos.
Outro articulista importante da Folha, Elio Gaspari, adorou o filme, já que mostra de forma crua e chocante para leigos idealistas, como é que se fazem as leis nas democracias representativas, mesmo as leis mais nobres. Mas não há opções realistas a esse sistema, como bem observou Winston Churchill (“A democracia representativa é o pior sistema que existe, com exceção de todos os outros”). Nenhum jornalista que já tenha coberto qualquer legislativo acharia extraordinário o que acontece em “Lincoln”: é assim que é nos EUA, nas democracias européias e no Brasil (com diferenças importantes e fundamentais, mas, no fundo, é o mesmo). A alternativa a esse toma-lá-dá-cá é a ditadura, que é muito pior.
O Lincoln de Daniel-Day Lewis (tem tudo para quebrar o recorde do Oscar com uma terceira vitória como melhor ator principal) deixa isso claro na explicação que dá a seu gabinete sobre a necessidade da emenda mesmo depois de sua declaração de libertação dos escravos nos Estados Confederados. Nenhum presidente teve tanto poder quanto ele durante a Guerra Civil, mas seus atos executivos embasados no estado de guerra aproximavam-se de uma ditadura, e ele sabia disso. Tudo o mais poderia ser revertido ou contestado na paz, menos a escravidão, e por isso a necessidade de uma emenda constitucional que tornasse permanente a abolição da escravidão. A rigor, Pondé tem razão quando diz que não foi a liberdade dos negros que levou ao fraticídio americano, mas o desejo dos 11 estados confederados de deixar a União e manter o dixie way of life que podemos ver em versão devidamente edulcorada em “...E o Vento Levou”. A famosa Constituição Americana dava brechas para isso, só que Abraham Lincoln achou, com razão, que isso transformaria a América em dois – ou mais – países de segunda, e manteve a União a ferro e fogo. O mundo seria outro que a América do Norte se tornasse uma versão mais fria das fragmentadas Américas do Sul e Central. Isso é ser estadista. Ao centralizar a ação nos últimos meses da presidência e da vida de Lincoln, Spielberg deixa essa questão em segundo plano e se concentra na liberdade aos negros, o motivo idealista da guerra.
Cinematograficamente, entretanto, o resultado não é tão bom. O filme é muito falado, muito solene e se sustenta na atuação de Day-Lewis, em alguns momentos secundados por Sally Field como a primeira-dama Mary Odd Lincoln (seu estilo soap opera cai como uma luva no papel) e pos Tommy Lee Jones como o abolicionista radial Thadeus Stevens. Somente quem se interessa por política e história como eu, meu amigo João Marcos Martinho e Elio Gaspari apreciamos de fato. Assim, mesmo sem ser um filmão, “Argo” é muito mais cinema, e acho que ganha pontos no Oscar.