sexta-feira, 13 de junho de 2014

Brasil 3 x Croácia 1

Fred e sua atuação digna de um Oscar
Os croatas se desesperaram com o pênalti "achado" pelo juiz japonês Yuichi Nishimura, e com razão. Mas o importante - para nós - foi o desempenho geral da seleção. Eu, que vejo Copas desde 1970, nem me abalei muito com o gol contra acidental de Marcelo, muito mais culpa de Daniel Alves do que dele. O Brasil jogava bem e não se desesperou com a desvantagem inicial, que felizmente acontece bem cedo, com muito jogo pela frente. O empate com Neymar - que decididamente assumiu o protagonismo - saiu naturalmente e se o segundo tempo estava enrolado, o máximo que o adversário conseguiria sem aquele pênalti seria um empate. Na única jogada que participou em toda a partida, Fred fez um teatro e o japonês entrou na dele. Neymar, que não tinha nada a ver com isso, bateu e desempatou, mas o goleiro croata ajudou com uma "mão de alface".
O terceiro gol de Oscar coroou seu desempenho pessoal, um dos melhores em campo, fazendo com que o lobby de William na imprensa agora mire no lugar de Hulk para seu eleito.

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Um rápido histórico das primeiras partidas do Brasil em Copas mostra que, apesar do "apito amigo" esta foi uma das melhores e mais tranquilas estreias da seleção, e contra um adversário duríssimo, desde já, favorito à segunda vaga no grupo.
Em 1930, no Uruguai, um escrete meia-boca, sem jogadores paulistas por conta de uma briga entre federações, foi derrotada por 2 a 1 pela Iugoslávia, ironicamente, o país da quela a Croácia fazia parte até 1992.
Quatro anos depois, em 1934, na Itália de Mussolini, nova derrota na estréia, desta vez para a Espanha de Ricardo Zamora, então o melhor goleiro do mundo, por 3 a 1. O lendário goalkeeper pegou um pênalti sofrido e batido por Waldemar de Brito, o futuro descobridor de Pelé, mas houve também um apito amigo, desta vez a favor dos ibéricos. Um foto publicada pela imprensa no dia seguinte do jogo mostrava o zagueiro Quionces agachado na linha do gol e evitando o gol de empate brasileiro, aos 20 minutos do primeiro tempo. Mas se o juiz não viu, os brasileiros também só viram no jornal. Também essa foi a última vez que o Brasil começou um Copa perdendo.
Em 1938, na França, a seleção finalmente reunia os melhores jogadores, com destaque para Leônidas da Silva, que já estava no escrete em 1934. A estreia foi contra a Polônia, batida por 6 a 5, com direito a prorrogação, porque naquele torneio os jogos eram eliminatórios desde o começo. Leônidas fez tres gols, Perácio dois, mas Willimowski marcou quatro, tornando-se o jogador que mais marcou contra o Brasil em uma só partida. Até hoje.
Em 1950, no Brasil e na inauguração de um estádio - o Maracanã, então mais incompleto que o Itaquerão - a seleção de Ademir de Meneses goleou o México por 4 a 0. Aliás, se os mexicanos andaram aprontando contra os brasileiros em torneios como a Copa América e Jogos Olímpicos, em Copas do Mundo nunca deram muito trabalho.
No encontro seguinte, em 1954 na Suiça, em outra estreia, o placar foi 5 a o a favor do Brasil. Em 58, Suécia, no primeiro título mundial do Brasil, a estreia foi contra a Áustria, batida por 3 a 0. No bi em 62, no Chile, a vítima na estreia foi, de novo, o México, que só levou de 2 a 0 porque Carbajal fechou o gol.
Em 1966, na Inglaterra, em que pese a tragédia que se seguiria, a estreia foi boa, com 2 a 0 sobre a Bulgária, no último jogo que reuniria Pelé e Garrincha.
A estreia em 1970, no México, foi a primeira que vi, e anunciava a trajetória daquela seleção brasileira. Os 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia revelava ao mundo Jairzinho e mostrava que Pelé ainda estava longe de acabar.
A Copa de 1974, na Alemanha, ainda Ocidental, foi o início do longo jejum verdeamarelo, e o empate de 0 a 0 contra a Iugoslávia já anunciava isso. Só não perdemos porque Lis Pereira tirou uma bola em cima da linha. Foi a primeira Copa vista em cores no Brasil.
Em 1978, na Argentina, novo empate, de 1 a 1, agora contra a Suécia. O jogo ficou famoso por causa do gol de Zico após um tiro de canto, anulado pelo árbitro, que alegou ter apitado o fim do jogo com a bola no ar. Então porque permitiu a cobrança do escanteio?
A Copa na Espanha, em 1982, foi marcada por aquela que muitos consideram a melhor seleção brasileira de todos os tempos, o que é uma rematada besteira. tanto é que a estreia contra a União Soviética teve frango de Valdir Peres, dois pênaltis não marcados cometidos pelo "classudo" zagueiro Luizinho, mas os apologistas de Telê Santana só lembram dos golaços de fora da área marcados por Sócrates e Éder. As mesmas deficiências seriam decisivas mais adiante, no que passamos a chamar de "Tragédia de Sarriá".
Segue-se a maior sequencia de vitórias em estreias de Copa de uma seleção em todos os tempos. E também de "apitos amigos". Em 86, no México, vitória e 1 a 0 contra a Espanha, com chute de Michel em bola que bateu no travessão e entrou, mas não foi visto pelo juiz australiano.
Em 1990, na Itália, vitória de 2 a 1 contra a Suécia, num jogo sem graça, como era o time de Lazzaroni. Em 1994, nos EUA, vitória por 2 a 0 contra Camarões, adversário de mais adiante, com Romário apresentando seu cartão de visitas e Raí marcando em pênalti, na única coisa útil que ele faria naquela competição.
Em 1998, na França, jogo difícil contra a Escócia, 2 a 1, com gols de Cesar Sampaio, que depois acabou fazendo penalti convertido por Collins e gol contra de Boyd após jogada de Cafu, na estreia de Ronaldo em Copas, já que ele não entrou em campo nos Estados Unidos. Como se vê, Neymar se saiu bem melhor.
No primeiro jogo do penta, em 2002 na Coréia do Sul, polêmica vitória por 2 a 1 contra a Turquia, com aquele pênalti cavado por Luizão, que foi agarrado na meia-lua mas arrastu o zagueiro adversário até dentro da área, onde caiu e enganou o árbitro coreano. Os turcos ficaram tão furiosos quanto os croatas este ano, mas o os assustou mesmo foi a entrada de Denilson aos 22 minutos de segundo tempo, que infernizou tanto sua defesa que quando as duas seleções se reencontraram na semifinal, resultou no que seria a imagem do Mundial, com quatro turcos perseguindo o atacante até a linha lateral.
Em 2006, na Alemanha, a estreia também adiantou o que se veria nos jogos posteriores. O magro 1 a 0 contra a mesma Croácia, com Ronaldo e Adriano fora de forma, Ronaldinho esbanjando passes errados, teve em Kaká a salvação, em chuta da entrada da área. O goleiro era o mesmo Pletikosa, que ontem levou dois gols da entrada da área.
Na última Copa, na África do Sul, em 2010, outra vitória difícil contra um adversário quase inexpressivo, a Coréia do Norte, muito distante do escrete que surpreendeu o mundo em 1966. Foi 2 a 1, com gols brasileiros de Elano e Maicon, ou seja, o ataque não funcionou.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

70 anos do Dia D

A efeméride de hoje reúne três das minhas paixões: Cinema, História e, especificamente, a II Guerra Mundial. O Dia D, ou Dia do Desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944 é a mais famosa operação aliada na última grande guerra e vendida pelos americanos via Hollywood como a batalha decisiva do conflito. Na realidade, a luta contra o nazismo já havia sido decidida  em Stalingrado e Kursk, no ano anterior, quando as melhores e mais experientes tropas de infantaria e Panzer alemãs foram destroçadas pelo Exército Vermelho. Dali em diante, a guerra para a Wermacht na Frente Russa seria uma grande retirada.

Desde que os americanos entraram em combate, Stalin vinha cobrando uma frente ocidental, já que a URSS arcou com a maior parte da resistência aos alemães a partir da Operação Barbarossa. John Lukacs defende a fascinante teoria de que um dos motivos cruciais para que Hitler invadisse a União Soviética era fazer com que Churchill se rendesse antes que os Roosevelt entrasse na guerra. A posição da Grã-Bretanha era, de fato, estratégica: sem uma Marinha capaz de realizar uma invasão por mar, coube à Luftwaffe tentar por os ingleses de joelhos, o que não funcionou, e até pelo contrário, fazendo Goering perder aviões e pilotos insubstituíveis. O oposto também era verdade: sem as ilhas britânicas, os americanos pouco poderiam fazer na Europa, apenas incomodar em frentes secundárias como o Norte da África, a Itália e os Bálcãs. Como nas diversas guerras europeias anteriores, a França seria o grande campo de batalha ocidental.

Se Hitler não tinha os meios materiais para atravessar o Canal da Mancha numa operação anfíbia, o mesmo não acontecia com os Estados Unidos e seu gigantesco parque industrial fora do alcance do inimigo. A Batalha do Atlântico havia terminado na prática em 1943, quando os U-Boat alemães foram praticamente erradicados das rotas de suprimentos. Em 1944, somente o clima e Erwin Rommell, a Raposa do Deserto que se tornou comandante da defesa da costa francesa. Este achava corretamente que era imprescindível impedir o estabelecimento de cabeças de ponte nas praias, enquanto outros generais achavam que se deveria permitir o desembarque para massacrar o inimigo - que ataca com infantaria leve e poucos blindados - em contra ataques com divisões Panzer. Obviamente eles subestimavam a capacidade de mobilização de recursos dos americanos.

O que aconteceria se o Dia D fracassasse, uma possibilidade concreta, apesar da enorme superioridade aérea e naval aliada? Possivelmente a guerra se estenderia por mais alguns meses, mas o que é mais importante é que provavelmente toda a Alemanha e a Aústria se tornariam território ocupado pelos soviéticos. A inevitável Guerra Fria que se seguiu partiria de uma posição muito mais vantajosa para os russos, e talvez não houvesse nem espaço para o surgimento da Otan. Nesse caso, mesmo não tendo sido o turning point do conflito como fomos acostumados a acreditar, o Desembarque na Normandia continua tendo uma importância capital para o mundo que conhecemos hoje. A Europa e o Ocidente em geral devem reverenciar a data e seus heróis, especialmente os que desembarcaram nas praias sob fogo de metralhadoras e obuses.

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Os Filmes
Duas produções cinematográficas são fundamentais para lembrar o Dia D: "O mais longo dos dias", de 1962; e "O Resgate do Soldado Ryan", de 1998. O primeiro inaugurou o gênero "Grandes operações", que abordavam as grande batalhas da II Guerra com um elenco de astros e fragmentando a ação em cenas menores, como "Uma Batalha no Inferno" (Batalha do Bastogne), "Tora, Tora, Tora" (Pearl Harbor), "Midway" e "Uma Ponte Longe Demais" (Operação Market-Garden). Entre as estrelas que lutaram na Normandia de Hollywood estavam John Wayne, Henry Fonda, Ricchar Burton, Robert Mitchum e um Sean Connery antes de James Bond.
O segundo, que deu o segundo oscar a steven Spielberg,  tem como cenário a praia de Omaha, o desembarque mais sangrento, apenas nos primeiros minutos - mas que minutos! Deve ser a sequencia de batalha mais emocionante e estressante já filmada, especialmente para quem teve a chance de assistir no cinema, como eu. O resto nem é tão bom assim, mas aquele começo é sensacional.
Fora da telona, existe a minissérie "Band of Brothers", da HBO, que conta a trajetória da Easy Company, que fazia parte da 101a Divisão Aerotransportada. Eles pegaram as maiores pedreiras que os americanos enfrentaram na Europa - Dia D, Operação Market Garden e Batalha do Bulge - e obtiveram o grande premio de ocupar o Ninho da Águia, o Quarte-Geneal de Hitler nos Alpes.
Ficaram tão famosos que o nome Easy Company - Companhia Moleza - deu o nome à tropa do Sargento Rock, um dos grandes soldados dos quadrinhos.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Jornalistas no cinema

Aproveito o Dia do Jornalista, hoje, uma segunda-feira, para listar meus filmes favoritos que tem colegas como protagonistas. O primeiro é fácil, "A Primeira Página" (1974), de Billy Wilder, a enésima adaptação da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur, mas valorizada pelo cinismo do diretor e pelo elenco com a dupla Walter Matthau & Jack Lemmon, e uma muito jovem Susan Sarandon. Trata-se da cobertura da execução de um pobre coitado acusado de assassinar um policial, que acaba tendo uma reviravolta com o surgimento de provas que o inocentam. Mathau é o editor que faz com que seu melhor repórter, Lemmon, desista de abandonar o jornalismo por um emprego estável e o casamento com a rica e bela Sarandon

Em segundo lugar, do mesmo Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (1951), com Kirk Douglas como um ambicioso repórter que vai parar num lugarejo e transforma um acidente num circo por meio do qual pretende voltar á ribalta da profissão. O recente "Quarto Poder (1997), de Costa Gravas, é quase um remake deste, como Dustin Hoffman no papel do jornalista inescrupuloso e John Travolta como um zelador que faz um grupo e estudantes reféns para ter de volta seu emprego.Aqui já estamos na era da TV e da notícia convertida em entretenimento, mesmo tema de outro grande filme, "Rede de Intrigas" (1976), de Sidney Lumet, em que Pete Finch é um âncora em vias de ser demitido que tem um ataque de nervos no ar, ameaçando se matar. Ao invés de perder o emprego, ele vira a principal atração da emissora, disparando verdades inconvenientes que o público adora. Numa ironia do destino, Finch ganhou o Oscar de melhor Ator, mas póstumo.

"Todos os homens do presidente" (1976), de Alan J. Pakula, tem a vantagem de ser baseada naquela que pode ter sido a mais importante reportagem do século XX, já que derrubou o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, Richard Nixon. Dustin Hoffmann e Robert Redford interpretam Carl Bernstein e Bob Woodard, repórteres do Washington Post que colocaram o prédio Watergate nos livros de história.

Difícil limitar "Cidadão Kane" (1941) ao tema jornalismo, mas o roteiro de Herman J Mankiewicz e Orson Welles é preciso quando mostra a transformação do jornalismo em meados do século passado, e o poder que os magnatas da imprensa teriam com essa modernização, como William Randolph Hearst - o modelo do filme - Assis Chateaubriand e Roberto Marinho em terras tupiniquins.

"O Jornal" (1994), de Ron Howard, não é tão bom quanto os acima citados, mas traz um problema importante para o jornalismo: o processo industrial da mídia impressa versus o compromisso jornalístico. O velho bordão "Parem as máquinas!" já não existe há décadas, pressionado pelas demandas trabalhistas, de distribuição e logística da imprensa. É nesse campo que se dá o embate entre o editor-chefe Michael Keaton e a diretora industrial Glenn Close, ambos jornalistas, que que entram em conflito por conta de uma notícia e última hora que pode salvar uma vida, mas comprometer todo o cronograma do jornal.

E você, jornalista e/ou cinéfilo, tem algum outro preferido sobre essa mais do que carreira ou profissão, mas uma vocação de vida?


terça-feira, 1 de abril de 2014

Há meio século...

Marcos Kimura

Escrevo e publico este texto hoje, 1º de abril, por que essa é a data correta do golpe contra João Goulart há 50 anos. 31 de março se tornou o dia oficial da “Revolução” por que os militares não queriam que sua quartelada fosse comemorada no Dia da Mentira – ou dos Tolos, segundo os americanos. Ou seja, a história oficial ainda se dobra à manipulação dos generais quase 30 anos depois da redemocratização do Brasil.

Mais do que rememorar o início de um dos períodos mais negros da história do País, a efeméride deveria servir para olharmos para o presente de olho nas semelhanças com o cenário de meio século atrás. Está havendo um recrudescimento do moralismo ( “mulher com roupa curta está pedindo para ser atacada”), da intolerância e até mesmo do saudosismo da caserna, como atesta a ridícula – porém, significativa – tentativa de reeditar a Marcha com Deus e a Família. De certa forma, tudo isso é devidamente alimentado por uma imprensa decadente que vê na manipulação da informação como forma de voltar a ser relevante como foi na época das Diretas Já e na deposição de Fernando Collor.

Curiosamente, quando o povo foi às ruas no ano passado, jornais, revistas e TVs foram apanhados de surpresa, e por conta dos recentes cortes de pessoal feito nas redações por conta da crise das mídias tradicionais, restou pouca gente com experiência para fazer uma cobertura decente dos acontecimentos. Praticamente toda a mobilização foi feita por meio das redes sociais, que andaram se transformando em palanques, fontes de informação (falsas e verdadeiras) e manifestações on line, que muitas vezes se veem frustradas na vida real (nas urnas, especialmente) levando a muitos desses militantes de sofá a culpar o povo “ignorante” por não sabe votar. Por outro lado, houve quem tirou a bunda da cadeira e partiu para a mobilização de verdade, seja à esquerda ou à direita. Ainda é cedo para enxergar algum reflexo nas eleições que se aproximam.

Pior de tudo é a volta da paranoia anticomunista, que acusa este governo de querer transformar o Brasil num gigantesca Cuba ou Venezuela. O anticomunismo é o tradicional catalisador de golpes e tentativas de na América Latina, e mesmo sendo um anacronismo, a volta insistente desse discurso nos últimos meses não deixa de ser preocupante.

O que alivia é ver os quartéis em silêncio, sem qualquer tentativa de usar a data politicamente para confrontar o atual regime democrático. Claro que o cenário mundial é outro, mas à parte a Guerra Fria no auge no início dos anos 60 (pouco tempo depois da Crise dos Mísseis de Cuba) o golpe brasileiro tinha começado a ser gestado em 1922, no Tenentismo. A partir do episódio do Forte de Copacabana, em que 18 militares e civis enfrentaram as tropas fiéis a Artur Bernardes, grande parte da oficialidade passou a acreditar na missão redentora das Forças Armadas de salvar o País das mãos os oligarcas da política do Café com Leite. A participação na Revolução de 30 foi frustrada pelas artimanhas de Getúlio Vargas para permanecer no poder, e após 15 anos, derrubaram o ditador para garantir uma eleição em que dois militares concorriam.

O retorno de Vargas, desta vez eleito diretamente, fez os quartéis ficarem em polvorosa e tribunos como Carlos Lacerda, secundados por grande parte da imprensa, pregavam o golpe descaradamente. Getúlio conseguiu reverter a situação e forma extrema, suicidando-se adiando em 10 anos a quartelada anunciada.
Quando ela aconteceu, Lacerda, Adhemar de Barros e outros líderes acharam que, exilando o legado getulista juntamente com o governo João Goulart, finalmente havia chegado a vez deles. Só que desta feita, os militares estavam dispostos a exercer  o poder sem a interferência de políticos carismáticos, e cassaram os direitos políticos dos aspirantes ás eleições de 1965, que nunca aconteceu.

Segundo Elio Gaspari em sua importante obra “As Ditaduras”, defende que o regime militar implodiu por conta da insubordinação da Linha Dura, responsável pelo aparato repressivo que, quando não havia mais militantes da lutar armada para prender, torturar e matar, passou a caçar qualquer opositor.  Ernesto Geisel e seu “bruxo”, Golbery do Couto e Silva, articularam então a abertura lenta, gradual e progressiva, exonerando o generais mais extremistas e concedendo a anistia parcial.

Mesmo passado todo esse tempo depois da tropa ter se recolhido à caserna, parece haver um acordo silencioso entre as Forças Armadas e os sucessivos governos democrático para que os militares não se manifestem sobre assuntos políticos, em troca de não se investigar os diversos episódios obscuros da ditadura militar. A atual Comissão da Verdade começa a arranhar a superfície dos mistérios do período, como a possível assassinato de Juscelino Kubistchek e o desparecimento de Rubens Paiva. Mesmo assim, os responsáveis vivos permanecem impunes, muitos sob o manto de uma Lei de Anistia concedida por seus pares, o que vai na contramão dos vizinhos do Cone Sul, cujos militares também haviam deixado garantias de impunidade no aparato legal, devidamente derrubadas pela democracia. Como é que se supõe que o Brasil siga em frente como país civilizado enquanto os crimes da ditadura permanecerem impunes e fatos históricos como a morte de João Goulart no exílio ou o atentado do Rio-Centro continuarem sem solução?


Meio século depois do 1º de abril de 1964, ele permanece um corpo insepulto na sala de estar da democracia. É um cadáver em decomposição a céu aberto.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cineclube exibe "O Sonho de Wajda" hoje

O Cineclube Indaiatuba exibe hoje, às 19h50, o filme "O Sonho de Wajda", da diretora Haifaa al Mansour, no Multiplex Topázio do Shopping Jaraguá. O ingresso único é R$ 6,00 e após a projeção haverá bate-papo com a platéia coordenado por este blogueiro-cinéfilo. O filme foi premiado em festivais como Veneza, Roterdã e Abu Dhabi no ano passado e foi o primeiro inteiramente rodado na Arábia Saudita.
Wadja é uma menina de 12 anos que mora no subúrbio de Riad, capital da Arábia Saudita. Embora ela viva em uma cultura conservadora, Wadjda é uma garota cheia de vida, que usa calça jeans, tênis, escuta rock’n roll e deseja apenas uma coisa: comprar uma bicicleta para poder disputar uma corrida com seu melhor amigo Abdallah. Mas em uma sociedade que diz que as bicicletas são apenas para os meninos porque podem ser perigosas para a virtude das meninas, ela enfrentará muitas dificuldades para realizar seu sonho.
Confira abaixo uma reportagem sobre a produção, narrada em português lusitano.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Blue Jasmine: mais um triunfo de Woody Allen

Luiz Carlos Merten, d'O Estadão, um crítico e cinema que respeito (não são tantos assim) acha "Blue Jasmine" o melhor Woody Allen desta nova fase que se iniciou com "Match Point". Este filme de 2005 era inspirado em "Uma História Americana", de Theodore Dreyser, e na adaptação cinematográfica desse romance por George Stevens, chamada "Um Lugar ao Sol". Novamente o cineasta novaiorquino parte de um clássico americano, "Um Bonde Chamado Desejo", de Tenessee Williams, e da versão para o cinema feita por Elia Kazan, que transformou Marlon Brando em astro e deu o segundo Oscar a Vivien Leigh.

Cate Blanchett é Jasmine, socialite falida de Nova York que vai morar em Los Angeles com Ginger, a irmã pobre, para desgosto de Chili (Bob Carnevale), namorado desta que esperava morar com ela. Como a Blanche Dubois de Williams, Jasmine e acha o futuro cunhado um bronco. Por maio de flash backs, descobrimos que o falecido marido da ex-ricaça, Hal (Alec Baldwin) era um financista escroque que foi preso após roubar milhares de investidores, como a própria Ginger e o ex-marido dela, Augie (Andrew Dice Clay).  Desesperada para recuperar sua antiga vida, ela consegue seduzir o diplomata e aspirante a político Dwight (Peter Saasgard).

Com habilidade, e com a ajuda de um elenco bem escalado - em que Cate se destaca - , Allen escapa das armadilhas do óbvio e constrói um trama sólida em torno da protagonista. Com outro diretor e atriz, Jasmine seria uma socialite quebrada de caricatura, mas com Allen e Cate, a personagem e suas neuroses ganham uma tridimensionalidade rara mesmo na obra do cineasta.

Acho que Cate Blanchett, que já tem uma estatueta de Atriz Coadjuvante por "O Aviador", é candidatíssima ao Oscar no ano que vem. Woody Allen é especialista em obter o prêmio da Academia a seus atores. Que o digam Diane Keaton ("Annie Hall"), Diane West ("Hannah e suas irmãs" e "Tiros na Broadway"), Michael Caine ("Hannah e suas irmãs"), Mira Sorvino ("Poderosa Afrodite") e Penélope Cruz ("Vicky Cristina Bascelona"). 

Se por acaso os velhinho da Academia preferirem Sandra Bullock em "Gravidade" é o caso de internar todo mundo no asilo mais próximo.

Em cartaz em Indaiatuba no Multiplex Topázio do Shopping Jaraguá, provavelmente só até amanhã. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

As heroínas mais mortais (fodásticas) do cinema

Assisti "Kickass 2" e mais um show da Chloe Grace Moritz como a Hitgirl. Eu diria que ela encarava a Noiva da Uma Thurman em "Kill Bill" de igual para igual. E nesta sexta, ela assume "Carrie, a estranha", papel que tornou Sissy Spacek uma estrela. Inspirado nessas moças que não levam desaforo para a casa, resolvi voltar com minhas listas de cinema (veja aqui, aqui e aqui) com As Mulheres mais mortais do cinema. Vamos a elas.


1 - A Noiva, ou Beatrix Kiddo, de "Kill Bill" (Uma Thurman, 2003/2004)). A personagem criada por Quentin Tarantino e por sua musa Uma Thurman surgiu na verdade de uma história de "Pulp Fiction". Nesse filme, Uma é a mulher de um traficante, ex-aspirante a atriz que chegou a estrelar um piloto de um seriado sobre uma equipe de espiãs, em que cada integrante era especialista em uma forma de matar. Na primeira parte, Beatrix Kiddo (nome verdadeiro da personagem, que também é conhecida como Black Mamba), massacra uma quadrilha de yakuzás num festival de sangue digno dos melhores "chambara" (como eram conhecidos os filmes de samurais), culminando no belíssimo duelo contra O-Ren Ishii (Luci Liu, a melhor vilã do díptico). No segundo, Tarantino homenageia os filmes de kung fu, destacando o cruel aprendizado com o mestre Pai-Mei (Gordon Liu) que não apenas ajuda a heroína escapar do caixão onde foi enterrada viva como também lhe dá a arma para matar Bill (Keith Carradine), que é a razão de ser do filme desde o título. The Bride rules!


Hit Girl: de ninja infantil a ninfeta fatal
2 - Hit Girl, ou Mindy Macread, de "Kickass" (Chloe Grace Moritz, 2010/2013). A garotinha enfezada do primeiro filme deu lugar a uma ninfeta capaz de usas suas habilidades ninja tanto para combater o crime como sobreviver ao sistema de castas do high school, o maior trauma da vida dos americanos em geral. Chloe Grace Moritz foi revelada nesse papel, que a credenciou para grandes produções como "A Invenção de Hugo Cabret", "Deixe-me entrar", "Sombras da Noite" e para o vestibular para o estrelato na próxima versão de "Carrie". Lembrando que, se a personagem de Stephen King colocou Sissy Spacek no mapa, fez Emily Bergl despontar para o anonimato em "A Maldição de Carrie". Boa sorte, Chloe.


Angelina Jolie no auge da boa forma como Lara Croft
2 - Lara Croft em "Lara Croft: Tomb Rider" (Angelina Jolie, 2001). Tudo fazia crer que as mulheres iriam quebrar o monopólio masculino de action heros estelares de Hollywood. Um ano antes, Cameron Diaz, Drew Barrymore e Luci Liu haviam emplacado "As Panteras" exibindo charme, adrenalina e humor como as detetives comandadas pelo misterioso Charlie. Angelina então encarnou a heroína dos videogames com propriedade e credibilidade com ótima atuação física e todas as caras e bocas (e que boca!) a que tinha direito. Mas, então, o que aconteceu? Duas sequencias meia-boca (por isso estou ignorando "A Origem da Vida") se seguiram, enterraram as duas franquias e o que parecia ser o nascimento de um novo subgênero. Angelina ainda tentou em "Capitão Sky e o Mundo do Amanhã" - praticamente uma ponta - ; "Senhor e Senhora Smith" - mas dividindo a cena com o futuro marido - ; "O Procurado" - como ama seca do protagonista James MacAvoy - e "Salt" - um voo solo mal-sucedido, que ela vai tentar ressuscitar numa sequencia.


Viúva Negra invadindo o QG do vilão de Homem de Ferro 2
3 - Viúva Negra, ou Natasha Romanova, em "Homem de Ferro 2" e "Os Vingadores" (Scarlett Johansson, 2010/2012). Não muito maior que a Hit Girl em 2010 (na verdade, Chloe Nicole Moritz é até mais alta que ela atualmente), ninguém diria que Scarlett Johansson teria physique du role para uma super-heroína. Mas ela surpreendeu todo mundo nocauteando um pelotão de capangas em "Homem de Ferro 2" e encarando, nada mais, nada menos, que o Hulk em "Os Vingadores". Graças a Bourne (e ao MMA), não parece tão irreal que uma garota de 1,60 m de conta de caras muito maiores. E Scarlett sempre parece perigosa. 


Milla Jovovich armada até os dentes para combater os zumbis
4 - Alice da franquia "Resident Evil" (Milla Jovovich, 2002 a 2012). Em termos de longevidade, não há dúvida que esta é a heroína de ação mais bem sucedida. Cinco longas lançados mais um anunciado para o ano que vem colocariam a Alice de Milla Jovovich no topo da categoria. Colocaria, porque a franquia originada de um videogame não tem qualquer preocupação com coerência, mesmo para um tipo de filme  que não leva esse tipo de coisa muito em consideração. No começo ela era uma garota no lugar e hora erradas, depois, cobaia da grande corporação que destruiu o mundo, mais à frente, um ser superpoderoso que lidera uma legião de clones, aí ela perde os poderes e os clones... Na verdade, seria possível prosseguir a franquia com outros personagens dos games (Jill Valentine, a heroína original, virou figurante no cinema), mas Milla é casada com o diretor - e depois produtor executivo - da série, Paul W.S. Anderson. É um porto seguro para a atriz, cuja carreira começou ainda na puberdade no sexploitation "De volta á Lagoa Azul", decolou em "O Quinto Elemento" (com outro diretor-marido, Luc Besson) e se estabilizou no emprego fixo de "Resident Evil". Até trabalhos fora da franquia se parecem com este, como "Ultravioleta".


5 - Nikita, de "Nikita - Criada para matar" (Annie Paurillaud, 1990). A personagem criada por Luc Besson já foi vivida por quatro atrizes - Anne Paurilaud e Bridget Fonda no cinema; Peta Wilson e Maggie Q na TV - mas é a francesa Anne que causou impacto no longa original. O papel da junkie condenada à morte por causa de um assalto que termina em mortes e recrutada por uma agência governamental para ser a assassina perfeita  lhe deu o Cesar, o Oscar francês, Ela fez aulas de judo por três meses antes das filmagens e superou a aversão por armas de fogo, dizendo que parecia que um demônio tomava conta dela ao encarnar Nikita no set. Uma revolução em termos de papéis femininos no cinema.

6 - Mulher-Gato, ou Selina Kyle, de "Batman -  Cavaleiro das Trevas Ressurge" (Anne Hathaway, 2012). Anne Hathaway vai se lembrar de 2012 muito provavelmente por causa de seu Oscar de Atriz Coadjuvante por "Les Miserables". Mas para milhões de nerds, ela será a atriz que resgatou a Mulher-Gato da hecatombe que foi o longa estrelado por Halle Berry. Com sua cara de princesa (não é à toa que seu primeiro filme foi "Diário da Princesa") e corpo muito mais para Julie Newmar que para Michelle Pfeiffer, ela remete à Selina Kyle esboçada por Frank Miller em "Batman: Ano Um" (A "namorada" foi sugerida, mas a prostituição foi totalmente eliminada), mas se integra a visão dos irmãos Nolan de Gotham City e Batman. Após as duas Rachel Dawes dos filmes anteriores muito sem graça, Anne Hathaway surge como interesse um romântico convincente a um amargo Bruce Wayne. Para concorrer com ela, tinham mesmo que escalar alguém do nível de Marion Cotillard,a grande surpresa de "O Cavaleiro das Trevas Ressurge".


Jennifer Garner com suas adagas Sai em "Demolidor"
6 - Elektra de "Demolidor, o Home sem Medo" (Jennifer Garner, 2003). À exceção do prólogo, que parece tirado das páginas de Frank Miller, o filme-solo da ninja não merece menção. Mas no detestado filme do Homem sem Medo e principal razão por todos temerem a escalação de Ben Affleck com novo Batman, a Elektra de Jennifer Garner é um das poucas coisas boas. Vindo do seriado "Alias", onde sobravam cenas de ação, ela mostra muito melhor forma nas lutas que o protagonista e futuro marido. A sequencia de sua luta com o Mercenário (melhor papel mainstream de Colin Farrell) é ipsis literis a que foi desenhada pelo mestre Miller. Então, como não gostar? Pena que a chance da personagem decolar foi abortada - novamente - num segundo filme.


7 - Selene da série "Anjos da Noite" (Kate Beckinsale, 2003 a 2012). Kate Beckinsale, uma das atrizes mais bonitas de Hollywood (não que as citadas acima não o sejam, muito pelo contrário), começou sua carreira cinematográfica - quem diria - com Shakespeare. Foi em "Muito Barulho por Nada" adaptação da comédia do Bardo por Kenneth Branagh. Dez anos depois ela vestiria a capa da vampira que se apaixona por um inimigo milenar, um lobisomem. Praticamente um Romeu e Julieta dos personagens de terror. Curiosamente, a situação de "Resident Evil" se repete: a estrela e o diretor - depois produtor - se apaixonaram durante as filmagens e se casaram.






A vampira sexy Kate Beckinsale





Dream team de mulheres bonitas e duronas num filme de 2a divisão
9 - As garotas de D.O.A. (Jaime Pressly, Holly Valance, Devon Aoki, Sarah Carter e Natassia Malthe, 2006). A produção de baixo orçamento tinha tudo para ser um sucesso entre os adolescentes: tinha belas garotas de biquini lutando entre si e dando porrada em marmanjos e era baseado em um videogame de sucesso. Por que não deu certo? Faltou cinema. As boas cenas de ação não se conectam, os personagens são muito bobos e as interpretações canastronicas até para seu público-alvo. No elenco, Jaime Pressly, mais conhecida pela TV, que usa sua formação de bailarina; Devon Aoki, modelo que já havia feito uma espadachim mortal em "Sin City"; Nastassia Malthe, que foi a vilã Typhoid no desastre "Elektra"; Holly Valance, que trabalhou em "Busca Implacável" e Sarah Carter, do seriado "Falling Skies". Mas o melhor do filme pode ser visto neste teaser, com a piada da imagem acima. Ótimo, mas não tem nada a ver com o resto filme.



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

50 anos de Lui Cinematográfica

Hoje acontece o jantar de comemoração dos 50 anos da Lui Cinematográfica, empresa que administra os Multiplex Topazio de Indaiatuba. Além da amizade e parceria que me liga pessoalmente à família Lui por duas décadas, devo ao velho Cine Alvorada, onde a história da empresa começou, muito da minha cultura cinematográfica.

Como quase todo mundo da minha geração, estudei no Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes, que ficava na Praça D. Pedro II, em frente ao Alvorada. Antes ou depois das aulas, costumávamos ir até a porta do cinema – que fica onde é hoje o Magazine Luiza – e olhar pelo vidro quais seriam as próximas atrações. A nós praticamente só restavam as matinês de sábado e domingo, porque a censura etária na época era bem mais rigorosa que hoje. Era o início da Era de Ouro dos Trapalhões no cinema, que começou com “Robin Hood, O Trapalhão da Floresta”, de 1974. A partir daí, até 1991 com “Os Trapalhões e árvore da Juventude”, Renato Aragão estrelaria pelo menos um filme por ano, sempre liderando as bilheterias.

Na época, durante a semana, aconteciam sessões patrocinadas, em geral com produções voltadas às donas de casa, como “Dio como ti amo” e às quartas havia a sessão dupla dedicada à colônia japonesa (em geral, um longa lacrimogêneo e um de yakuzá). Na Semana Santa era quase obrigatória a exibição de “Paixão de Cristo”, uma versão antiga da vida de Jesus em que seu rosto nunca aparecia, e “Os 10 Mandamentos”, o clássico de Cecil B. De Mille com Charlton Heston. Por outro lado, foi no Alvorada que vi meu primeiro filme proibido, uma pornochanchada italiana estrelada por Edwige Fenech, starlet francesa especializada em exbir seu belo corpo em produções B. Não vi na época, mas lembro da fila de dar volta no quarteirão para ver a sex symbol tupiniquim da época, Sonia Braga, em "Dona Flor e seus Dois Maridos", maior público oficial do cinema nacional até "Tropa de Elite 2".

O problema da distribuição na época é que os grande lançamentos demoravam horrores para chegar até as salas do interior. “Tubarão” (1975), por exemlo, levou mais de um ano para ser exibido em Indaiatuba (quando chegou, tenho quase certeza que faltavam alguns dentes na cópia). Quanta diferença com os lançamentos mundiais simultâneos de hoje em dia. Em compensação, em tempos pré-home vídeo, as cópias circulavam por anos, principalmente as que estavam fora do controle das multinacionais, o que permitiu a sobrevivência dos cineclubes.

Por esse motivo, quando fui fazer o colégio em Campinas, um novo mundo se abriu para mim. Filmes como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, visto no Teatro Castro Mendes; e “Manhattan”, de Woody Allen, assistido no Cine Regente, me levaram a descobrir o chamado Cinema de Arte.
Mas mesmo quando me tornei adulto, o Alvorada ainda me proporcionou grandes momentos, como “Apocalipse Now” em sua versão com a destruição do templo  nos letreiros finais, que nunca mais seria vista nas versões posteriores; “Perdidos na Noite”, relançado nos anos 80, creio que por causa da censura da Ditadura Militar; entre outros.

A velha e enorme (mais de mil lugares!) sala da Praça D. Pedro II fechou suas portas em 1989, com “Uma Cilada para Roger Rabitt”, e até a inauguração do Cine Topázio no então Shopping Center Indaiatuba, em 1993, a cidade ficaria sem um cinema. Muita gente cresceu tendo que ir até Campinas ou recorrendo ao VHS para ver filmes.

A família Lui reunida na inauguração do Topázio do Polo Shopping
Nesse período começa minha relação com a família Lui. Em 1992, trabalhando no Votura, fui encarregado de fazer uma matéria sobre o shopping que estava sendo construído no local do antigo Cotonifício. Meu entrevistado era José Roberto Machado, que respondia pelo marketing do empreendimento. Ele me mostrou a planta, apresentou as bandeiras que ancorariam o mall (entre as quais Planet Music, Pakalolo, Sé Supermercados, Casa do Pão de Queijo, Drogasil, únicas sobreviventes de então) e eu falei, tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas cadê o cinema? Pigarro. “Nós fizemos uma pesquisa que mostrou que não havia a necessidade de um cinema no shopping”, disse. Do alto de meus anos como programador do Cineclube Oscarito, de uma passagem pela Sala da Cinemateca Brasileira, do meu trabalho como técnico de cinema na oficina Cultural Oswald de Andrade e órfão do Cine Alvorada eu disse: “Como assim? Indaiatuba não tem cinema desde 1989 e vocês acham que seu primeiro shopping não precisa de um?”
Indignado, fui fazer outra matéria, dessa vez com Paulo Antônio Lui, que herdara o Cine Alvorada do pai Guerino, que por sua vez tinha sido sócio do ainda mais antigo Cine Rex, que como o Cine Paradiso do filme havia virado estacionamento. Ele me explicou que até tentou viabilizar uma sala no shopping, mas o preço que eles pediam era muito alto. Escrevi um texto revoltado com a oportunidade que a cidade estava perdendo de voltar a ter uma cinema, quando aconteceu uma reviravolta nos acontecimentos. O banco que iria abrir uma agência no shopping desistiu, deixando um espaço bem na entrada da Rua Humaitá. O “buraco” foi oferecido á família Lui, que topou retomar o negócio do cinema. O projeto foi feito por um amigo do cineclubismo, Luiz Bacelar, do Cineclube Barão, de Campinas, e surgiu o Topázio. O primeiro filme foi “O Último Grande Herói”, com Arnold Schwarzenegger. Na pequena sala, Indaiatuba assistiu grandes blockbusters como “O Rei Leão” e “Titanic”, participou de eventos mundiais como o pré-lançamento de Star Wars – Episódio 1”, numa sessão à 00h01 e criou uma geração de cinéfilos. E o que se viu em relação ao shopping, que ganhou o nome Jaraguá ao ser adquirido pelo ex-governador Orestes Quércia? O Topázio é que virou a grande âncora do mall, tanto é que o grupo Sol Panambi resolveu investir num mezzanino para abrigar o multiplex e quatro salas. Quando o Polo Shopping veio, a Lui Cinematográfica era a escolha natural para gerenciar as novas cinco salas. Hoje, Indaiatuba tem o mesmo número de salas que tinha Campinas nos meus tempos de colégio.

Desde 2005, o Topázio abriga o Cineclube Indaiatuba, iniciativa minha e do Antônio da Cunha Penna, que vinha peregrinando por diversos espaços da cidade – sede da Sociedade Cantátimo, Colégio Monteiro Lobato, Livraria Vila das Palmeiras – em mídia VHS e depois DVD. Ao invés de clássicos da Sétima Arte, passamos a exibir lançamentos do segmento Arte, que de outro modo jamais seriam exibidos aqui em tela grande. O bate-papo pós projeção são um plus, mas o mais importante, para mim, é aos poucos criar um público mais exigente que permita, no futuro, inserir filmes de qualidade na programação normal.

Em 50 anos, a Lui Cinematográfica viveu a passagem das lâmpadas de carvão para as de xênon; do sistema de dois projetores para o rolo único na horizontal e, finalmente, a projeção digital, talvez a maior revolução na exibição cinematográfica desde os irmãos Lumière. O que se manteve nesses meio século da Lui Cinematográfica é a conexão com seu público, o cuidado com suas salas e com a qualidade da exibição. Parabéns a Paulo Antonio Lui e sua família por manterem vivo o cinema em Indaiatuba.

sábado, 19 de outubro de 2013

O centenário do Poetinha

A efeméride da semana é o centenário de Vinícius de Moraes, comemorado hoje, dia 19 de outubro. Ontem, o programa Sarau, da Globo News, trouxe as remanescentes do Quarteto em Cy, grupo descoberto pelo Poetinha, e a cantora Joyce Moreno, que foi regra três de Toquinho, ao substituí-lo como acompanhante de Vinícius em uma turnê pela América Latina. O Canal Brasil, por sua vez. passou o belo documentário "Vinícius", de Miguel Faria Jr., que traz um Chico Buarque saudoso, nada preocupado em preservar intimidades do amigo, muito antes de se tornar o desastrado porta-voz do grupo Procure Saber.

Morto em 1980, o autor de Soneto da Separação não será atingido pelo movimento anti-biografias porque já tem a sua, "Vinícius, Poeta da Paixão", de José Castello, que revela o lado trágico de uma vida cheia de viagens, amigos, poesia, música e mulheres movida a muito uísque, o cachorro engarrafado que ajudou a matá-lo aos 66 anos.Sem patrulhas, por favor, porque viver intensamente foi uma escolha pessoal, e ainda foi mais longe que diversos popstars muito mais jovens. Em todos os sentidos.

Paulo Francis fez um retrato cruel dele em "Cabeça de Papel" e achava que Vinícius passou a se dedicar á rima fácil da música popular por ter perdido a mão para a poesia séria. Eu acho que ele quis fazer sua poesia sair das prateleiras das bibliotecas e dos saraus eruditos e ir para a rua, ao alcance das pessoas comuns. A parceria com Tom Jobim, um popular com um pé e meio no erudito, consolidou as possibilidades de fazer arte de qualidade num meio de muito maior alcance que a literatura tradicional. Sem falar nas benesses da boemia, badalação e mulheres bonitas.  

O legado do Poetinha nesses tempos estranhos é dificil de definir. Luis Fernando Veríssimo nos lembra como ele ajudou várias gerações de homens a seduzir mulheres com seus poemas de romantismo derramado, mas será que Soneto da Fidelidade ("De tudo ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento"), ainda cola em tempos de "Gata me liga mais tarde tem balada/Quero curtir com você na madrugada/Dançar, pular/Até o sol raiar" (Que rima! Que lirismo!)?

Mas apesar do mercantilismo, do hedonismo, da ânsia pelo poder e fama neste novo século pós-Vinícius de Moraes, o que ele nos deixa é uma visão de um mundo, onde "quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não", "quem tem mulher para usar ou pra exibir" não está com nada; e "para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro, seja lá como for".

Afinal de contas, "mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, com toda a lama, a gente vai levando", "porque hoje", dia de seu Centenário, "é sábado!"   




terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cineclube Indaiatuba exibe "Hannah Arendt" hoje às 20h

A atração do Cineclube Indaiatuba hoje ás 20h é "Hannah Arendt", de Margarethe Von Trotta. O ingresso é R$ 6,00 para todos e após a projeção no Topázio do Shopping Jaraguá haverá bate-papo com o público. O filme é estrelado por Barbara Sukowa, estrela de um dos derradeiros Fassbinder ("Lola") e parceira da cineasta em dois de seus filmes mais conhecidos, "Os Anos de Chumbo" e "Rosa de Luxembrugo".

"Hannah Arendt" aborda um dos episódios mais importantes da vida de uma das grandes pensadoras do século XX, sua reportagem-ensaio sobre o julgamento de Adolf Eichmann, o responsável pelo transporte dos judeus aos campos de extermínio durante a II Guerra Mundial. Sendo ela mesma uma sobrevivente (ela fugiu da França para o Estados Unidos antes que Hitler ocupasse o país), ela se surpreendeu ao se deparar com a figura patética do oficial da SS. Longe de ser o demônio pintado por seus captores israelenses, Eichmann não passava de um burocrata, um cumpridor de ordens que pessoalmente não havia matado ninguém. Isso levou Arendt a formular o famoso conceito da "banalidade do mal", que na verdade é mais aterrorizante que o pensamento de termos seres diabólicos andando entre nós, porque lança a possibilidade de qualquer um, dentro de um contexto moralmente distorcido como o nazismo, ser capaz de cometer as maiores atrocidades sem assumir qualquer culpa.

Seus artigos para a revista The New Yorker (que bancou a viagem e os quase dois anos de elaboração dos textos) e o livro publicado depois, "Eichmann em Jerusalém", fez com que ela recebesse ataques de todos os lados, principalmente do poderoso lobby judeu americano. Seu relacionamento amoroso na juventude com Martin Heidegger, um dos maiores filósofos contemporâneos que acabou se alinhado com Hitler, foi usado para sugerir uma suposta simpatia pelos nazistas

O filme de Von Trotta se situa na vida de Arendt nos EUA como professora universitária, vivendo com seu companheiro Heinrich Blücher (Axel Milberg) e tendo entre seus amigos a escritora Mary McCarthy (Janet McTeer) e o filósofo Hans Jonas (Ulrich Noethen), um judeu alemão que lutou ao lado dos Aliados contra o Nazismo.