sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tarantino está de volta em "Django Livre"

O Django de Tarantino, Jamie Foxx, encontra o Django de Sergio Corbucci, Franco Nero
“Django Livre”, de Quentin Tarantino, chega aos cinemas brasileiros nesta sexta (inclusive Indaiatuba, obrigado Lui Cinematográfica). Quando o cineasta foi anunciado como vencedor do Globo de Ouro de Melhor Roteiro no último domingo, o crítico Rubens Edwald Filho – que não é exatamente fã dele – comentou que ele havia conseguido transformar seu nome em um subgênero cinematográfico, o que é uma proeza. Antes dele, talvez só Frank Capra com suas comédias otimistas; Alfred Hitchcocok, com suas obras-primas do suspense; John Ford e seus westerns; Cecil B. de Mille com suas superproduções, Woody Allen e seu humor “cabeça” e o antigo Steven Spielberg pré-“A Lista de Schindler” haviam conseguido isso.
Recentemente comprei o livro “Quentin Tarantino”, de Paul Woods, uma compilação de resenhas sobre sua obra publicado originalmente em 2005 e atualizado ano passado para incluir textos sobre “Sin City” (em que ele dirige a melhor cena), “A Prova e Morte” e “Bastardos Inglórios”. É decepcionante no geral, nem tanto por não conter material inédito, mas porque as análises arranham a superfície do fenômeno Tarantino, mas não sua essência. Em resumo, não é a mistura de gêneros como kung fu, samurai, western spaghetti, policiais B ou filmes de guerra italianos - considerados menores – que fazem dele um grande diretor, mas sim saber identificar o grande cinema em filmes pequenos e transferir isso ao seu trabalho. Isso o treinou para ter um olho cinematográfico como poucos. Considere seu segmento “O Homem de Hollywood” em “Grande Hotel”, inspirado em um episódio da série de TV “Alfred Hitchcock apresenta”. A câmera entra no apartamento como a visão subjetiva da personagem de Tim Roth, num longo take em que ela é apresentada pelo próprio Tarantino aos participantes da festinha.É inspirado em “Festim Diabólico”, do mesmo Hitchcock, é sozinha, a cena é melhor que tudo o que Alison Anders, Alexandre Rockwell (que fim deram?) e Robert Rodriguez fizeram nos metros de celulóide anteriores. E a abertura de “Bastardos Inglórios”, com a música de western spaghetti, o enquadramento em panorâmica enquanto o camponês francês corta lenha?  Introduz e forma perfeita e inusitada a visita amistosamente ameaçadora do coronel Hans Landa, que durante o filme só comete um ato de violência pessoalmente, mas ainda assim é um dos vilões mais fascinantes do cinema contemporâneo.
Aliás, violência é, sim, marca regirada do cinema de Quentin Tarantino, como o subtítulo brasileiro de Pulp Fiction vaticinava: a partir daquele trabalho começava um Tempo de Violência em Hollywood. Mas não se trata de apologia, banalização ou seja lá o que mais se tenha acusado o diretor. É uma estética tirada daqueles filmes “pequenos” dos irmãos Shaw, Sergio Corbucci, Enzo Castellari, Sonny Chiba e tantos outros. Por exemplo, após a orgia de laminas e sangue em Kill Bill, segue-se a quase poética luta entre a Noiva e Oren-Ishi, sobre a neve e ao som de Santa Esmeralda.
Em “À Prova de Morte”, no entanto, suas experiências com a violência atingiram o limite do suportável, e se constituiu em seu maior fracasso. Mas ele persistiu em sua estética sádica, só que mudando de alvo, de quatro jovens lindas para nazistas, tipo de vilão de quem ninguém tem dó. Em “Django Livre”, as “vítmas” do massacre também são igualmente desprezíveis, traficantes de escravos e sulistas escravocratas. Daqui a pouco vou ver e escreverei minhas impressões.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Globo de Ouro alfineta Oscar premiando Ben Affleck

Bill Clinton foi dar uma força para "Lincoln", do amigo Steven Spoelberg. Nãp adiantou muito...
Antigamente se dizia que o Globo de Ouro, segunda premiação mais importante do cinema americano, era uma espécie de prévia do Oscar. Não é e nunca foi, já que os votantes são muito diferentes (90 correspondentes estrangeiros no primeiro versus um imenso colégio eleitoral cuja misteriosa formação mistura ex-indicados, profissionais da área e gente que pouco tem a ver com a indústria) e há uma tendência do Globo ser mais ousado que a conservadora Academia de Hollywood. Em 2006, por exemplo, a Associação de Críticos Estrangeiros teve a coragem de eleger “Brokeback Mountain” como melhor filme, enquanto a Academia moitou, dando o Oscar para o condescendente “Crash”, mas premiando Ang Lee como melhor diretor.
Ontem, domingo, aconteceu a 70a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro, que também premia programas de televisão (é o segundo em importância do segmento, perdendo só para o Emmy). Tem mais cara de festa que o Oscar, já que os astros se sentam em mesas e a bebida rola solta ainda durante a premiação, e não só depois como no Kodak Center.
O bom “Argo” – único concorrente que assisti -- consagrou-se com os troféus de filme dramático e diretor para Ben Affleck, esnobado pela Academia, que não o indicou na categoria. O favorito Lincoln ficou com um solitário premio de ator para Daniel Day-Lewis. Este é, talvez, o grande ator de cinema em atividade, o que será confirmado se receber um inédito terceiro Oscar como ator principal. Sally Field, que estava cotada para atriz coadjuvante pelo mesmo filme, viu Anna Hathaway receber seu primeiro premio importante por “Os Miseráveis”. Seu equivalente masculino foi, de novo, Christoph Waltz por “Django Livre”, repetindo seu filme anterior com Tarantino, “Bastardos inglórios”, que o colocou no mapa do cinema internacional. Hugh Jackman no icônico papel de Jean Valjean, o herói de “Os Miseráveis”, foi o melhor ator em comédia ou musical, enquanto a jovem e talentosa Jennifer Lawrence (“Jogos Vorazes”, “X-Men Origens: Primeira Classe”) recebeu o premio como melhor atriz de comédia ou musical por “O lado bom da vida’.
Jessica Chastain foi a melhor atriz em filme dramático por “A Hora mais Escura”, o polêmico filme de Kathryn Bigellow (“Guerra ao Terror”) sobre a operação para matar Osama Bin Laden, que envolveria tortura para obtenção de informações. Como disse a apresentadora Tina Fey, a cineasta entende do assunto já que foi casada com James Cameron por três anos.  Jennifer e Jessica eram rigorosamente desconhecidas até 2010 e hoje já podem set consideradas estrelas.
Mostrando que os estrangeiros gostam mesmo dele, Quentin Tarantino recebeu o premio de melhor roteiro, enquanto o rotineiro “Valente” foi a melhor animação, numa lista significativamente diferente da do Oscar. Adele recebeu o premio por melhor canção por “Skyfall” e o canadense Mychel Danna pela trilho sonora de “As Aventuras de Pi”. O filme estrangeiro vencedor foi “Amor”, de Michael Hanecke, também favorito ao Prêmio da Academia.

A relativa ousadia pode ser vista também nas premiações para TV, como a elogiada “Girls” abocanhando os prêmios de melhor séria de comédia – contra os sucessos “The Big Bang Theory” e “Modern Family” – e atriz para a criadora do programa, Lena Dunhan. “Homeland”, que já havia ganhado o premio de melhor série dramática e atriz para Claire Danes no ano passado, repetiu a dose e ainda teve o reforço do troféu para o protagonista masculino, Damien Lewis. A brasileira Morena Baccarin bem poderia levar um premio como atriz mais bonita da TV, se houvesse...
O telefilme “Virada no Jogo”, sobre a campanha presidencial derrotada de John Mccain, recebeu o premio da categoria e também de melhor ator coadjuvante para Ed Harris como o candidato republicano derrotado por Barack Obama em 2008, e para Julianne Moore, enfim ganhando uma láurea importante no papel da governadora do Alaska, Sara Palin, o que rendeu piadas de Tina Fey, cuja semelhança com a candidata a vice-presidente foi constante fonte de sátiras no “Saturday Night Live”. John Cheadle, como melhor ator de série de comédia ou musical por “House of Lies”, a dame Maggie Smith por “Downtown Alley” como atriz coadjuvante em minissérie ou filme para TV, e a ressurreição da carreira de Kevin Costner, melhor ator de minissérie ou filme para TV por “Hatfileds & McCoys”, completaram as premiações para telinha.
Jodie Foster fez um discurso corajoso ao receber o premio Cecil B. de Mille

Dois momentos marcantes da cerimônia foram a presença do ex-presidente Bill Clinton, que anunciou o clipe de "Lincoln", do amigo Steven Spielberg, e o discurso de Jodie Foster ao receber o premio Cecil B. de Mille por sua carreira de 47 anos. Ao contrário das falas protocolares, Jodie foi fundo ao falar sobre a exposição precoce, amizades, profissionalismo e sua "saída do armário anos atrás, na idade da pedra".

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Saem os indicados ao Oscar

Daniel Day-Lewis como Lincoln": hoje, seria barbada para filme, direção e ator

Foram anunciados hoje os indicados ao Prêmio da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, o popular Oscar. Como esperado, "Lincoln", de Steven Spielberg, lidera a lista, concorrendo a 12 estatuetas. Em seguida vem "A História de Pi" (em cartaz em Indaiatuba, de Ang Lee, com 11 indicações. Entre os filmes de língua não-inglesa (os chamados "estrangeiros"), o queridinho do público e cinemas de arte - incluindo o brasileiro - , o frances "Intocáveis", ficou de fora. Em troca, o austríaco "Amor" - mas falado e interpretado em frances - surge como favorito na categoria, já que o diretor Micjhael Hanecke (de "A Fita Branca" e Caché"), está entre os cinco indicados. 
Com o Brasil fora do páreo, "Intocáveis" era o favorito dos frequentadores
de salas de arte, mas ficou fora da disputa
Se a cerimônia de premiação fosse hoje, "Lincoln" seria a barbada para o Melhor Filme, mas as coisas podem mudar com o tempo. Como, em geral, os Oscar de direção acompanha o de filme, então Spielbergo fará a proeza de chegar ao seu terceiro Oscar, entrando para um clube que até agora só tem Frank Capra e William Wyler como sócios (John Ford é o único com quatro estatuetas, e nenhuma por um western...). Daniel Day-Lewis tem tudo para levar sua terceira estatueta como ator principal, o que seria um feito inédito, pois os outros dois com tres premios (Jack Nichilson e Walter Brennan) tem pelo menos um como coadjuvante (Nicholson, um, e Brennan todos os tres).
O páreo entre as atrizes está mais duro, especialmente após a surpreendente exclusão de Anne Hattaway em sua elogiada atuação em "Os Miseráveis". Duas das favoritas, Jessica Chastain e Jennifer Lawrence eram completas desconhecidas há três anos, e são promessas de estrelas e primeira grandeza, se já não o são. Deve ficar entre elas.
Entre os concorrentes a ator coadjuvante, uma curiosidade: todos já ganharam uma estatueta: Philip Seymour Hoffman já ganhou em 2005 por "Capote"; Robert De Niro venceu como coadjuvante em 1975 por "O Podersos Chefão 2" e em 1980 por "O Touro Indomável"; Alan Arkin foi o melhor coadjuvante em 2007 por "A Pequena Miss Sunshine"; Tommy Lee Jones em 1994 por "O Fugitivo" e, finalmente, Christoph Waltz, ganhador do premio de coadjuvante e revelado ao mundo em 2009 por "Bastardos Inglórios" e que pode repetir a dose pelas mãos do mesmo Quentin Tarantino. Quem viu, diz que seu pistoleiro-dentista em "Django Livre" rouba a cena de novo, mas a Academia não interpretará isso como mais do mesmo? Veremos.
Já entre as atrizes secundárias, Sally Field também está prestes a fazer história. Pode se igualar a Ingrid Bergman e Meryl Streep com dois Oscar como principal (que ela já tem) e um como coadjuvante e ficar atrás apenas de Katherine Hepburn, vencedora de inigualáveis quatro prêmios como atriz principal. 
Nas animações, desta vez a Pixar não é favorita, com seu decepcionante "Valente" e na disputa entre animação digital e stop motion, o segundo leva vantagem com tres indicados - "Frankwenie", "Piratas `Pirados" e "ParaNorman" - contra dois do primeiro tipo, "Valente" e "Detona Ralph", ambos do conglomerado Disney.
Veja todos os indicados:
MELHOR FILME
"Indomável Sonhadora"
"O Lado Bom da Vida"
"Lincoln"
"A Hora Mais Escura"
"As Aventuras de Pi" (em cartaz no Topázio de Indaiatuba)
"Os Miseráveis"
"Amor"
"Django Livre"
"Argo" (já exibido em Indaiatuba)

MELHOR DIREÇÃO
Michael Haneke – “Amor”
Benh Zeitlin - “Indomável Sonhadora”
Ang Lee – “As Aventuras de Pi”
Steven Spielberg – “Lincoln
David O.Russell – “O Lado Bom da Vida”
MELHOR ATOR
Daniel Day Lewis - “Lincoln”
Denzel Washington - “Flight”
Hugh Jackman – “Os Miseráveis”
Bradley Cooper - “Silver Lining Playbook”
Joaquin Phoenix – “The Master”
MELHOR ATRIZ
Jessica Chastain – “A Hora Mais Escura”
Jennifer Lawrence – “O Lado Bom da Vida”
Emmanuelle Riva – “Amour”
Quvenzhané Wallis – “Indomável Sonhadora”
Naomi Watts – “O Impossível”
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz - "Django Livre"
Philip Seymour Hoffman - "The Master"
Robert De Niro – “O Lado Bom da Vida”
Alan Arkin – “Argo”
Tommy Lee Jones – “Lincoln”
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams – “The Master”
Sally Field – “Lincoln”
Anne Hathaway – “Os Miseráveis”
Helen Hunt – “The Sessions”
Jacki Weaver – “O Lado Bom da Vida”

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
“Amor” - Michael Haneke
"Django Livre” – Quentin Tarantino
“Flight” – John Gatins
“Moonrise Kingdom” – Wes Anderson e Roman Coppola
“A Hora Mais Escura” – Mark Boal
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
“Argo” – Chris Terrio
“Adorável Sonhadora” – Lucy Alibar e Benh Zeitlin
“As Aventuras de Pi” – David Magee
“Lincoln” – Tony Kushner
“O Lado Bom da Vida” – David O.Russell
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amor"
"Kon-Tiki"
"No"
"O Amante da Rainha"
"War Witch"

MELHOR ANIMAÇÃO (todos já exibidos em Indaiatuba)
"Valente", de Mark Andrews e Brenda Chapman
"Frankenweenie", de Tim Burton
"ParaNorman", de Sam Fell e Chris Butler
"Piratas Pirados", de Peter Lord
"Detona Ralph", de Rich Moore (único ainda em cartaz)
MELHOR FIGURINO
“Anna Karenina” – Jacqueline Durran
“Os Miseráveis” – Paco Delgado
“Lincoln” – Joanna Johnston
“Espelho, Espelho Meu” – Eiko Ishioka
“Branca de Neve e o Caçador” – Colleen Atwood

MELHOR DOCUMENTÁRIO
“5 Broken Cameras”
“The Gatekeepers”
“How to Survive a Plage”
“The Invisible War”
“Searching for Sugar Man”

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
“Inocente” – Sean Fine e Andrea Nix Fine
“Kings Point” – Sari Gilman e Jedd Wider
“Mondays at Racine” – Cynthia Wade e Robin Honan
“Open Heart” – Kief Davidson e Cori Shepherd Stern
“Redemption” – Jon Alpert e Matthew O’Neill

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Band começa a exibir "Roma" hoje

Kevin McKidd é Lucius Vorenus e Ray Stevenson é Titus Pullo em "Roma"

A Band abre seu novo pacote de atrações internacionais com a exibição da macrossérie “Roma”, produção original da HBO e que será apresentada todas as terças às 22h30.  É a produção que abriu as portas para inúmeras outras com pano de fundo histórico – como os três segmentos de “Spartacus”, “Os Bórgas”, “The Tudors” e “Os Pilares da Terra”, também exibido pela Band. Mas “Roma” foi mais longe em termos de pesquisa, reconstituição e dramaturgia. Sem falar nas interpretações do excelente elenco, quase todo britânico.
A série conta na primeira temporada a ascensão e queda de Caio Julio César, e na segunda, as guerras civis de Marco Antonio, primeiro contra Brutus e os assassinos de César, e depois, contra Otávio, o sucessor escolhido pelo ditador. Como em “Guerra nas Estrelas” (George Lucas confessou que copiou a ideia de Akira Kurosawa em “A Fortaleza Escondida”), a narrativa é centrada em dois personagens periféricos às grandes tramas políticas, os legionários Lucius Vorenus (Kevin McKidd, de “Grey’s Anatomy”) e Titus Pullo (Ray Stevenson, que fez um dos fracassados “Justiceiros” da última década). O nome dos dois foi tirado diretamente das “Crônicas da Guerra da Gália”, do próprio César, e são os únicos soldados comuns a serem nomeados por ele. Vorenus é um centurião orgulhoso de suas origens e um fiel partidário da República, enquanto Pullus é um típico legionário: briguento, mulherengo e bêbado. A personalidade apolínea do primeiro se choca constante com a dionisíaca do segundo, mas a amizade entre ambos sobrevive às guerras e tragédias.
Por questões diversas, Vorenus se liga a Antônio (James Purefoy, que é o serial killer do novo seriado “The Following”) enquanto Pullus se torna uma mistura de guarda-costas e treinador do jovem Otávio (Max Pirkis na adolescência e Simon Woods como adulto), o futuro imperador Augusto.  Mas apesar da política ser, oficialmente, uma jogo para homens, as grandes intrigantes da trama são Servília (Lindsay Duncan, de “Sob o sl de Toscana”), mãe de Brutus e amante de César; e Otávia, mãe de Otávio e amante de Antônio. Os escritores de “Roma” (entre os quais Bruno Heller, de “The Mentalist”; e John Millius, de “Apocalipse Now”) usam esse recurso para ilustrar o papel feminino na aristocracia romana, muito longe da imagem tradicional de submissão e passividades.
Ciáran Hinds é o melhor Julio Cesar das telas
Entre as grandes figuras históricas, o galês Ciáran Hinds (“A soma de todos os medos”, “A Mulher e Preto”) compõe o melhor Julio César que já vi, melhor que Rex Harrison na “Cleópatra” com Elizabeth Taylor ou Louis Calhern no “Julio Cesar” de Joseph L. Mankiewcz. David Bamber interpreta um Marco Cícero bem de acordo com o que a história registra, orador brilhante e político precavido, que se opõe a César mas não participa da conspiração que o mata. Muito divertida a Cleópatra de Lindsay Marshall, não exatamente bonita, mas muito sensual e fogosa, como recentes descobertas demonstram. Purefoy compõem um Antonio bem diferente de Richard Burton e mais próximo do que a história conta.
Curiosamente, o roteiro foge das grandes frases – César não diz “A sorte esta lançada” ao atravessar o Rubicão nem “Até tu, Brutus (ou filho, segundo outras versões)” enquanto agoniza no Senado. O famoso discurso de Antonio no funeral de César, que o ponto alto da peça “Júlio César” de Shakpespeare, também é escamoteado ao espectador, que só o vê o antes e depois da elegia que muda o curso das coisas para os conspiradores que tentaram salvar a República.
Claro que o programa diverte muito mais quem gosta de história, mas também é um entretenimento de primeira para quem quer saber só de intriga, ação e sexo dentro de uma moralidade muito diferente da que herdamos pós-ascensão do Cristianismo, já na decadência de Roma. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A volta da Rádio Rock


Um das notícias mais interessantes do final do ano foi a volta da 89 FM, agora pelas mãos do UOL. Para quem não sabe, a emissora foi um marcos dos anos 80 e o principal veículo de divulgação do rock nos anos dourados do gênero no Brasil, a década de 80. Ela saiu do ar há cinco anos, vencida pela ascensão dos sertanejos universitários – indício inequívoco da decadência do curso superior no País – e agora retorna com mais força ainda, já que agora, graças à internet, não depende do alcance das ondas do rádio.
Meu amigo Valgério Gianotto, músico erudito com incursões pela música popular, observou certa vez que, antigamente, ele sentia uma grande resistência das pessoas em geral quando ele citava – por exemplo – Beethoven. Hoje ele observa esse preconceito em relação ao rock. Não que uma coisa seja igual à outra, é claro, mas para os tempos atuais, a “mistura bastarda de jazz com música jeca dos EUA”, segundo Paulo Francis, tem uma complexidade e riqueza impensáveis para Michel Teló e Luan Santana.
A primeira semana da Rádio Rock foi um verdadeiro túnel do tempo, parecia que estava ouvindo a mesma emissora de cinco anos atrás – só clássico. Acho que a preocupação era reconquistar os velhos ouvintes, para daí, apostar na turma dos aplicativos que, segundo eles, estão batendo recordes em acessos.
O rock não é, de fato, o ponto alto da produção musical humana, mas tem uma trajetória extraordinária do ponto de vista histórico-cultural. Nascido na época de maior riqueza já vista pela Humanidade (Hobsbawn) foi diretamente responsável pelo surgimento do mercado jovem, foi a trilha sonora das contestações sociais e comportamentais dos anos 60, virou um mercado bilionário, originou os mais inovadores trabalhos de estúdio, às mais belas capas de LPs, elevou seus ídolos ao status de semideuses (e até Deus, no caso de Clapton) e tornou concentrações gigantescas de pessoas para ouvir música um evento cotidiano.
Nos recentes Jogos Olímpicos de Londres, a antiga sede do Império em que o Sol Nunca se Punha, ao invés de decantar Shakespeare, a Revolução Industrial que criou o mundo moderno ou a grande comunidade de nações que orbita em torno da coroa de Elisabeth II, fez da cultura-pop a grande marca pela qual o Reino Unido quis lembrado pela audiência mundial do evento, nas figuras de James Bond, Charles Chaplin, Monty Python e, naturalmente, The Beatles, Rolling Stones, Queen, David Bowie e até mesmos os iconoclastas Sex Pistols (cuja sarcástica “God Save the Queen” chegou a ser banida da BBC) e The Clash (que viu seu “London Calling” virar prefixo não oficial das Olimpíadas). O rock é artigo de exportação e identificação cultural.
Mas, voltando à 89, é interessante notar que se por um lado ela está tocando também lançamentos de grupos internacionais consagrados, no caso das bandas brazucas a programação tem se restringido às que fizeram sucesso até os anos 90. Nada de Detonautas, CPM22, Pitty, muito menos NX Zero e Restart. Quer dizer, é para quem gosta do rock “das antigas”, sejam contemporâneos ou neófitos. Pode ser, como nos anos 80, o veículo para novas bandas? Talvez, mas elas vão ter que convencer os ouvintes e os programadores antes.

P.S.: Uma curiosidade para os indaiatubanos é que um dos principais anunciantes da 89FM é a cervejaria Karavelle, produzida no Distrito Industrial, que recentemente não mereceu sequer uma menção em matéria de capa de uma revista local sobre cervejas premium e artesanais. Waal...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A volta de Felipão

Havia decidido escrever uma crônica por semana para reativar este blog, abandonado por conta da demanda de serviço do Light na Night, meu atual ganha pão (que vai muito bem, obrigado, graças aos leitores e anunciantes que o prestigiam). Por conta disso, acabei virando no últimos meses mais colunista social e fotógrafo que antes, praticamente abandonando o texto, que é meu ofício.
O retorne de Luis Felipe Scolari me deu o assunto perfeito para este retorno. Falou-se muita bobagem a respeito, como, por exemplo, que em dois anos dirigindo o Palmeiras, ele "só" ganhou a Copa do Brasil. Em treze anos, os dois únicos títulos importastes do Alviverde Paulistano foram a Libertadores de 1999 e esta última Copa do Brasil, ambas dirigidas por Felipão. Quanto ao rebaixamento no Campeonato Brasileiro, ele foi o primeiro a dizer do perigo de cair, ainda no calor da vitória no torneio que da acesso direto à Libertadores do ano quem vem. Como duas diretorias ineptas, falta de dinheiro para contratações e um elenco medíocre que passou a achar que era o Barcelona por conta do título do primeiro semestre, o técnico pouco pode fazer.
Agora, por mais que considere Felipão muito superior a Mano Meneses tanto em bagagem, quanto em caráter, ele terá que superar uma escrita maldita. Nunca na história desse País um técnico conseguiu ganhar duas Copas do Mundo, muito pelo contrário: a demais tentativas após a consagração sempre acaba em desastre. Começamos com Vicente Feola, técnico campeão do mundo em 1958, que não dirigiu a seleção em 62 por motivos de saúde, mas foi o comandante do vexame de 1966, a primeira desde 1938 em que o Brasil saiu na primeira fase (na verdade, nunca mais fizemos uma campanha pior desde então). O injustiçado Zagalo, que muita gente acha que herdou o time pronto de João Saldanha (não é verdade: a equipe que do Tri era muito diferente da que disputou as Eliminatórias), foi para a disputa na Alemanha em 1974 certo que seria Tetra. Foi superado pela Laranja Mecânica holandesa de Rinus Mitchell e Johann Cruyff, e ainda perdeu o terceiro lugar para a Polônia de Lato. Em 1998 ele ganhou outra chance, que terminou no ainda inexplicado piripaque de Ronaldo às vésperas da final, que Zidane e companhia venceram por humilhantes 3 a 0.
Parreira ganhou a nova Taça Fifa (a Jules Rimet, como sabemos, ficou definitivamente por aqui, na forma de lingotes, anéis, correntes ou seja lá o que mais os ladrões e receptadores fizeram com ela) pela primeira vez para o Brasil em 1994, com um time criticado como retranqueiro, que dependeu muito da ótima forma de Romário na época. Tentou se redimir diante da torcida em 2006 montando um Dream Team, que foi à Copa da Alemanha como se as partidas fossem um mero compromisso burocrático a ser cumprido antes de levantar a taça. Novamente, Zinedine Zidane nos deu um choque de realidade nas quartas-de-final, com direito a chapéu em cima de Ronaldo.
Até mesmo Tele Santana, que formou a seleção que encantou o mundo em 1982, fez uma segunda Copa melancólica em 86, cujo o momento mais marcante foram os dois gols espíritas de Josimar e ainda tivemos que assistir Diego Armando Maradona carregar o time ás costas rumo ao segundo título mundial da Argentina.
A tradição, portanto, esta contra Felipão, e também a atual safra de jogadores, inferior á de 2002, 2006 e até mesmo 2010. Do time atual, o técnico gaúcho só trabalhou com Kaká, o novato do Penta que hoje é o veterano da equipe. Salvo uma contusão (toc, toc, toc) acho que ele está garantido na Copa. As estrelas devem ser as mesmas de Mano Menezes, mas a diferença estará no talento motivador, na expertise em mata-matas (se nos derem uma fase de grupos como a de 2002, melhor ainda) e na montagem do sistema defensivo.
Concordo que, no momento atual, Muricy e Tite estão em momentos melhores (alguém vê seriamente Abel Braga como campeão do mundo?), mas ambos se veem diante de desafios importantes em seus atuais clubes: o técnico do Santos á procura e um time que sobreviva sem Neymar e o do Corinthians em busca do inédito Mundial Interclubes. Felipão, desempregado desde que abandonou o Titanic palmeirense, era a escolha óbvia. Agora, terá que ser mantido mesmo que perca a Copa das Confederações (nunca uma equipe que venceu esse torneio de fancaria ganhou o que interessa, no ano seguinte), mesmo em casa e sob a pressão da mídia e da oposição, que mcomeça a se formar em torno do insatisfeito padrinho de Mano Menezes, André Sanchez.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Topázio apresenta 12º Festival de Filmes Italianos


A Lui Cinematográfica realiza o 12º Festival do Filme Italiano a partir de quinta-feira. Os filmes terão sessões às 15h e 19h30 nas quintas feiras até o dia 4 de outubro, sempe no Multiplex Topázio do Shopping Jaraguá.
A mostra será aberta por “Habemus Papam”, de Nanni Moretti, que já foi exibido pelo Cineclube Indaiatuba em abril. Um personagem num posição inusitada que sofre um surto de síndrome do pânico e é obrigado a se submeter em segredo a sessões de psicanálise foi o ponto de partida tanto da comédia “A Máfia no Divão” (1999) quanto o seriado “Família Soprano” (1999-2007). Em ambos os casos, o paciente em questão era um chefão da Máfia e no filme de hoje, o lider de outra instituição tipicamente italiana, o Vaticano. O grande ator francês Michel Picoli (“A Bela da Tarde”, “A comilança”) interpreta o papa que, na hora de surgir aos fiéis que aguardavam a eleição do Colégio de Cardeais como novo Santo Padre, tem um surto de pânico e recua. Como ele já aceitou o cargo, o protocolo da Igreja Católica cai num impasse. O que fazer? O papa assume ou não o cargo? A imprensa de todo o mundo pressiona para saber o nome do eleito.
O porta-voz do Vaticano, interpretado pelo ator polonês Jerzy Stuhr (colaborador de Krzysztof Kieslowski em trabalhos como “A igualdade é branca”) é obrigado a se desdobrar para manter a mídia longe do imbróglio e se manter dentro dos parâmetros rituais. Um médico e chamado, mas logo se vê que é um trabalho para a Psicanálise, e justamente um terapeuta ateu (Nanni Moretti) entra em cena, em meio de um grupo de cardeais de vários países. Enquanto o papa entra em crise existencial, pois não se julga apto para o cargo, o psicanalista e os cardeais, todos impedidos de deixar o Vaticano por causa do segredo a ser mantido, dedicam-se a jogos como carteado e um torneio de vôlei, onde fica escancarado o peso da geopolítica na distribuição de forças dentro da Santa Madre Igreja Católica.
Não vendo muito progresso com o terapeuta, o porta-voz resolve levar o Sumo Pontífice para fora dos muros do Vaticano para se consultar com uma psicanalista mulher (Margherita Buy, de “O quarto do filho”). Dessa vez, o papa é tocado pela conversa e foge, se perdendo pelas ruas de Roma e indo parar  num tearo em que um grupo interpreta “A gaivota”, de Tchecov. Como observa o crítico Marcel Hessel, do site Omelete, “Assim como Tchékhov, Moretti também tem gosto pela sátira que fica entre o trágico e o cômico”. “A grande sacada aqui, que faz a ponte com Tchékhov, é revelar que Melville sonhava ser ator - uma frustração da juventude, ‘já que eu era péssimo no palco’, diz ele. O que o papa talvez não perceba (mas Moretti faz questão de dizer) é que o papado é também uma forma de encenação”, prossegue.
Nanni Moretti é um dos raros diretores do cinema italiano atual que é rapidamente identificado, graças a trabalhos como “Caro Diário” (1993) e “O quarto do filho” (2001), ambos premiados em Cannes, o primeiro lhe dando o troféu de Direção e o segundo obtendo a cobiçada Palma de Ouro como melhor filme.


Sobre “Adorável Pivelina”, filme que será exibido dia 21, segue avaliação do crítico de O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin.
Na primeira sequência de Adorável Pivellina, uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi), procura por seu cão num jardim. A câmera (na mão) a acompanha. Patti não encontra o cachorro fujão (ele reaparecerá depois), mas acaba por achar uma criança sozinha, num balanço, a garotinha de que fala o título em italiano.
A mãe deixou um bilhete e uma foto, e mulher resolve adotar a pequena Asia (Asia Crippa), apesar da insistência do marido, Walter (Walter Saabel) em entregar o caso à polícia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que tem grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha e a integra à vida da pequena trupe.
O filme embarca logo de saída em um tom documental que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas, afinal, onde está a história?
Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa reside, exatamente, na observação do acontecimento vivido, nessa espécie de simulacro “da vida como ela é”, tão rente ao real quanto seja possível ao cinema. No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que, por acaso, se situa na Itália, mas poderia ser em qualquer lugar, e aqui mesmo, no Brasil.
A situação é universal e, ao mesmo tempo, italianíssima. Tudo se passa nos arredores de Roma, naqueles arrebaldes meio desolados, cheios de edifícios populares e que foram locação favorita de alguns filmes de Pier Paolo Pasolini. A referência a Pasolini, aliás, se amplia num passeio à feia praia de Óstia, onde ele foi assassinado por um garoto de programa, em 1975.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.
Eles vencem a aposta com uma série de trunfos nas mãos. Primeiro, a criança é encantadora, de fato. Mas, se sabe, péssimos filmes também são feitos com crianças adoráveis. É que, no caso, os “dotes” da menina Ásia Crippa são utilizados com inteligência pela dupla. Há, também, a espontaneidade dos atores naturais, que fazem os personagens como se interpretassem as próprias vida, o que é bem caso. Em especial, a figura de Patti, com seus cabelos vermelhos e ar protetor de mamma romana. Com diálogos improvisados, o filme adquire frescor notável.
Por fim, introduz-se um elemento de suspense em toda essa situação. Quem será essa mãe, que abandonou a “pivellina” encantadora, ou, pelo menos, a deixou emprestada por algum tempo à outra? Essa pergunta fica implícita, rondando o filme e, embora não formulada de todo, lhe dá um dinamismo psicológico notável. Não conseguimos evitar a pergunta implícita: e com quem ficará a pequena no final?

No dia 28, a atração será “A primeira coisa bela”, resenhada abaixo pelo decano Rubens Edwald Filho.
Felizmente ainda tem distribuidores que tentam lançar filmes italianos no mercado brasileiro apesar das dificuldades. Antigamente a gente conhecia todos os astros da Itália que eram enormemente populares por aqui .
Infelizmente o cinema lá enfrenta dificuldades econômicas, aliás, como todo País e não reconhecemos os nomes ou os rostos (uma das poucas sobreviventes da Idade de Ouro do cinema italiano é Stefania Sandrelli, que era adolescente quando foi revelada em Divórcio a Italiana, de Pietro Germi, e hoje faz papeis de matrona, ainda bonitona por sinal).
Não há como negar que o cinema italiano já não tem mais o mesmo padrão de qualidade, de uma época em que exibia os melhores fotógrafos, os melhores diretores de arte e mesmo compositores. O cinema deles tinha uma cara e um padrão, que hoje se perdeu. Mas ainda tem características próprias, continua ser a humano, popular, intensamente crítico e dramático sem cair em clichês.
Dentre seus novos valores descobertos pelo Festival de Cannes está este Paolo Virzi (este já é seu décimo terceiro trabalho como diretor e segundo me parece vimos apenas um deles no Brasil, que foi “Meu Caso com o Imperador”, 06, com Daniel Auteil e Monica Belucci, que está longe de ser o mais característico e pessoal, mas que eu descrevi como “Boa comédia italiana que conta em tom de farsa, como teria sido a estadia do Imperador Napoleão na Ilha de Elba em seu exílio, depois de Waterloo.
Esta nova comédia dramática foi super premiada, ganhou três Davids de Donatello (ator, atriz e roteiro), e mais 15 indicações, ganhou festivais de Salerno,Sannio e Montpellier, foi finalista como diretor no European Film Award. Além de ter sido indicado oficialmente ao Oscar de filme estrangeiro.
Basicamente pinta o retrato de uma professor de curso secundário de cerca de 40 anos, misantropo e que é forçado a visitar sua mãe de quarenta e poucos anos, que esta para morrer. São quatro décadas de problemas e crises que ele tem que resolver. Os críticos americanos acharam que o filme não foge de certo sentimentalismo semelhante aos trabalhos de Tornatore, ainda que compensado por grandes interpretações de todo o elenco.
O filme começa em 1971, num concurso de beleza de verão, em que Anna (Ramazzotti, que na vida real é mulher do diretor) ganha mas deixa o marido enciumado e o casal de filhos observando.
No tempo presente, o garoto virou o professor e é praticamente sequestrado pela irmã Valeriz (Pandolfi) para visitar a mãe que está morrendo de câncer num asilo. Dali em diante, o filme alterna passado e presente, explicando aos poucos como o herói foi ficando traumatizado e amargo.
Sem cair na caricatura, como muitos filmes italianos dantes e de hoje, A Primeira Coisa Bela usa como título uma canção popular de 1970 que a mãe cantava para suas crianças em momentos de problemas (a trilha musical é do irmão do diretor Carlo Virzi). O fotógrafo Nicola Pecorini usa cores laranja e sépia para o passado.
Enfim, é um  filme de emoções, sentimentos que tem grande chance de dialogar com o público brasileiro, em particular o paulistano.

Fechando a mostra, no dia 4 de outubro será exibido o “clássico” “Dio como ti amo”. Clássico entre aspas porque não o é no sentido estrito do termo – um filme memorável por sua qualidade – mas por ter marcado época, especialmente em Indaiatuba, por razões diversas. Feito na esteira do sucesso da canção de autoria de Domenico Modugno, vencedora do Festival de San Remo em 1966, e que tornou a cantora Gigliola Cinquetti uma estrela internacional. Como na época se consumia tanto músicas quanto filmes italianos em profusão no Brasil, multidões foram assistir “Dio come ti ano” no País. Gigliola interpreta uma bela e inocente jovem de família pobre que se apaixona pelo noivo rico de sua melhor amiga. Emocionados com a paixão da moça, seus familiares a fazem se passar por uma princesa para que ela possa viver este romance impossível. Destaque para a o clímax no aeroporto, quando ela toma o microfone da torre de controle e canta a música-título para o amado que está em um avião. Brega? Sem dúvida, mas fazia o antigo Cine Alvorada ser inundado por lágrimas de donas-de –casa em sessões vespertinas patrocinadas por uma marca de sabão em pó.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Woody Alen perde o rumo para Roma

Penelope Cruz, única espanhola entre diversos italianos

Dizem que todos os caminhos levam a Roma, mas esse não foi o caso para Woody Allen. De todos seus recentes filmes-homenagens a cidades europeias (alguns deles, generosamente subsidiados pelas respectivas prefeituras – “Para Roma com Amor” é a pior. E curiosamente, na semana passada, a revista Sight and Sound divulgou sua lista anual de melhores filmes de todos os tempos, ressaltando as escolhas de alguns diretores convidados, Alen entre eles. Os top 10 do novaiorquino são 1º ) Ladrões de Bicicletas (1948, de Vittorio De Sica); 2º) O Sétimo Selo (1957, de Ingmar Bergman); 3º) Cidadão Kane (1941, de Orson Welles); 4º) Amarcord (1973, de Federico Fellini); 5º) 8 1/2 (1963, também de Federico Fellini); 6º) Os Incompreendidos (1959, de Francois Truffaut); 7º) Rashomon (1950, de Akira Kurosawa); 8º) A grande Ilusão (1937, de Jean Renoir); 9º) O Discreto Charme da Burguesia (1972, de Luis Bunuel) e, 10º) Glória Feita de Sangue (1957, de Stanley Kubrick). Como se vê, a lista de Mr. Allen tem três filmes de diretores italianos, contra apenas dois de americanos, dois de autores franceses, um espanhol, um sueco e um japones. Fica, portanto, frisada sua predileção pelo cinema produzido na Itália.
Infelizmente seu filme mais recente não consegue chegar a ser uma homenagem decente a essa cinematografia que ele tanto aprecia. O episódio italiano de “Tudo o que voce sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar” (1972) é um tributo mais adequado do que todo “Para Roma com Amor”. Allen parece ter tentado homenagear uma moda da Itália dos anos 60 – o filme de episódios amarrados por um tema em comum. Alguns resultavam em obras de qualidade, como “Rogopag” (1963), cujo título era formado pelos nomes dos diretores Rosselini, Goddard, Pasolini e Gregoretti; outros eram produtos oportunistas que reuniam realizadores e elenco de prestígio como chamariz do público, como “As Bonecas” (1965).
Allen amarra – frouxamente – seus episódios em torno da Cidade Eterna, mas esta resulta numa Roma para turista, estereotipada, sem alma. O melhor segmento, o do estudante de arquitetura  Jesse Eisenberg sendo seduzido por Ellen Page, como a amiga maluca de sua namorada; é cópia de “Igual a tudo nessa vida”, incluindo o conselheiro vivido por Alec Baldwin, que no outro filme era vivido pelo próprio Allen.
O episódio mais fraco é, de longe, o do casal interiorano, justamente  que remete mais á comédia de costumes clássica italiana. À exceção de Penelope Cruz, os demais atores estão mal dirigidos, talvez por causa da barreira do idioma, desperdiçando um enredo que poderia ser melhor. Destaque para a rápida aparição de Ornella Muti, ex-musa de Marco Ferreri, inesquecível em “Crônica do amor louco” (“Love”, diria o recém-falecido Ben Gazzara, com Ornella debruçada na janela...).
Para finalizar, a idade tirou a graça de Allen como comediante, algo que já dava para notar em “Scoop” (2006), sua aparição anterior como ator, uma pena, já que ele foi um dos grandes do humor verbal americano.  Ao mesmo tempo, Roberto Benigni continua previsível e sem graça.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Gore Vidal (1925-2012)


Gore Vidal, ou Eugene Louis Vidal, falecido ontem aos 86 anos, era um dos meus escritores favoritos. Nem tanto por seu estilo ou particular talento literário, mas por ser um escritor de ideias. Praticamente todos seus romances e novelas carregam suas convicções sobre política, o ser humano, história em geral (grande parte de sua produção são romances históricos) e, principalmente sua amada América. Vindo de uma família da aristocracia ianque: um de seus primos é o ex-vice e candidato a Presidencia derrotado, Al Gore; seu avo, Thomas Gore, foi senador por Oklahoma e aparece em diversos de seus livros como personagem, e sua irmã por afinidade, Jacqueline Bouvier, ficou famosa com o sobrenome Kennedy, depois, Onassis.
Paulo Francis dizia que ele era um tory (apelido dos conservadores ingleses) anarquista. Homossexual assumido (seu primeiro romance de sucesso, The City and the Pillar, uma ode ao amor que – na época - não ousava dizer seu nome, causou escândalo e sensação nos anos 50), tinha horror a manifestações do tipo Parada Gay; frequentador das altas rodas políticas, era feroz crítico do bipartidarismo americano, que dizia ser um partido único com duas alas direitistas. Mas foi acusado de racista, antissemita e outras coisas por conta de suas posições pessoalíssimas. Por exemplo, achava que drogas deviam ser liberadas por dizer respeito à saúde pessoal (se fossem liberadas, o tráfico deixaria de ter sentido)  mas que por um filho no mundo, por conta das consequencias para a comunidade, deveria ser mediado pelo estado, ou pela sociedade. É mole ou quer mais?
Ele acreditava que a civilização judaico-cristão havia destruído o humanismo já existente na Antiguidade, e ele defende essa tese em “Juliano”, romance histórico sobre a vida do imperador romano de mesmo nome, que passou a História como “O Apóstata”, por ter tentado trazer de volta os rituais pagãos, na contramão se seus antecessores, Constantino entre eles. Mas era tarde demais para os mistérios de Elêusis (que Vidal recria com emoção, embora ninguém saiba ao certo como eram os ritos de iniciação), a rica Mitologia Greco-Romana e, principalmente, as seitas concorrentes do Cristianismo, Mitra e Ísis. Em “Criação”, ele leva a ação para o fundamental século V a.C. no qual, no período de uma vida humana co-existiram Zoroastro (ou Zaratustra), Dario (o Grande), Temístocles, Buda, Jina (fundador do jainismo, culto seguido por Gandhi), Lao-Tsé, Confúcio, Péricles, Sócrates, Heródoto e Tucídides, entre outros. O autor faz com que eu protagonista, o persa Ciro Spímata, conheça todos esses personagens, que fundamentam quase todo o saber civilizado de hoje. Ele é um neto de Zoroastro, que cresce na corte de Dario, torna-se amigo de Xerxes, e é enviado em missões à India e depois á China. Ele termina a vida como embaixador da Pérsia em Atenas, algo parecido como ser o representante do Kremlim em Washington. Em suas andanças pelo Mundo Antigo ele conhece o Zoroastrismo, o Budismo, o Jainismo e o Taoísmo, mas se encanta mesmo com Confúcio, o primeiro pensador político. O Confucionismo é menos uma religião e mais uma doutrina de organização social e política, que ora era aplicada, ora erradicada pelos mandatários de plantão no Império do Meio, mas que de certa forma explica a coesão da China desde então, fazendo desse país a mais antiga civilização contínua do mundo.
Em 1967 inicia suas Narrativas do Império (certamente, ele nem sabia que faria uma série tão longo, tanto é que ela foi escrita fora da ordem cronológica), com Washington D.C., que seria o sexto de sete livros da série. Depois dele vieram (pela sequencia de publicação) Burr (1973), 1876 (1976), Lincoln (1984), Império (1987), Hollywood (1990) e A Era de Ouro (2000). A ordem histórica seria Burr (que conta a história de Aaron Burr, veterano das Guerra da Independência, terceiro vice-presidente dos EUA e que ficou famos por matar Alexander Hamilton, um dos líderes da Revolução Americana, num duelo), Lincoln (sobre a Presidência de Abraham Lincoln), 1876 (ano do centenário da Independência, das eleições mais fraudulentas das história e do massacre do General Custer), Império (sobre o nascimento do império americano ultramarino com a guerra contra a Espanha), Hollywood (que trata da entradas dos EUA na I Guerra Mundial e a nascente indústria do cinema), Washington D.C. (que aborda os anos pré-II Guerra Mundial) e A Era e Ouro (que abarca o pós-guerra e o surgimento da superpotência americana).
Apesar de serem em geral livros deliciosos de se ler e muito instrutivos sobre a Matriz do Norte, Paulo Francis, seu maior divulgador no Brasil, considera todos eles literatura de segunda, preferindo suas incursões não-realistas em Myra Beckenbridge (de 1968, que resultou num filme desastroso com Rachel Welch) e Dulluth (1983). Desse estilo também fazem parte Myron (1974, continuação de Myra), Kalki (1978),  Ao vivo do Calvário (1992) e Fundação Smithsonian (1998). Todas satirizam o american way of life com altas doses de sarcasmo e cinismo de quem viveu a Era de Ouro americana, que foi do final da II Guerra até o dèbâcle no Vietnã, como membro da elite, jovem promessa literária e integrante da Camelot de John Fitzgerald Kennedy. O que veio depois foi só o horror.
Seus ensaios discorrem sobre isso. A primeira coletânea deles publicada – e organizada – no Brasil foi De Fato de de Ficção, em que pela primeira vez conhecemos essa face do escritor que até então só conhecíamos como romancista. Entre suas teses polêmicas, estava a de que, após o advento do cinema falado, o roteirista é que passou a ser o verdadeiro autor dos filmes. Para confirmar a tese, ele contava sua experiência em Hollywood, como escritor de Bem-Hur, em que para explicar o ódio de Messala contra o ex-amigo Ben-Hur (supostamente, apenas por este se negar na campanha de romanização da Judéia), ele sugeriu um caso amoroso entre os dois na juventude, tudo nas entrelinhas para não escandalizar a classe média e o protagonista Charlton Heston. O diretor William Wyler acabou topando com a ressalva de que nunca deixasse “Chuck” (Heston) saber disso. Quando vemos o filme sabendo desse contexto, tudo parece muito óbvio, com a cumplicidade do intérprete de Messala, Stephen Boyd, que, como escreve Vidal “sempre que olhava para Ben-Hur, parecia um homem faminto vislumbrando um jantar através de uma vidraça”. Vidal acha que até a morte Heston não se deu conta, mas Pedro de Queiroz refuta, citando a cena do reencontro, em que os olhos dos dois brilham como dois namorados.
O escritor este no Brasil em 1987, a convite da Companhia das Letras, e eu estive na palestra que ele deu no Masp. Uma das piadas era um aviso repentino de que ele acabara de receber a notícia de que a biblioteca do presidente Ronald Reagan tinha pegado fogo. “E ele nem tinha acabado de colorir os dois livros”, emendou rápido. Se Vidal desprezava Reagan, passou a odiar George W. Bush depois do 11 de setembro, acusando-o de usar o pânico gerado pelos atentados de 11 de setembro para jogar a Constituição no lixo. Foi uma voz solitária em meio aos discursos patrióticos em toda a mídia, que o jogou no ostracismo. Onze anos depois, quem estava certo afinal de contas?

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Os “ensinamentos” de Steve Jobs


Se em vida, Steve Jobs foi uma lenda da inovação tecnológica, após a morte virou uma espécie de divindade da área da administração e gestão. Basta ir a qualquer livraria que podem ser encontrados incontáveis volumes que usam seu nome em vão, mas não se engane: o único indispensável é a biografia – quase oficial – de Walter Issacson, que saiu logo após a morte do CEO da Apple. É quase oficial porque, embora encomendada pelo próprio Jobs (que com seu aval permitiu ao escritor acesso a pessoas que dificilmente concederiam entrevista), o biografado não aprovou nem leu o resultado final, para que o livro fosse o mais isento possível. Isso é extraordinário para alguém sabidamente controlador, mas pode ser compreendido quando conhecemos o drama vivido por ele a partir do diagnóstico de câncer.
Para quem se sentir atraído por algumas das opções de leitura mais baratas, um alerta: não existe lição em administração a ser aprendida com Steve Jobs, a não ser negativa. Seu sucesso é resultado de inteligência e personalidade únicas, dentro de um contexto histórico específico.
Antes dos 30 anos, Steve Jobs já era uma lenda do Vale do Silício, graças à revolução do Apple II, que praticamente criou o mercado de computadores pessoais, algo restrito a nerds (geeks) mas que hoje é um eletrodoméstico tão difundido quanto a máquina de lavar roupas. O Macintosh inovou com a interface gráfica e o mouse, conceitos vencedores, mas foi superado pela Microsoft em marketing e devido a diversas falhas do projeto, como a falta de memória, que obrigava o usuário a gravar seus trabalhos em disquetes. Fora da empresa, comprou a divisão de animação digital da Lucas Film para transformá-la na Pixar. Em seu segundo turno como CEO da Apple, primeiro salvou a empresa da falência lançando o Power Mac e iMac, e depois revolucionou a indústria da música com o i-Pod, depois a telefonia móvel com o i-Phone, e finalmente lançar o que pode ser a pá de cal na mídia impressa com o i-Pad (Isso merece um post à parte).
A espetacular saída de Jobs da empresa que criou junto com o amigo e geek supremo Steve Wozniak, pelas mãos de John Sculley, o executivo que lutou para tirar da Pepsi para comandar a Apple (“Você quer passar o resto da vida vendendo água adocicada ou quer uma chance de mudar o mundo?”, foi o lendário desafio lançado por Jobs a Sculley) é contada em todas as etapas e com depoimentos dos principais envolvidos.  Issacson, embora fã do seu biografado, não esconde seu péssimo gênio (destratava subordinados constantemente), sua falta de consideração com as pessoas (demorou anos para reconhecer sua primeira filha) e mesmo sua falta de escrúpulos (conspirava constantemente contra colegas). O que não o coloca em pé de igualdade entre os capitalistas inovadores.
Thomas Alva Edison foi um gênio inquestionável no ramo das invenções, mas foi um empresário ganancioso e inescrupuloso. Ao perder para Nicola Tesla na questão corrente contínua (Edison) x corrente alternada (Tesla), passou a perseguir o adversário até levá-lo à ruína. Hollywood surgiu graças a Edison por que ele detinha a patente do kinetoscópio, que embora muito diferente do cinematógafo dos Lumière, lhe permitia cobrar royalties da indústria começava a engatinhar nos EUA. Por isso, os primeiros produtores resolveram fugir para a ensolarada Califórnia, onde, além de não ter de pagar para Edison, podiam filmar o ano todo. Henry Ford, o inventor da linha de produção que tornou o automóvel um produto popular, além de ser implacável com grevistas (mandava seus seguranças particulares mandar bala nos piquetes, sob olhar complacente das autoridades constituídas) era anti-semita militante, que nutria simpatia por Adolf Hitler. Ambos deixaram empresas que sobrevivem até hoje, a General Eletric e a Ford Motors. Essa era uma das ambições de Steve Jobs; deixar um legado, uma companhia que sobrevivesse a ele, não importando os corpos que fossem deixados pelo caminho.