sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Futebol ontem e hoje

Com a proximidade da Copa do Mundo, comparações entre as competições passadas e antigas começam a fazer parte das pautas jornalísticas, blogs e bate-papos de boteco. Enquanto saudosistas como Fernando Calazans e Armando Nogueira suspiram pelos passes de Didi e os dribles de Garrincha, gente que começou a acompanhar futebol a partir de Maradona – ou pior, Romário – acham que os velhos craques não jogariam tudo aquilo diante da marcação dos volantes e zagueiros velozes e aguerridos de hoje. Talvez....


Sempre digo que uma das poucas vantagens de ser velho é ter visto o melhor time de futebol de todos os tempos (segundo a revista inglesa World Soccer) jogar na melhor Copa de todas. È a seleção de Pelé, Rivelino, Gerson, Tostão e Jairzinho no México em 1970. Podemos dizer que é quando começou o futebol moderno. Foi a primeira competição a permitir substituições, a advertir com cartão amarelo e a usar uma bola moderna, em lugar das antigas “de capotão”. Além disso, vários países levaram ao torneio seus melhores times em anos, casos da Itália – que tinha o grande Gigi Riva -, do Uruguai – com a base do Peñarol, que dominou o futebol sul-americano e mundial depois do Santos abdicar da Libertadores - , da Alemanha – com o jovem Beckenbauer, o mortífero Gerd Muller e o lendário Uwe Seeler em sua última Copa – e da própria campeã do mundo Inglaterra, que muitos achavam ter um elenco superior ao de 66.

Também foi a primeira Copa em cores – ainda que tenha sido transmitida em preto-e-branco para o Brasil – e com replay, por isso suas imagens revistas pareçam mais contemporâneas que das copas anteriores. Já se marcava forte, sendo que a maioria dos times já jogava no 4-3-3 ao invés do 4-2-4 predominante até os anos 60. E como aquele Brasil inesquecível se distribuía em campo? No gol, tínhamos um goleiro mais ou menos, Felix, que falhou quando dava (contra o Uruguai e, ironicamente, Peru) e segurou quando foi indispensável (contra a Inglaterra, quando fechou o gol mais que o próprio Banks). Na lateral direita, Carlos Alberto, quase um ala, já que descia para apoiar. Na zaga central, o rústico, mas atlético Brito e o volante Piazza atuando na quarta-zaga. O lateral esquerdo era o discreto Everaldo, que não passava do meio de campo. A partir daí, começava o dream team: Clodoaldo, um volante abusado, que marcava mas também driblava e fazia gol, como o de empate contra o Uruguai na semifinal; Gerson, o meia-esquerda e cérebro do time, com seus passes de 40 metros; Jairzinho como falso ponta-direita, costumava vir de trás para finalizar, sendo o único jogador a fazer gol em todas as partidas de uma Copa do Mundo; Pelé, na melhor forma física de sua carreira, cuja maior marca nessa competição foram os gols não marcados, tal a beleza dos lances; Tostão, falso-centro avante que atuou como pivô para quem vinha de trás; e Rivelino, falso ponta-esquerda que era ídolo de Maradona por causa de sua perna esquerda. Paulo César, depois chamado Caju, era o reserva de luxo de Gerson, com atuação de gala contra a Inglaterra. Diz a lenda que, de Clodoaldo para a frente todo mundo era camisa 10 em seus clubes. Não é verdade, já que Tostão era 8 no Cruzeiro, sendo a 10 de Dirceu Lopes.

Os mais velhos argumentam que, comparando posição por posição, a seleção de 58-62 era superior, assim como os mais jovens podem achar, pelo mesmo critério, que a equipe de Tele Santana em 82 era melhor. Mas o que faz um time de futebol é o que ele apresenta em campo coletivamente e não apenas o talento individual de cada jogador. Fosse assim, o bando de 2006 podia levar a taça por antecipação, como todo mundo parecia acreditar. Dizem que Zagallo pegou o time já montado por João Saldanha, o que está muito longe da verdade. O lendário jornalista era um monumento de teimosia e achava que Pelé e Tostão não podiam jogar no mesmo time. O Velho Lobo, escolado pela Copa de 58, quando era jogador, devia ter aprendido algumas coisas. Primeiro, que nem sempre o melhor é o mais adequado. Só se ele fosse completamente idiota para ignorar que na sua posição havia dois jogadores muito melhores naquele tempo: Pepe, do Santos, e Canhoteiro, do São Paulo. Vicente Feola optou por Zagallo para dar sustentação ao meio-de-campo, já que ele costumava recuar para ajudar a marcação. Segundo: o craque sempre tem lugar no time. É famosa a história de que Nilton Santos, Didi e companhia haviam obrigado Feola a escalar Pelé e Garrincha contra a União Soviética, na terceira partida do torneio na Suécia. Os envolvidos negam, mas a lenda ficou. E o que fez Zagallo? Ao invés de impor um esquema a seus jogadores, adaptou-o ao talento deles. Como o meio de campo praticamente só tinha Clodoaldo marcando (e ainda assim...), o time todo recuava quando não tinha a bola. Os chamados atacantes não marcavam propriamente, mas ocupavam espaços, o que compensava a fragilidade do miolo de zaga. Em compensação, quando estava com a bola, era uma beleza. Do quarto-zagueiro ao ponta-esquerda todo mundo sabia o que fazer com a pelota. Com o time chegando ao ataque com Jarizinho, Pelé, Tostão, Rivelino e às vezes, o próprio Gerson, Clodoaldo e até Carlos Alberto como elemento surpresa, a marcação adversária ficava perdida. A Itália, então, com sua clássica marcação individual, e depois da estafante batalha contra a Alemanha na semifinal, foi presa fácil para esse Brasil, que marcou dois dos quatro gols com os chamados “homens vindos de trás”, Gerson e Carlos Alberto.

A Inglaterra, no entanto, no jogo mais difícil do Brasil, fazia uma partida equilibrada, quando Tostão limpou quase toda a defesa adversária e cruzou para Pelé, que ao ver dois zagueiros fechando em cima dele, tocou sem olhar para Jair, que penetrou livre na área e marcou o único tento do jogo. A jogada uniu o talento individual de Tostão, que desmontou o esquema defensivo inglês, com esquema de jogo, pois o lance com Pelé foi típico em toda a competição. Outro momento em que o jogo individual decidiu um impasse foi quando Clodoaldo partiu para o ataque, tabelou na intermediária e marcou o gol de empate contra o fantasma uruguaio.

pele3

Por outro lado, a Copa do México marcou a despedida de várias coisas. Foi a última de Pelé, que preferiu sair no auge e na imbatível condição de único tricampeão até hoje. Foi a última vez que os interesses dos clubes estrangeiros não interferiram com a cabeça dos jogadores (quatro anos depois, Jairizinho e Paulo César, já Caju, foram acusados de economizar suas canelas por conta de contratos milionários com clubes europeus). Também por 24 anos, a gigantesca sombra desse escrete se projetou sobre o futebol brasileiro, até a vitória literalmente suada na Copa de 1994, que só não foi tão ruim quanto a de 1990 porque nós ganhamos.

Mas voltemos sobre a comparação do futebol de ontem e hoje que originalmente motivou este gigantesco post. Sim, o jogo era mais lento antigamente, os zagueiros ficavam parados na frente do atacante esperando para ver para que lado ele ia ao invés de entrar de sola como hoje. O preparo físico hoje é outro e não dá tempo para o meia-esquerda parar e pensar para quem passar. Mas, por outro lado, a bola “de capotão” pesava muito mais, principalmente quando molhada. O resto do equipamento esportivo também era primitivo, principalmente as chuteiras quando comparadas com as de hoje. Não havia substituição, a não ser para o goleiro.

socrates

Além disso, quem garante que com o condicionamento físico de hoje, os craques de ontem não se sairiam bem também? O melhor exemplo é Pelé, que no auge da forma fazia 100 metros rasos com índice olímpico de então. O contra-exemplo seria Gerson, que fumava como uma chaminé e não dava um pique de 30 metros. No entanto, temos o doutor Sócrates, que foi grande mesmo já atuando em tempos mais modernos e passava longe do termo atleta. A incógnita é Garrincha, com seu evidente defeito físico que o classificaria como aleijado (eram tempos politicamente incorretos) para qualquer outro esporte que não o futebol. Matinas Suzuki Jr. acha que ele não sobreviveria no jogo praticado hoje. Difícil saber, mas ele não era apenas um malabarista da bola como nossos Denílson, Robinho e companhia. Sabia ser objetivo a ponto de ser um dos únicos a ganhar uma copa do mundo sozinho (os outros foram Paolo Rossi em 1982, Maradona em 1986 e Romário em 1994). Em tempos de cirurgia de menisco por laparocospia, quem sabe sua carreira poderia ter s estendido, sem as infiltrações da época?

garrincha-21

A verdade é a seguinte: seja como for, com absurdos de abitragem, os exageros de politicagem da FIFA e a condição de fim de temporada em que a maioria dos jogadores chega à competição, o fato é que a Copa do Mundo é a grande festa do futebol mundial, momento em que o planeta bola volta os olhos para o encontro de craques, escolas futebolísticas e momentos inesquecíveis para o amante do esporte.

Um comentário:

susan disse...

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Susan

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