segunda-feira, 1 de abril de 2013

Considerações sobre Amor e o Som ao Redor

Vi só agora dois dos mais festejados e importantes filmes do ano passado,   "Amor", de Michael Hanecke, candidato ao Oscar de Melhor Filme mas vencedor da categoria Filme em Língua Não-Inglesa, e "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, Premio Itamatary da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Como eu suspeitava, "Amor" é o melhor da lista de indicados ao grande premio da Academia, mas Não ganharia nem em um milhão de anos. Essa contradição em termos pode ser explicada em parte pelo fato do Oscar ser um premio da indústria do cinema americano, e um não de arte como a maioria supõe. Mas então por que inclui-lo na lista e preterir o muito mais palatável "Os Intocáveis", que ficou fora da disputa de filme estrangeiro, provavelmente por ser falado no mesmo francês ("Amor" representou a Áustria, apesar de atores e idioma serem da terra de Gèrard Depardieu)? Porque é para isso que a categoria de lingua não-inglesa serve: premiar o Grande Cinema. A indicação a Filme e Diretor foi mais como uma condecoração da parte de Hollywood, reconhecendo a excelência do trabalho de Hanecke, um dos mais eminentes realizadores europeus da atualidade. Mas, repito, sem a intenção de conceder-lhe esses premios principais.
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Voltando a "Amor" propriamente dito, a escalação de Emanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant para os papéis principais deu um toque a mais de crueldade à situação dos personagens, pois todo cinéflo que se preza se lembra do principal papel cinematográfico dela anteriormente, "Hiroshima Mon Amour", em que ela protagonizava uma das mais emblemáticas cenas de amor da história do cinema, e ele como galã de clássicos como "E Deus criou a Mulher" e "Um homem e uma mulher". Essa lembrança acrescenta uma dose de tragédia maior para quem se recorda do casal em plena forma. Embora seja o mais "leve" dos trabalhos de Hanecke, o filme não faz concessões ao horror de um parceiro assistir impotente a agonia e decadência física do outro. Ao mesmo tempo, o "Amor" está presente em todos os momentos entre os personagens de Trintignant e Riva, até mesmo nas cenas mais tensas, incluindo o ato derradeiro.
"O Som ao Redor" também não faz concessões. Trata de uma Recife contemporânea ainda presa aos tempos de "Casa Grande & Senzala". Enquanto o latifúndio rural está decadente a propriedade urbana do senhor de engenho floresce na forma de condomínios com nomes afrancesados (Edifício Camile Claudel é ótimo). Realizado por um crítico de cinema, o filme é cheio de referências, mas não se desvia de seus temas principais por causa deles, ao contrário, os utiliza para sublinhá-los. A especifidade histórica e geográfica se mescla com a universalidade da vida nas cidades grandes atuais, em eterna tensão entre quem tem e quem não tem, a claustrofobia dos condomínios classe média e o crescente reacionarismo desta. A sequencia da reunião de condomínio resume bem tudo isso, mas não poupa o rapaz bem-nascido de boas intenções que defende o velho porteiro em vias e ir para a rua sem receber nada, mas que cai fora da votação diante da perspectiva de uma boa transa.
"Amor" foi exibido durante duas semanas no Multiplex Topazio e "O Som ao Redor" foi o primeiro nacional a ser exibido este ano pelo Cineclube Indaiatuba, programado pelo fotógrafo, compositor, escritor laureado e best-seller local Antonio da Cunha Penna; e este blogueiro.


terça-feira, 19 de março de 2013

Considerações sobre Hitchcock, o filme e o cineasta

Fui assistir "Hitchcock" e o filme é, no geral, uma decepção. Anthony Hopkns está caricato soterrado por uma maquiagem paralisante, Helen Mirren é competente como sempre como Alma Reville, Scarlett Johansson não se parece muito com Janet Leigh (a não ser entre o pescoço e o umbigo) e Jessica Biel não tem muito o que fazer como Vera Miles. James D'Arcy ("O Mestre dos Mares"), por outro lado, está igualzinho a Anthony Perkins, mas é pouco aproveitado na trama. Por que dar a um diretor estreante uma história desses com um elenco que tem ainda Tony Colette, o habitual vilão Danny Huston como suposto interesse romântico de Alma e o ex-Karate Kid Ralph Macchio numa ponta como o roteirista oficial de "Psicose"? O tal Sacha Gervasi desperdiça o que Geotge C. Scott, na pele do general George S. Patton, chamaria de uma "bela infantaria".
Aparentemente o roteiro aplaina os conflitos do livro original de Stephen Rebello e a direção se encarrega de transformá-los em um monte de anedotas. Sacadas boas da abertura e do final, remetendo ao programa de TV que Hitchcock apresentava e que ajudou a popularizar sua rotunda figura ainda mais, mas as "conversas" do cineasta com Ed Gein, serial killer que inspirou tanto Norman Bates quanto o Leatherface de "O Massacre da Serra Elétrica", são psicanálise de botequim, como o trabalho anterior do roteirista  John J. McLaughlin, "Cisne Negro".
Em 1959, quando a história começa, durante a pré-estréia de um dos maiores sucessos do Mestre do Suspense, "Intriga Internacional", Alfred Hitchcock era festejado como grande entertainer, mas não respeitado como cineasta. Os grande diretores eram William Wyller, John Ford, Fred Zinneman, George Stevens e por aí vai. Só quando os princípios dos Cahiers de Cinèma se popularizaram nos EUA é que Hitchcock passou a ser visto com outros olhos, mas aí, sua carreira já estava no ocaso. A despeito de "Os Pássaros" e "Frenesi" serem grandes trabalhos, ele nunca mais teve um sucesso como "Psicose" ou "Intriga Internacional". Mas, num lance de genialidade de marketing, ele impos em testamento que cinco dos filmes de que ele tinha controle sobre as cópias fossem proibidos de serem exibidos em qualquer meio, sendo liberados apenas no cinema anos após sua morte. Quando "Um Corpo que Cai", "Janela Indiscreta", "Festim Diabólico", "O Homem que Sabia Demais" e "O Terceiro Tiro" foram relançados nos anos 1980, uma nova geração pode constatar o quanto o cinema americano devia ao grande mestre. Não eram apenas as emulações de Brian de Palma ou a série James Bond - como o filme "Hitchcock" frisa - que devem ao autor de "Rebecca" (seu único filme a ganhar o Oscar), mas todo o cinema de ação e suspense Made in Hollywood.
"Psicose" sozinho quebrou uma série de tabus, como o "gore" até então restrito a filmes exibidos em cinemas baratos, a insinuação de nudez e morte nos primeiros rolos da personagem de uma estrela como Janet Leigh. Sem dúvida foi um dos primeiros passos rumo ao fim do Código Hays, que desde os ano 30 decidia o que era adequado para ser exibido nos cinemas "de família" americanos. É dificil ao público acostumado a "Jogos Mortais" imaginar o impacto causado por "Psicose" em 1960. "Hitchcock" até tenta, na cena em que o cineasta acompanha do lado de fora da sala de exibição os gritos da platéia durante a evisceração de Marion Crane. É interessante que o roteiro destaque que Janet Leigh, na época famosa como heroína romântica, e na maioria das vezes virginal, de épicos, faroestes e comédias, talvez só tenha aceitado fazer o papel depois de filmar "A Marca da Maldade" com Orson Welles. Por outro lado, por já ter feito uma obra-prima com um grande diretor, Hitchcock excepcionalmente a tenha tratado tão bem.
Ao final do filme de Sacha Gervasi, vemos Alfred e Alma reconciliados, com ele aparentemente livre das obsessões com suas estrelas. Nada mais enganador. Outro trabalho recente sobre o diretor inglês, "The Girl", telefilme da HBO, aborda justamente o momento logo após "Psicose", quando ele começa a idealizar "Os pássaros" e contrata a jovem Tippi Hedren. Hitchock é interpretado por Toby Jones, Tippi por Sienna Miller e Alma por Imelda Stauton. Em termos de phisyqye du role, o elenco aqui é melhor escalado: Hitchcok e Alma não eram tão charmosos como Hopkins e Helen Mirren, mas próximos dos baixinhos e feiosos Jones e Stauton, e Tippi era uma beleza gelada e distante como a própria Sienna. O pobre Toby Jones, por sinal, pela segunda vez na carreira ve uma interpretação sua de um personagem real ser ofuscado por outro trabalho na mesma época. Em 2006, sua ótima personificação de Truman Capote em "Confidencial" foi eclipsada pela atuação oscarizada de Philip Seymour Hoffmann no ano anterior, e agora, seu Hitchock tem que concorrer com o consagrado Anthony Hopkins. Não é fácil.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O melhor show do Oscar dos últimos anos

Não sei até que ponto o ótimo show do Grammy Awards influenciou a 85a cerimônia de entrega dos Premios da Academia de Hollywood, mas acho que contribuiu para que esta fosse o melhor Oscar dos últimos anos em termos de programa. O apresentador Seth MacFarlene abriu o evento com uma piada que desculpou toda a irreverencia - ou piadas politicamente incorretas - que se esperava dele.

O capitão James T. Kirk vem do futuro para alertar Seth MacFarlane
Aliás, a presença de William Shatner como Capitão James T. Kirk no telão foi m momento "geek" que divertiu os rapazes e entediou as moças, o que seria compensado mais tarde pelos diversos números musicais, incluindo todo o elenco de "Os Miseráveis" (ironicamene, em trajes nada misérables) cantando a canção principal. 
Todo o eneco de "Os Miseráveis" cantando em trajes de gala
Antes, Catherine-Zeta Jones havia voltado a "Chicago" em boa forma na dança, mas visivelmente dublada na voz, e uma esguia Jennifer Hudson lembrou sua atuação em "Dreamgirls", sendo aplaudida em pé. A franquia James Bond foi homenageada pelo seus cinquentenario, com apresentação da única Bond Girls oscarizada, Halle Berry, e a presença da veterana Shirley Bassey cantando a emblemática "Goldfinger". Depois de Shirley e seu histrionismo típico, a apresentação de uma muito mais jovem Adele defendendo seu "Skyfall" foi anticlimático, com a intérprete e compositora inglesa visivelmente travada. Mas com a estatueta de Melhor Canção e a de edição de som (em um raro empate com "A Hora mais escura") fez deste o melhor ano de 007 nos Prêmios da Academia. 
Barbra Streisand mostra que ainda canta muito

Outro momentão nostálgico foi a aparição surpresa de Barbra Streisand na homenagem aos falecidos do ano, cantando "The way we were" (de um de seus sucessos, "Nosso amor de ontem"), de Marvin Hamlish, grande compositor morto em 2012. Outra surpresa foi a participação on line da primeira-dama Michelle Obama para o anuncio do melhor filme. Será que Hollywood ficou feliz coma  reeleição de Barack Obama? Sim ou com certeza?
 No todo, o show foi dinâmico, razoavelmente enxuto e bem conduzido por McFarlane (melhor piada, a da Família von Trapp para anunciar Christopher Plummer), que salvo acidente de percurso neste ano, deve voltar no ano que vem. Detalhe, gostei da "homagem" aos perdedores no fim. Foi um momento mal-comportado quando quase todo mundo já havia desligado a TV para dormir.
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Michelle Obama rouba a cena de Jack Nicholson
Tradicionalmente o primeiro premio a ser anunciado, a categoria ator coadjuvante começou com uma pequena surpresa: a vitória de Christoph Waltz por "Django Livre" (que já havia faturado o "Globo de Ouro") sobre o favorito Tommy Lee Jones por "Lincoln". Não dá para falar em injustiça num páreo em que todos os indicados já tinham suas estatuetas e pelo menos um, Robert De Niro, é uma lenda viva de Hollywood. Na verdade, na disputa entre os dois concorrentes que tratavam sobre a escravidão nos EUA, Tarantino levou pequena vantagem sobre Spielberg. Ambos levaram duas estatuetas, mas "Django Livre" ganhou em duas das categorias principais - ator coadjuvante e roteiro original - enquanto "Lincoln" ganhou em uma principal - ator para Daniel Day-Lewis, a barbada da noite - e uma secundária - direção de arte.
Em animação,  tudo ficou em casa: venceram o bonito curta da Disney "Paperman", que antecedeu "Detona Raplh" nos cinemas; e o longa "Valente, da Pixar,  num dos anos mais fracos desde a criação da categoria em 2002.
"As Aventuras de Pi", filme que muitos amam mas que era visto como azarão, foi o mais premiado da noite, a maioria em categorias técnicas, mas tendo como cereja do bolo o Oscar de direção para Ang Lee, o chines (bom, taiwanes na verdade) mais bem sucedido em Hollywood, mas que andou atirando para todos os lados em sua fase americana (vide seu fraco "Hulk"). É a segunda vitória em três indicações.
Como eu previra, a indicação de "Amor" para Filme e Filme Estrangeiro significava que ele ficaria com o menor mas cada vez mais importante Oscar para filme em idioma não-ingles. Os mesmo já havia acontecido com "O Carteiro e o Poeta".
Tadinha da Jennifer Lawrence, levando um tombo a caminho da glória

A jovem Jennifer Lawrence, revelada há apenas dois anos em "Inverno da Alma", já é praticamente uma estrela de primeira grandeza, tendo duas indicações ao Oscar - e uma vitória - e participações em duas franquias blockbusters, "X-Men" e "Jogos Vorazes". Sua vitória por "O lado bom da vida" é mais ou menos como o premio para Angelina Jolie em 2002, que a catapultou para ser superstar. Já o premio para Anne Hathaway por "Os Miseráveis" consagra uma estrela a quem a Academia queria há muito tempo laurear e só aguardava um trabalho adequado. Mais ou menos como os Oscars para Gwyneth Paltrow por "Shakespeare Apaixonado" e para Julia Roberts por "Erin Brokovich". Trata-se de um lógica de indústria, que é onde a maioria dos votantes trabalha.
Wolverine e Mulher-Gato se abraçam no palco
 Capítulo à parte para Daniel Day-Lewis. A primeira vez que o vi foi em "Minha adorável lavanderia" (1985) de Stephen Frears, em que ele fazia o namorado gay do imigrante indiano dono da tal lavanderia. Tres anos depois o assisti em "A Inustentável Leveza do Ser", de Philip Kaufman, ótima adaptação do péssimo romance de Milan Kundera, como o médico-garanhão que mandava as mulheres tirarem a roupa ("Take off your clothes") e elas obedeciam na hora. Consagrou-se com Oscar em "Meu pé esquerdo" ( de 1989, batendo Kenneth Branagh no magnífico "Henrique V") e depois virou galã em produções como "O último dos moicanos" (1992) e "A época da inocência" (1993). Depois de "O lutador" (1997), resolveu abandonar a atuação e pensou em virar sapateiro, mas aí Martin Scorcese o convenceu a fazer "Gangues de Nova York" (2002), que o animou a continuar o ofício. É o grande ator de sua geração e acaba de fazer história com seu terceiro Oscar como ator principal, superando lendas como Spencer Tracy, Marlon Brando e Tom Hanks
Terceira estatueta de ator principal consagra "o cara" Daniel Day-Lewis

Com a ausência de Ben Affleck entre os concorrentes a melhor diretor - a grande gafe/injustiça do ano - quando "Argo" foi anunciado como melhor roteiro adaptado, o Grande Prêmio já estava no papo. Durante a abertura da transmissão da TNT brasileira, Rubens Edwald Filho disse que este era o ano com os melhores filmes indicados dos últimos anos. Para mim, 2008, ano em que Daniel Day-Lewis ganhou seu penúltimo Oscar, continua sendo o melhor dos últimos anos, com os ótimos "Desejo e Reparação", "Ouro Negro" e "Onde os facos não tem vez" (que acabou levando) disputando cabeça a cabeça, secundados por "Conduta de Risco" e "Juno".Desde então, não tem havido uma páreo como este, e 2013 não é exceção. "Argo" ganhou porque é um thriller melhor que "A hora mais escura", é mais cinema que "Lincoln", mais fácil de entender que "As aventuras de pi", mais "sério" que "O lado bom da vida" (só Frank Capra vencia com comédias romanticas) e mais convencional que "Django livre" ("Os Miseráveis" e "Adorável sonhadora" estavam lá para fazer número). Foi uma boa escolha, mas a disputa deste ano não ficará na história.
Veja a lista completa de indicados e vencedores aqui.
Ben Affleck, injustiçado e ao mesmo tempo grande vencedor da noite


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 Outro dia o jornal Independent sacou um lista dos maiores filmes esquecidos do Oscar e colocou "Um sonho de liberdade" (perdeu para "Forrest Gump") em primeiro lugar; "À espera de um milagre" (perdeu para "Beleza Americana") em segundo; "Avatar" (perdeu par "Guerra ao Terror") em terceiro; "O Resgate do Soldado Ryan" (perdeu para "Shakespeare Apaixonado") em quarto; "ET" (perdeu para "Gandhi") em quinto; "Star Wars" (perdeu para "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa") em sexta; "Mary Poppins" (perdeu para "Minha Bela Dama") em sétimo; "Doutor Jivago" (perdeu para "A Noviça Rebelde") em oitavo; "Pulp Fiction - Tempo de Violência" (perdeu para "Forrest Gump") e "O Sol é Para Todos" (perdeu para "Lawrence da Arábia"). Queria saber qual o critério dessa pesquisa, mas só pode ser coisa de leitor que nunca ouvu falar em "Cidadão Kane" ou "Apocalipse Now". Comentem, por favor.
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pitacos do Oscar 2 - Quem leva

Jessica Chastain em "A hora mais escura"
Ontem assisti "A Hora mais escura" e fechei a conta dos favoritos ao Oscar (hoje estréia em todo o País "Indomável Sonhadora" e, em Indaiatuba, "Amor", mas o primeiro tem poucas chances e o segundo deve levar apenas o premio de filme estrangeiro).
Daniel Day-Lewis é aposta certa para melhor ator por sua extraordinária caracterização como "Lincoln". Será o primeiro com tres premios de ator principal. Entre as mulheres, depois de ver Jessica Chastain ontem, me parece que o favoritismo de Jennifer Lawrence se confirma: sua rival está bem em "A Hora mais Escura", mas a jovem estrela de "Jogos Vorazes" é destaque absoluto num elenco em que todo mundo foi indicado (Bradley Coooper como ator, Robert de Niro e Jacki Weaver como coadjuvantes poe "O lado bom da vida"). Aliás, é uma pena que De Niro tenha concorrentes tão bons como Alan Arkin em "Argo", Christoph Waltz em "Django Livre" e Tommy Lee Jones em "Lincoln", que aparentemente deve ganhar. Entre as mulheres a disputa é ainda mais interessante, a queridinha da Academia Sally Field (dois Oscars) concorrendo por "Lincoln" contra a namoradinha da América Anne Hatthaway, indicada por sua atuação em "Os Miseráveis". Sally está muito bem como a primeira-dama Mary Todd Lincoln, mas Anne tem aquele número emocionante cantando as desgraças de Fantine, que é a cara do Oscar. Pra mim, já ganhou.
A grande incógnita é o grande prêmio de filme. O mais premiado até agora é "Argo", cujo diretor não foi indicado, uma contradição em termos. É muito bom, mas não sensacional, e um dos pontos fortes é justamente a direção de Ben Affleck. "Lincoln", o segundo favorito, é gradiloquente mas não grande, e Spielberg não está em sua melhor forma (mas pode levar o premio de direção só com seu nome). "Os Miseráveis" corre por fora mas, francamente, não merece. "A hora mais escura" trata de um tema contemporâneo, mostra a competencia de Katryn Bigelow para películas de ação (e ela nem foi indicada), porém, não é muito mais que um bom thriller. A irreverência e inconvencionalismo de Quentin Tarantino tiram ele e "Django Livre" dos páreos de direção e filme, mas pode lhe dar um novo Oscar de roteiro original. "As aventuras de Pi" é bonito, mas não acho que rendam a ele e a Ang Lee os grandes premios. Resumindo, acho que dá "Argo" como melhor filme e Steven Spielberg como diretor (lembrando que ele ganhou seu segundo premio pela direção de "O Resgate do Soldado Ryan" em 1999, ano em que "Shakespeare Apaixonado" foi o melhor filme).
Dentro dessa lógica, "Argo" deve levar ainda o premio de roteiro adaptado e o original deve ficar entre "Django Livre" e "A hora mais escura". O filme estrangeiro deve ser "Amor" e a melhor canção, "Skyfall" com Adele. Este ano, uma das categorias mais legais, o de longa de animação, tem a lista mais fraca dos últimos anos. "Valente" é o trabalho mais fraco da Pixar junto com "Carros 1 e 2", "Detona Raplh" da Disney é ok, mas não sensacional. Será que Tim Burton leva por "Frankenweenie"? Curiosamente, um dos autores mais originais e bem sucedidos de Hollywood até  hoje só foi indicado pela produção de dois filmes de animação, este e "A noiva cadáver".
A Globo inicia a transmissão do Oscar domingo a partir das 23h30 (por causa do maldito BBB), mas quem tem TV por assinatura pode ver o pré-show na TNT a partir das 20h30 e o início da cerimônia de premiação a partir  das 21h30.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pitacos para o Oscar: O Lado bom da Vida e Os Miseráveis

Anne Hathaway em seu momento Oscar
Já comentei aqui "Django Livre" e "Lincoln" dentre os favoritos ao Oscar. Acabo de ver "Os Miseráveis" e na sexta assisti "O Lado bom da Vida". Vamos primeiro ao musical.
Decididamente, se eu não tivesse visto no cinema, dificilmente assistiria em home video. Por diversas vezes rezei por um botão de fast foward. A chuva caia do lado de fora do Polo Shopping e eu me preocupava mais se eu tinha fechado as janelas do carro do que com o filme. Musical da Broadway não é comigo.
Mas deu para chegar a algumas constatações em relação ao Oscar. 1) Anne Hathaway é mesmo a favorita como Atriz Coadjuvante; 2) Hugh Jackman não é páreo para Daniel Day-Lewis e 3) Num ano sem favoritos, pode ser o vencedor do Oscar, mas sem merecer. A longa e complicada trama de Victor Hugo é resumida ao mínimo, e ainda assim deu 158 longos minutos, que a direção de Tobe Hopper faz com que a gente os sinta todinhos. Os alivios cômicos de Sacha Baron Cohen e Helena Bonhan Carter (a antiga especialista em heroínas de época virou a megera de época?) mais enche os culhões do que diverte. Em termos de canto-atuação, Anne realmente "se joga" na sua cena-chave, mas é preciso destacar também a afinação de Amanda Seyfred como Cosette  (personagem que foi resumidíssima) e a competência da desconhecida Samantha Barks como Eponine, papel que ela viveu nos palcos londrinos e no DVD comemorativo dos 25 anos do musical. O garoto Daniel Huttlestone, o Gavroche, também foi pinçado da montagem britânica que ficou em cartaz entre 2010 e 2011. E se Hugh Jackman fez jus à sua formação em musicais na Austrália, Russell Crowe ficou fora do tom, do canto e do personagem. Ainda mais quando lembramos do Javert de Geoffrey Rush na versão de 1998, dirigida por Billie August.

Jennifer e Bradley: ambos indicados, mas ela é que é favorita

"O Lado bom da Vida", por seu lado é uma comédia romântica disfuncional, mas que funciona até para o público masculino. Houve quem se queixasse da previsibilidade, mas se assim não fosse, deixaria de ser comédia romântica. A ótima direção de David O. Russell passou em branco nas indicações do Oscar, Globo de Ouro e do Sindicato dos Diretores. Mas parece que a jovem Jennifer Lawrence vai mesmo levar a estatueta dois anos depois de sua primeira indicação por "Inverno da Alma", confirmando o talento demonstrado nesse drama que foi exibido na cidade pelo Cineclube Indaiatuba. Já a indicação de Bradley Cooper serve mais para dar credibilidade ao astro, que se sai surpreendentemente bem, mas não é páreo para o Abraham Lincoln de Daniel Day-Lewis. Robert de Niro está bem como o pai maníaco? Sim, talvez seja seu trabalho mais a sério dos últimos anos, mas acho que Tommy Lee Jones volta a levar o premio de coadjuvante 19 anos depois de "O Fugitivo".Achei muito melhor que "Os Miseráveis", mas pelo andar da carruagem, não leva a o prêmio principal da Academia.

Dentre os favoritos, falta ainda "A Hora mais Escura". Depois de ve-lo, volta a escrever.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Lincoln", de Steven Spielberg

Sally Field e Daniel Day-Lewis já levaram o Actors Guild Awards, ele também
o Globo de Ouro

Já faz algum tempo que Peter Pan de Hollywood acordou para as mazelas da América e vem se tornando um crítico de seu país. Há quem se refira a “O Terminal” (2004), “Guerra dos Mundos” (2005) e “Munique” (também 2005) como uma trilogia sobre os Estados Unidos pós-11 de setembro.
Seu recente “Lincoln”, embora se passe no século XIX, refere-se à divisão atual dos Estados Unidos, não pela escravidão, mas pela visão de mundo entre os adeptos do Tea Party e o resto do país. Nem mesmo a crise econômica causa pelo capitalismo selvagem sem freios defendido por eles fez com que suas convicções fossem abaladas. O resultado é um Congresso praticamente paralisado em meio à maior depressão econômica desde os anos 1930.
O guru da nova direita, Luis Felipe Pondé, rejeita na Folha de S. Paulo a aproximação que o crítico de cinema do mesmo jornal, Ricardo Calil, fez entre Lincoln e Obama, por que acha o segundo um banana, que só se reelegeu por ser negro (não é verdade, no pleito do ano passado ficou claro que o que os americanos não queriam era a volta do governo para os muito ricos, cristãos, heterossexuais – ainda que no armário – e, preferencialmente, brancos). Mas Calil tem razão em ver no subtexto nem tão sutil uma mensagem para o atual presidente. Se é isso o que ele fará em seu derradeiro quatriênio, e o que veremos.
Outro articulista importante da Folha, Elio Gaspari, adorou o filme, já que mostra de forma crua e chocante para leigos idealistas, como é que se fazem as leis nas democracias representativas, mesmo as leis mais nobres. Mas não há opções realistas a esse sistema, como bem observou Winston Churchill (“A democracia representativa é o pior sistema que existe, com exceção de todos os outros”). Nenhum jornalista que já tenha coberto qualquer legislativo acharia extraordinário o que acontece em “Lincoln”: é assim que é nos EUA, nas democracias européias e no Brasil (com diferenças importantes e fundamentais, mas, no fundo, é o mesmo). A alternativa a esse toma-lá-dá-cá é a ditadura, que é muito pior.
O Lincoln de Daniel-Day Lewis (tem tudo para quebrar o recorde do Oscar com uma terceira vitória como melhor ator principal) deixa isso claro na explicação que dá a seu gabinete sobre a necessidade da emenda mesmo depois de sua declaração de libertação dos escravos nos Estados Confederados. Nenhum presidente teve tanto poder quanto ele durante a Guerra Civil, mas seus atos executivos embasados no estado de guerra aproximavam-se de uma ditadura, e ele sabia disso. Tudo o mais poderia ser revertido ou contestado na paz, menos a escravidão, e por isso a necessidade de uma emenda constitucional que tornasse permanente a abolição da escravidão. A rigor, Pondé tem razão quando diz que não foi a liberdade dos negros que levou ao fraticídio americano, mas o desejo dos 11 estados confederados de deixar a União e manter o dixie way of life que podemos ver em versão devidamente edulcorada em “...E o Vento Levou”. A famosa Constituição Americana dava brechas para isso, só que Abraham Lincoln achou, com razão, que isso transformaria a América em dois – ou mais – países de segunda, e manteve a União a ferro e fogo. O mundo seria outro que a América do Norte se tornasse uma versão mais fria das fragmentadas Américas do Sul e Central. Isso é ser estadista. Ao centralizar a ação nos últimos meses da presidência e da vida de Lincoln, Spielberg deixa essa questão em segundo plano e se concentra na liberdade aos negros, o motivo idealista da guerra.
Cinematograficamente, entretanto, o resultado não é tão bom. O filme é muito falado, muito solene e se sustenta na atuação de Day-Lewis, em alguns momentos secundados por Sally Field como a primeira-dama Mary Odd Lincoln (seu estilo soap opera cai como uma luva no papel) e pos Tommy Lee Jones como o abolicionista radial Thadeus Stevens. Somente quem se interessa por política e história como eu, meu amigo João Marcos Martinho e Elio Gaspari apreciamos de fato. Assim, mesmo sem ser um filmão, “Argo” é muito mais cinema, e acho que ganha pontos no Oscar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Quem é Derek Jeter?

A resposta à pergunta acima é, um jogador de beisebol, capitão do mítico New York Yankees e 13 vezes selecionado para o All Star Game e cinco vezes campeão do World Series. Até aí, nada de mais para nós, brasileiros, para quem o beisebol é um esporte tão chato que os caras já jogam de pijama. O que pega é o currículo amoroso do cara, de deixar qualquer boleiro brasileiro no chinelo, ou melhor, no chinelinho.
Um levantamento feito pelo site americano TotalSports apontou os seguintes scores do astro do taco.

Jordana Brewster, a atriz de mãe brasileira que estrelou o primeiro, o quarto e o quinto filme da série Velozes e Furiosos, ficou com Jetter em 2003

Maryah Carey, e quando ela ainda era pegável, entre 1997 e 1998


Gabrielle Union, que é conhecida entre nós  pelo filme "Bad Boys II",  se divorciou em 2006 foi consolada por Jeter  no ano seguinte


Tyra Banks, a apresentadora do American Next Top Model, também entrou na Lista de Jeter


Vida Guerra, no país dos boobs ela é famosa por causa de seus outros óbvios atributos, não foi assumida oficialmente, mas é normalmente incluida no hall of fame de Jeter


Scarlett Johansson dispensa apresentações. Também os dois negam envolvimento, apesar de terem sido vistos juntos em diversas ocasiões em 2004. Ela sai um pouco do biotipo favorito dele, mas, que diabos, é Scarlett Johansson!


Jessica Biel, outra que não precisa de cartão de visita, ficou com Jetter em 2006, antes de engatar namoro com Justin Timberlake


Adriana Lima, não contente em pegar a mezzo brazuca Jordana, Jeter namorou a supermodel baiana em 2006 para completar o brazilian barba-e-cabelo



Jessica Alba, a gata de Sin City saiu com Jetter em 2004, mesmo ano em que teria ficado com Scarlett Johansson. Com esse currículo nem jogador de polo patrocinado pela Pfizer pode.

E antes que perguntem qual a cara do sujeito, olhaí:

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Considerações sobre "Django Livre"

O quarteto principal em um único enquadramento

Primeira coisa a dizer sobre “Django Livre”: é muito bom, e é programa imperdível para cinéfilos em geral. É lógico que conhecer um pouco de western spaghetti ajuda, já que Quentin Tarantino usa e abusa de suas marcas registradas, que de certa forma deu sobrevida ao faroeste americano, moribundo nos anos 60 e 70, auge do bang-bang à italiana. Sérgio Leone deu respeitabilidade ao gênero, com sua trilogia dos dólares e a obra-prima “Era uma vez no Oeste”. Mas Tarantino tem como referencia outro Sérgio, o Corbucci, um daqueles diretores que trabalhavam incessantemente na então prolífica indústria cinematográfica italiana, mas que nunca entrou para o clube dos “maestros”. No entanto, fez grandes filmes como o próprio “Django” original, “Vamos matar, companheiros” e “O Vingador Silencioso”.
 É curioso como nenhum crítico tenha percebido o sarcasmo de Tarantino contra seus próprios compatriotas em “Bastardos Inglórios” e agora em “Django Livre”. No primeiro, quem praticam os atos mais brutais e os massacres mais sagrentos são os ianques. O diretor ainda brinca com a ingenuidade de grande parte dos roteiros “men on mission” que ele homenageia no filme: seria possível um bando de americanos francamente monoglota conseguir se passar por alemães ou mesmo italianos em plena Europa ocupada? De forma categórica e cinematograficamente primorosa, Tarantino mostra que não.
Seu western spaghetti na verdade se passa bem antes do período clássico dos faroestes, que são as décadas 1870 e 1880. Datando sua história em 1858, o cineasta coloca a ação na época e no coração do escravagismo, quando ninguém imaginava que dois anos depois, Abraham Lincoln dividiria o país por causa da abolição, tema do filme de Spielberg que estreia na próxima sexta, aliás. O período é ideal para abordar uma das maiores vergonhas da civilização ocidental, mas não é o melhor para o bang-bang. Revólveres ainda não eram tão fáceis de encontrar e ainda não haviam sido inventados os rifles com cartucho metálico (a tecnologia da morte só seria incrementada pela Guerra Civil). Mas é uma licença poética menor em relação ao massacre de Adolf Hitler e toda a elite nazista em seu filme anterior. 
Com revolveres Colt e rifles Henry e Sharp (ambos não existentes em 1858), Django (Jamie Foxx) e o dr. King Schultz (Christoph Waltz, ganhador do Globo de Ouro e candidato ao Oscar de novo) detonam malfeitores e escravagistas - entre os quais, Don Johnson e uma hilária proto-Klu Klux Klan -  em um mar de sangue e tripas, para alegria e catarse da plateia, pois vemos ao mesmo tempo a crueldade da escravidão, essa sim,com grande acuidade histórica, incluindo o instrumentos de tortura usados para punir e/ou dificultar a fuga, que eu mesmo pensava que eram exclusividade luso-brasileira (uma pesquisa rápida mostra que houve intercâmbio de técnicas de tortura entre EUA e Brasil muito antes de Dan Mitrione).
Mas como vários grandes cineastas, como Hitchcock, Buñuel e Almodóvar, Tarantino cede às suas obsessões. É notória sua obsessão por pés femininos, ainda mais grandes como os de Uma Thurman, mas menos percebida ou comentada é como ele gosta de judiar das mulheres (nos filmes, é claro). Suas heroínas são habitualmente estupradas, torturadas, esfaqueadas e assassinadas. Depois de Uma em “Pulp Fiction” e “Kill Bill”, das pobres Vanessa Ferlito, Sydney Tamia Poitier, Jordan Ladd, Rose McGowan e Mary Elisabeth Winsted em “À Prova de Morre”;  Mèlani Laurent e Diane Kruger em “Bastardos Inglórios, agora é a vez de Kerry Washington comer o pão que o diabo amassou. Seu calvário é a motivação para que seu homem parta em sua Odisséia sem Ítaca. A opção por Foxx ao invés de Will Smith, como se pretendia inicialmente, foi acertada: ele passa a intensidade da paixão pela mulher que o leva a uma busca quase suicida.
Até que Django a encontre, Brunhilde Von Shaft (Kerry Washington) sofre muito
Tem razão quem acha que a Academia de Hollywood esnobou novamente Leonardo Di Caprio. Seu fazendeiro sulista é sensacional, e justifica ele ter sido a primeira escolha para ser o Coronel Hans Landa (Tarantino acabou preferindo um ator que falasse alemão fluente, para sorte de Waltz), especialmente em sua grande cena, em que cortou a mão de verdade.  Outro que brilha é Samuel L. Jackson como o mordomo f.d.p.. O personagem é uma ótima sacada, faz o roteiro escapar do maniqueísmo preto e branco. Gente como Spike Lee fica furioso por ele abusar do termo nigger em quase todos seus filmes, e seu parceiro desde “Pulp Fiction” dispara um a cada meio minuto. Assim como o holocausto judeu só foi possível com o auxílio e conivência dos próprios judeus, a escravidão nas Américas só foi possível com a participação ativa de muitos negros como o personagem de Jackson, que ainda manda um contemporâneo motherfucker para completar a provocação.
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Aliás, acabo de ler no ótimo “1493”, de Carl C. Mann (autor do igualmente fundamental “1491”), que “os africanos da região central insistiam que os visitantes europeus usassem a palavra portuguesa “negro” para se referir a escravo e a palavra portuguesa “preto” para se referir a africanos livres”. Daí, o termo pejorativo em inglês “nigger”, de negro, enquanto os afronorte-ameticanos se autodenominam “black”. Aqui, onde falamos português, é o contrário: “preto” é feio e negro que é “bonito”. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tarantino está de volta em "Django Livre"

O Django de Tarantino, Jamie Foxx, encontra o Django de Sergio Corbucci, Franco Nero
“Django Livre”, de Quentin Tarantino, chega aos cinemas brasileiros nesta sexta (inclusive Indaiatuba, obrigado Lui Cinematográfica). Quando o cineasta foi anunciado como vencedor do Globo de Ouro de Melhor Roteiro no último domingo, o crítico Rubens Edwald Filho – que não é exatamente fã dele – comentou que ele havia conseguido transformar seu nome em um subgênero cinematográfico, o que é uma proeza. Antes dele, talvez só Frank Capra com suas comédias otimistas; Alfred Hitchcocok, com suas obras-primas do suspense; John Ford e seus westerns; Cecil B. de Mille com suas superproduções, Woody Allen e seu humor “cabeça” e o antigo Steven Spielberg pré-“A Lista de Schindler” haviam conseguido isso.
Recentemente comprei o livro “Quentin Tarantino”, de Paul Woods, uma compilação de resenhas sobre sua obra publicado originalmente em 2005 e atualizado ano passado para incluir textos sobre “Sin City” (em que ele dirige a melhor cena), “A Prova e Morte” e “Bastardos Inglórios”. É decepcionante no geral, nem tanto por não conter material inédito, mas porque as análises arranham a superfície do fenômeno Tarantino, mas não sua essência. Em resumo, não é a mistura de gêneros como kung fu, samurai, western spaghetti, policiais B ou filmes de guerra italianos - considerados menores – que fazem dele um grande diretor, mas sim saber identificar o grande cinema em filmes pequenos e transferir isso ao seu trabalho. Isso o treinou para ter um olho cinematográfico como poucos. Considere seu segmento “O Homem de Hollywood” em “Grande Hotel”, inspirado em um episódio da série de TV “Alfred Hitchcock apresenta”. A câmera entra no apartamento como a visão subjetiva da personagem de Tim Roth, num longo take em que ela é apresentada pelo próprio Tarantino aos participantes da festinha.É inspirado em “Festim Diabólico”, do mesmo Hitchcock, é sozinha, a cena é melhor que tudo o que Alison Anders, Alexandre Rockwell (que fim deram?) e Robert Rodriguez fizeram nos metros de celulóide anteriores. E a abertura de “Bastardos Inglórios”, com a música de western spaghetti, o enquadramento em panorâmica enquanto o camponês francês corta lenha?  Introduz e forma perfeita e inusitada a visita amistosamente ameaçadora do coronel Hans Landa, que durante o filme só comete um ato de violência pessoalmente, mas ainda assim é um dos vilões mais fascinantes do cinema contemporâneo.
Aliás, violência é, sim, marca regirada do cinema de Quentin Tarantino, como o subtítulo brasileiro de Pulp Fiction vaticinava: a partir daquele trabalho começava um Tempo de Violência em Hollywood. Mas não se trata de apologia, banalização ou seja lá o que mais se tenha acusado o diretor. É uma estética tirada daqueles filmes “pequenos” dos irmãos Shaw, Sergio Corbucci, Enzo Castellari, Sonny Chiba e tantos outros. Por exemplo, após a orgia de laminas e sangue em Kill Bill, segue-se a quase poética luta entre a Noiva e Oren-Ishi, sobre a neve e ao som de Santa Esmeralda.
Em “À Prova de Morte”, no entanto, suas experiências com a violência atingiram o limite do suportável, e se constituiu em seu maior fracasso. Mas ele persistiu em sua estética sádica, só que mudando de alvo, de quatro jovens lindas para nazistas, tipo de vilão de quem ninguém tem dó. Em “Django Livre”, as “vítmas” do massacre também são igualmente desprezíveis, traficantes de escravos e sulistas escravocratas. Daqui a pouco vou ver e escreverei minhas impressões.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Globo de Ouro alfineta Oscar premiando Ben Affleck

Bill Clinton foi dar uma força para "Lincoln", do amigo Steven Spoelberg. Nãp adiantou muito...
Antigamente se dizia que o Globo de Ouro, segunda premiação mais importante do cinema americano, era uma espécie de prévia do Oscar. Não é e nunca foi, já que os votantes são muito diferentes (90 correspondentes estrangeiros no primeiro versus um imenso colégio eleitoral cuja misteriosa formação mistura ex-indicados, profissionais da área e gente que pouco tem a ver com a indústria) e há uma tendência do Globo ser mais ousado que a conservadora Academia de Hollywood. Em 2006, por exemplo, a Associação de Críticos Estrangeiros teve a coragem de eleger “Brokeback Mountain” como melhor filme, enquanto a Academia moitou, dando o Oscar para o condescendente “Crash”, mas premiando Ang Lee como melhor diretor.
Ontem, domingo, aconteceu a 70a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro, que também premia programas de televisão (é o segundo em importância do segmento, perdendo só para o Emmy). Tem mais cara de festa que o Oscar, já que os astros se sentam em mesas e a bebida rola solta ainda durante a premiação, e não só depois como no Kodak Center.
O bom “Argo” – único concorrente que assisti -- consagrou-se com os troféus de filme dramático e diretor para Ben Affleck, esnobado pela Academia, que não o indicou na categoria. O favorito Lincoln ficou com um solitário premio de ator para Daniel Day-Lewis. Este é, talvez, o grande ator de cinema em atividade, o que será confirmado se receber um inédito terceiro Oscar como ator principal. Sally Field, que estava cotada para atriz coadjuvante pelo mesmo filme, viu Anna Hathaway receber seu primeiro premio importante por “Os Miseráveis”. Seu equivalente masculino foi, de novo, Christoph Waltz por “Django Livre”, repetindo seu filme anterior com Tarantino, “Bastardos inglórios”, que o colocou no mapa do cinema internacional. Hugh Jackman no icônico papel de Jean Valjean, o herói de “Os Miseráveis”, foi o melhor ator em comédia ou musical, enquanto a jovem e talentosa Jennifer Lawrence (“Jogos Vorazes”, “X-Men Origens: Primeira Classe”) recebeu o premio como melhor atriz de comédia ou musical por “O lado bom da vida’.
Jessica Chastain foi a melhor atriz em filme dramático por “A Hora mais Escura”, o polêmico filme de Kathryn Bigellow (“Guerra ao Terror”) sobre a operação para matar Osama Bin Laden, que envolveria tortura para obtenção de informações. Como disse a apresentadora Tina Fey, a cineasta entende do assunto já que foi casada com James Cameron por três anos.  Jennifer e Jessica eram rigorosamente desconhecidas até 2010 e hoje já podem set consideradas estrelas.
Mostrando que os estrangeiros gostam mesmo dele, Quentin Tarantino recebeu o premio de melhor roteiro, enquanto o rotineiro “Valente” foi a melhor animação, numa lista significativamente diferente da do Oscar. Adele recebeu o premio por melhor canção por “Skyfall” e o canadense Mychel Danna pela trilho sonora de “As Aventuras de Pi”. O filme estrangeiro vencedor foi “Amor”, de Michael Hanecke, também favorito ao Prêmio da Academia.

A relativa ousadia pode ser vista também nas premiações para TV, como a elogiada “Girls” abocanhando os prêmios de melhor séria de comédia – contra os sucessos “The Big Bang Theory” e “Modern Family” – e atriz para a criadora do programa, Lena Dunhan. “Homeland”, que já havia ganhado o premio de melhor série dramática e atriz para Claire Danes no ano passado, repetiu a dose e ainda teve o reforço do troféu para o protagonista masculino, Damien Lewis. A brasileira Morena Baccarin bem poderia levar um premio como atriz mais bonita da TV, se houvesse...
O telefilme “Virada no Jogo”, sobre a campanha presidencial derrotada de John Mccain, recebeu o premio da categoria e também de melhor ator coadjuvante para Ed Harris como o candidato republicano derrotado por Barack Obama em 2008, e para Julianne Moore, enfim ganhando uma láurea importante no papel da governadora do Alaska, Sara Palin, o que rendeu piadas de Tina Fey, cuja semelhança com a candidata a vice-presidente foi constante fonte de sátiras no “Saturday Night Live”. John Cheadle, como melhor ator de série de comédia ou musical por “House of Lies”, a dame Maggie Smith por “Downtown Alley” como atriz coadjuvante em minissérie ou filme para TV, e a ressurreição da carreira de Kevin Costner, melhor ator de minissérie ou filme para TV por “Hatfileds & McCoys”, completaram as premiações para telinha.
Jodie Foster fez um discurso corajoso ao receber o premio Cecil B. de Mille

Dois momentos marcantes da cerimônia foram a presença do ex-presidente Bill Clinton, que anunciou o clipe de "Lincoln", do amigo Steven Spielberg, e o discurso de Jodie Foster ao receber o premio Cecil B. de Mille por sua carreira de 47 anos. Ao contrário das falas protocolares, Jodie foi fundo ao falar sobre a exposição precoce, amizades, profissionalismo e sua "saída do armário anos atrás, na idade da pedra".