sexta-feira, 19 de maio de 2017

Corra! – Um filme a ser visto

Consagrado com o percentual de 99% de avaliações positivas no Rotten Tomatoes, o site americano que recolhe críticas de filme em todos EUA, “Corra!” estreia esta semana no Brasil. O autor – diretor e roteirista – é Jordan Peele, um comediante praticamente desconhecido por aqui (mas que já ganhou um Emmy em 2012), que conseguiu juntar cerca de 5 milhões de dólares para realizar seu projeto, que arrecadou quase 175 milhões até o dia 15 deste mês.

Daniel Kaluuya (da série “Black Mirror”) é o jovem fotógrafo negro Chris Washington, que namora a hipster branca Rose Armitage (Allison Williams, do seriado “Girls”, em sua estreia no cinema). Eles partem em viagem para visitar os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Withford, do melhor seriado político americano – fuck “House of Cards” – “The West Wing”) e a terapeuta Missy (Catherine Keener, de “Quero ser John Malkovich” e “O Virgem de 40 anos”), além do irmão esquisitão Jeremy (Caleb Landry Jones, o Banshee de “X-Men: Primeira Classe”). Ele fica sabendo que o pai votaria no Obama para um terceiro mandato, que a mãe usa hipnose para curar tabagismo e que o irmão tem tendências psicopatas. Além disso, o caseiro e a criada negros comportam-se como zumbis. Mas a coisa pior quando ele fica sabendo que naquele fim de semana acontece uma grande festa cheia de brancos ricos e esquisitos, que o tratam com uma condescendência acima do normal, e que o único negro presente além dele, Andrew (Lakeith Stanfield, de “Straight Outta Compton”) também parece um morto vivo.  Mas um incidente faz com que Andrew desperte e grite para Chris o título do filme: Corra! Ou Get Out, em inglês.

Até então o que me vinha à mente era que se tratava de uma espécie de “Esposas de Stepford” (eu por sua vez é nitidamente inspirado em “Vampiro de Almas”) com negros. Mas aí vemos que o negócio é outro, e mais aterrorizante. A virada final é sensacional e faz  filme ganhar vida. Chris, até então se comportando como negro “civilizado” em um campo minado, tem que lutar por sua vida de forma inesperada.

Se nos EUA o filme causou um grande impacto, aqui ele recebeu resenhas mornas do meu amigo Ângelo Cordeiro, no Nerd Interior, e Marcelo Hessel, no Omelete. Acho que a diferença é de contexto. Numa América pós-Obama e em pleno governo Trump, o clima opressivo do filme causa identificação imediata. Não é apenas o racismo segregacionista, mas os clichês dominantes entre os brancos sobre negros. Possivelmente a visão de humorista do diretor Peele seja responsável por este mérito de “Corra!”. E pouco depois de ver o brazuca “O Rastro”, outro terror que aborda temas contemporâneos, admiramos ainda mais as soluções do roteiro americano.

A escalação do elenco é outro trunfo do filme, desde o protagonista Daniel Kaluuya, passando pelo seu melhor amigo Rod, um segurança de aeroporto interpretado por LilRel Howery (do sitcom de curta vida “The Carmichael Show”), pela família da moça e os criados, especialmente na caracterização sinistra de Betty Gabriel.


Não costumo dar notas neste blog, mas como agora colaboro intermitentemente com o Nerd Interior, que pede notas, dou 8/10. Para mim mais satisfatório dentro do tema que o vencedor do Oscar “Moonlight”.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Dia do Atentado: já vimos e vale a pena

O Dia do Atentado chega ao Brasil nesta semana contando a histórias das bombas detonadas na Maratona de Boston, em 2013. O filme traz no elenco o astro Mark Wahlberg (Transformers: A Era da Extinção), Michelle Monaghan (Missão: Impossível 3), Kevin Bacon (série The Following), J.K. Simmons (Whiplash) e John Goodman (Rua Cloverfield, 10). Prestando atenção você verá a Supergirl da TV, Melissa Benoist, no papel da mulher de um dos dois terroristas.

Para quem está cansado do festival de efeitos especiais e fantasia que assola os cinemas, é um ótima opção, que conta um acontecimento recente de forma séria e quase sem apelações. O diretor Peter Berg, que repete a parceria com Wahlberg que já havia ocorrido em Horizonte Perdido: Desastre no Golfo e O Grande Herói, conduz a trama quase como uma daquelas reconstituições históricas dos canais Discovery, National Geographic ou History (só que com elenco estelar), acompanhando determinados participantes da tragédia desde pouco antes das explosões. Wahlberg interpreta o sargento Tommy Saunders que, ao contrário da maioria dos personagens, é uma composição de diversos policiais que acompanharam os fatos, do atentado à caça aos criminosos. O título original, Pattriots Day, se refere ao feriado estadual que lembra a batalha de Lexington, na Guerra da Independência, quando acontece a maratona.


É notável a preocupação com a fidelidade aos fatos, como no atrapalhado tiroteio entre a polícia e os dois terroristas, incluindo o discurso final do jogador David Ortiz, durante o jogo dos Red Sox, em que ele usa a palavra fuck em transmissão nacional, mas que acaba impulsionando o time para a conquista da World Series, o campeonato de beisebol que os americanos chamam modestamente de “mundial”. A reconstituição da tragédia também deixa claro que este maior atentado nos EUA após o 11 de setembro foi perpetrado por dois amadores sem nenhuma conexão com redes terroristas, movidos apenas por teorias conspiratórias e armados com uma pistola e diversas bombas caseiras. Estava mais para Columbine que para World Trade Center e, no entanto, paralisou uma das maiores cidades americanas e mobilizou praticamente todos os recurso de segurança municipais, estaduais e nacionais. É de se pensar.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera: já vimos

Um dos filmes mais esperados do semestre – pelo menos pelas mulheres – a versão live action de “A Bela e a Fera” chega esta semana nos cinemas brasileiros. Emma Watson, a eterna Hermione da franquia “Harry Potter”, estrela a produção que traz Dan Stevens, protagonista da ótima série “Legion”, como a Fera. Luke Evans,  o Vlad de “Drácula, a história nunca contada”, é o vilão Gaston e Josh Gad, de “Pixels”, seu valete Le Fou.

Para mim, este “A Bela e a Fera” remeteu mais ao universo do seriado “Once upon a time” que à animação que foi a única até hoje a concorrer ao premio principal do Oscar. Todo mundo conhece a história, decerto, mas há mais canções (até demais) e consequentemente mais metragem (zzz...). A ação se passa numa França que parece ter perdido a Guerra dos 100 anos, dada a quantidade de britânicos no elenco – além de Emma, Evans e Stevens, ainda tem Ewan McGregor (“Trasnpotting”), Ian McKellen (o Gandalf de  “Senhor dos Anéis”) e Emma Thompson (“Simplesmente Amor”) como os utensílios animados do castelo. A presença da atriz e cantora seis vezes vencedora do Tony, Audra McDonald, sugere que teremos em breve uma versão para o palco do filme.


Embora Hollywood adore um sotaque britânico e considere os súditos de Elizabeth II melhores atores, a atuação do elenco é irregular, com estaque negativo para Luke Evans, definitivamente canastrão como vilão. Josh Gad, por sua vez, surpreende como seu comparsa e, talvez, algo mais. O ótimo Kevin Kline interpreta o pai de Bela, num desperdício e um ator que já viveu dias melhore, como em seu merecido Oscar por “Um peixe chamado Wanda”. Dan Stevens se esforça para atuar debaixo de uma roupa que tinha até ventilador no traseiro e com a voz alterada eletronicamente, e Emma Watson, bom, faz tempo que ela trabalha mais com sua persona pública que como atriz. O CGI é surpreendentemente ruim, especialmente depois de assistir há pouco “Kong – A Ilha da Caveira” e levar em consideração que trata-se de uma produção Disney. Não que nada  disso importe para o público-alvo, que são as mulheres que tem no desenho animado de 1991 uma referencia afetiva. Para estas, vai valer a ida ao cinema.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

As apostas para o Oscar 2017

Mais uma vez, em plena folia carnavalesca aqui no Brasil, a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood realiza a mais importante premiação do mundo do entretenimento: O Oscar. Para nós, brasileiros, a festa cair no domingo de Carnaval significa que só quem tem TV a cabo vai assistir ao show, já que a Globo vai priorizar o desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Baseado em meus anos acompanhando a premiação – uma das únicas vezes que perdi a transmissão ao vivo foi culpa dos Irmãos Piologo –  dou aqui meus palpites para domingo, lembrando que o Oscar é, basicamente, uma autocongratulação da indústria cinematográfica americanas, e não um premio aos melhores, ainda que se venda assim.
Para melhor filme, não tem choro nem vela: “La La Land – Cantando Estações” só não será anunciado como grande vencedor se o meteoro cair antes (em pleno Carnaval?). Seus principais rivais, “Manchester á beira mar” (que vi) e “Moonlight – Sob a luz do luar” (que não vi), não tem o peso necessário para derrubar o filme de Damien Chazelle, que também é franco-favorito para Melhor Diretor e Roteiro Original. A estatueta de Roteiro Adaptado pode ir para “Moonlight”.

Na área das atuações, Emma Stone é barbada como Atriz, mesmo com Isabelle Hupert no páreo pelo soberbo “Elle”, inexplicavelmente fora da corrida de Filme Estrangeiro. Como Gwyneth Paltrow em 1999, Emma está no filme queridinho de todos (então, “Shakespeare Apaixonado”)  e a comunidade de Hollywood tem a necessidade de consagrar uma estrela ascendente para a manutenção do Star System. Não funcionou tanto assim para Gwyneth, mas certamente colocou Jennifer Lawrence num patamar diferenciado em 2013.A moça dos olhos grandes não apenas carrega “La La Land” nas costas como vem construindo uma sólida carreira. Entre os atores, o páreo é mais difícil. Casey Affleck, por “Manchester à beira mar”, é o favorito dos críticos, mas Ryan Gosling pode ser carregado pela maré de “La La Land”. Denzel Whashington (“Um limite entre nós”) corre por fora, mas acho difícil que ele leve o bi. Entre os coadjuvantes, já passou da hora de premiar a extraordinária Viola Davis (“Um limite entre nós”), em sua terceira indicação. Acho que sua principal concorrente é Naomi Harris por “Moonlight”. Entre os Atores Coadjuvantes, Mahersala Ali, também de “Moonlight”, é tido como favorito, mas tem nos seus calcanhares Jeff Bridges, em mais uma grande caracterização no ótimo “A Qualquer Custo”, também concorrente a Melhor Filme e cartaz do Cineclube Indaiatuba na última terça, com reprise neste sábado de Carnaval.

Uma das categorias mais recentes, o de Animação, tornou-se uma das mais populares graças à evolução técnica e artística de estúdios como Pixar, Dreamworks e outros. Este ano, entretanto, a veterana Disney deve levar com o surpreendente “Zootopia”, que parecia mais um filme de bichinho e se revelou uma sofisticada paródia sobre vários aspectos da sociedade humana. Já para Filme Estrangeiro – ou de língua não-inglesa – já vi “O apartamento”, do iraniano Ashgar Farahdi (que tenta o bi, após ganhar em 2012 com “A separação”), que é ótimo, mas o favorito é o alemão “Toni Erdmann”, que fez Jack Nicholson cogitar deixar a aposentadoria para estrelar o remake americano da trama.

Na TV

Com a Globo privilegiando a Sapucaí, resta aos cinéfilos o canal pago TNT, a partir das 21h, com entrevistas dos astros no tapete vermelho cargo de Carol Ribeiro. A cerimônia em si terá comentários de Domingas Person e do secretário da Cultura de Paulínia, Rubens Edwald Filho. No especial que a Globo vai exibir na segunda-feira, após o Especial de Carnaval, a equipe será formada por Artur Xexéo, Cristiane Pelajo e Miguel Falabella no lugar que no ano passado foi de Glória Pires. Ele certamente trará mais informação, mas dificilmente repetirá os memes da atriz.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O que bombou - e o que não - em 2016 no Cinema e TV

2016 não foi o melhor dos anos por diversos motivos, mas na área do entretenimento, tivemos coisas legais, coisas muito legais e outras que decepcionaram totalmente. A origem deste post foi um proposta do site Nerd Interior para um Top 5 do Cinema e TV, mas achei cinco muito pouco, então vamos ao que de melhor e “pior” vimos no ano que passou.

O que bombou

Ryan Reynolds finalmente emplacou um super-herói
1.      Deadpool – Após o vexame de “X-Men Origens: Wolverine”, Ryan Reynolds emplacou sua visão do personagem e, além de bombar nas bilheterias, conseguiu as primeiras indicações para o Globo de Ouro para um filme “de super-herói”.
2.      Capitão América: Guerra Civil  x Batman vs Superman – Com temas muito parecidos, as duas produções estrearam com pouca diferença entre elas, mas na hora do “vamos ver”, deu Marvel tanto em bilheteria quanto nas críticas. Se não cumpriu todas as expectativas dos fãs, pelo menos o encontro entre os maioes super-heróis dos quadrinhos deu a partida para o aguardado universo compartilhado da DC. E Ben Affleck nes deu a perspectiva de novos filmes do Homem-Morcego.
3.      Filmes do Oscar – Tivemos uma boa fornada do Oscar este ano, com os muito bons “A Grande Aposta” e “Spotlight – Segredos Revelados”, o elegante “Carol” e o surpreendente “O Quarto de Jack”.

Sônia Braga em seu grande triunfo pessoal: "Aquarius"
4.      Aquarius – Filme tem a melhor atuação da carreira de Sônia Braga e consolida Kleber Mendonça de Toledo como um dos principais cineastas brasileiros do cenário contemporâneo.
5.      O Silêncio do Céu – A surpreendente produção Mercosul foi dirigida pelo brasileiro Marcos Dutra, rodada em Montevidéu, baseada em romance do argentino Sergio Bizzio, que também assinou o roteiro com a compatriota Lúcia Puenzo e pelo brazuca Sergio Gotardo. A estrela global Carolina Dieckman se despiu da persona televisiva para atingir um outro nível de atuação, secundada pelo portenho Leonardo Sbaraglia, de “Relatos Selvagens” e com o coadjuvante de luxo Chino Darin, filho de Ricardo. Ajuda a entender porque a média do cinema feito na Argentina é tão superior ao nosso.
6.      A Chegada – Denis Villeneuve surpreendeu as plateias de diversos festivais ainda em 2015, e quando ele finalmente chegou ao Brasil, acabou não sendo  hype esperado. Mas é porque é o scifi fora da curva, abordando possibilidades da Física Quântica que parecem eventos paranormais para o grande público.

Rogue One foi o melhor blockbuster do ano
"Stranger Things" trouxe os anos 80 de volta à televisão
7.      Rogue One: Uma história Star Wars – A expectativa quanto a esse primeiro spin-off cinematográfico da franquia era grande, mas o filme correspondeu e ainda fez um link afetivo com o original que levou os fãs às lágrimas. Pelo menos no meu caso.
8.      Westworld – O seriado criado para substituir Game of Thrones na HBO trouxe produção, orçamento e atuações de cinema. As ótimas Evan Rachel Wood e Thandie Newton foram injustamente esnobadas no Globo de Ouro.  
9.      Stranger Things – O grande hype do primeiro semestre na TV, foi uma ode aos anos 80. A segunda temporada está sendo filmada a toque de caixa antes que os adolescentes cresçam de mais.
10. Game of Thrones – Em sua reta final, a série apresentou a melhor temporada até agora, tendo A Batalha dos Bastardos como ponto alto, o episódio mais caro já rodado para a televisão.

O que flopou


Toda a sofrência de Leo di Caprio não faz valer "O Regresso"
1.      O Regresso – Fez Alejandro Iñarritu ganhar o bi como diretor no Oscar e deu a sonhada estatueta para Leonardo Di Caprio. Mas foi muito barulho para pouco.
2.      O Filho de Saul – Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro, a produção húngara dirigida por László Nemes é uma decepção. O candidato brasileiro que não chegou à final, “Que horas ela volta?”, é muito melhor.
3.      Esquadrão Suicida – Caso em que o trailer era infinitamente melhor que o longa. Como em “Batman vs Superman”, a DC não teve firmeza de manter o projeto original e acabou tentando colar no sucesso de “Deadpool”. Não funcionou, mas deu dinheiro.

Nova geração de "X-Men" não emplacou em "Apocalipse"
4.      X-Men: Apocalipse – Os erros da Fox com os mutantes da Marvel e da Sony com o Homem-Aranha (sem falar da DC...) mostram como é difícil fazer o que a Marvel fez. Não adiantou fazer o reboot em “Dias de um futuro esquecido”, eles ainda pisam na bola da continuidade. Mas esse foi o menor dos problemas do filme.
5.      Warcraft – Anunciado como o filme inspirado em videogame que venceria a escrita do subgênero. Não rolou.
6.      Ben Hur – Se pedissem minha opinião antes de investir nesse remake, eu diria, “não faça isso”. Não apenas porque o original de 1959 é um clássico, mas porque fazia sentido na época, dentro do ciclo dos filmes bíblicos da época. Hoje, foi apenas um anacronismo que custou os tubos e não rendeu nada.

Trupe da Porta dos Fundos não acertou a mão no cinema
7.      Porta dos Fundos – Contrato Vitalício - Este é um caso oposto. No cenário atual do cinema brasileiro, um filme do mais bem sucedido canal de humor da internet, que já rendeu um bom programa na TV por assinatura, ´parecia tiro certo. Foi, só que no pé.
8.       Luke Cage – Vá lá que a segunda temporada de “Demolidor” não foi tão boa como a primeira, mas teve o Justiceiro de Jon Bernthal para redimí-la. Mas a aguardada série do herói do Harlem tinha material para, no máximo, dois telefilmes. O resto foi preenchido com muita conversinha e ação meia-boca.
9.     Vinyl – Sei que muita gente achou o máximo, mas esta superprodução assinada por Martin Scorcese (que ainda dirigiu o primeiro – e péssimo – episódio) e Mick Jagger foi um fracasso em todos os sentidos. Nem a HBO, que costuma bancar apostas altas, teve coragem de arriscar mais uma temporada.
"Vinyl" foi o grande fracasso da HBO este ano
10.  Pure Genius – Poderia falar de “Walking Dead”, cuja atual temporada está sendo considerada a pior de todas pelos críticos americanos, mas não acompanho há anos. Dentre tantas apostas que morreram na primeira temporada este ano, incluí este programa porque ele está sendo exibido no Brasil pela Universal, que é uma Multishow dos seriados da TV por assinatura: todo pacote básico tem. É uma tentativa de fazer um “House” do bem (tem até a última médica bonitona do Departamento de Diagnóstico, Odette Annable), o que obviamente não funciona.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Globo de Ouro 2017: abertura e discurso de Meryl Streep foram o melhor da noite

Ryan Gosling e Emma Stone comemorando seus prêmios
Já na abertura do Globo de Ouro ontem, dia 8, já dava para adivinhar quem seria o grande vencedor. Foi uma grande paródia da sequencia inicial de “La La Land: Cantando Estações”, com a participações de representantes de diversos concorrentes, como Amy Adams em "A Chegada", o elenco de "O Povo contra O.J. Simpson" (reparem no Travolta), os garotos de “Stranger Things” e Kit Harrington, o Jon Snow de “Game of Thrones” (o melhor). Pena que o resto do trabalho do apresentador Jimmy Fallon tenha sido uma decepção, possivelmente por causa do seu estilo “amigo de todo mundo”, que faz com que evite confrontos, mesmo num tempo como atual.


Quem não se conteve e saiu do protocolo foi a homenageada com o Prêmio Cecil B. De Mille, Mery Streep. Do alto de seu prestígio como a grande Atriz Americana de nosso tempo – e um vídeo com momentos de sua carreira deixaram isso bem calro -  mesmo afônica, ela deu voz à indignação da maioria da classe artística americana com os atos e pronunciamentos do presidente eleito Donald Trump. Falou sobre bullying contra portadores e deficiência, da diversidade cultural e étnica da indústria do entretenimento, citando as origens de diversos colegas presentes. Numa cerimônia promovida por jornalistas, a atriz frisou a importância que a impresna responsável terá nos próximos anos, e encerrou lembrando sua amiga Carrie Fisher – a quem interpretou no filme à clef “Lembranças de Hollywood”: “Como diria minha amiga Princesa Léia, que nos deixou, me disse uma vez: pegue seu coração partido e o transforme em arte”.


Nos prêmios propriamente ditos, “La La Land – Cantando Estações” foi o grande vencedor, batendo o recorde da premiação, com sete troféus: Melhor Filme, Ator (Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone) em Musical ou Comédia, Diretor (Damien Chazelle), Roteiro, Trilha Musical e Canção Origi9nal (“City of Stars”). Na categoria Drama, as coisas ficaram mais divididas, com “Moonlight” levando Melhor Filme, Casey Affleck sendo premiado como Aror por “Manchester à Beira Mar” e Isabelle Hupert como Atriz por “Elle”. Os prêmios de Coadjuvante ficaram com Aaron-Taylor Johnson por “Animais Noturnos” e Viola Davis por “Fences”. O polêmico “Elle” venceu na categoria Filme Estangeiro, ressuscitando a carreira do diretor Paul Verhoeven (autor do “Robocop” original e de “Instinto Selvagem”), e “Zootopia” foi a Melhor Animação (outra bola cantada).

Reese Witherspoon e Nicole Kidman como a nova dupla Missouri & Mississipi
Os prêmios em TV foram mais discutíveis. Melhor Série Dramática para “The Crown” em um ano em que “Stranger Things” e “Westworld” causaram? A inglesinha sem sal Claire Foy (A Elisabeth II em “The Crown”) melhor que Evan Rachel Wood (“Westworld”)? E, pior ainda: o que é considerada a melhor coisa em “The Crown”, que é John Lithgow como Churchill, acabou perdendo para Hugh “House” Laurie por “The Night Maneger”, que foi um vencedor inesperado ganhando na categoria Filme para TV ou Minissérie, com os prêmios de Ator (Tom Hiddelston), o já citado Hugh Larie e ainda Olivia Colman como Atriz Coadjuvante. Assim, o badalado “O Povo contra O.J. Simpson” ficou apenas com o principal da categoria e o de Atriz para Sarah Paulson.

Por outro lado, as vitórias de “Atlanta” como Séie Musical ou Comédia e de seu idealizador e protagonista, Donald Glover, como Ator no gênero; e de Tracee Ellis Ross (filha de Diana Ross) como coadjuvante por “Black-ishi” parece uma resposta ao Oscar “branco” do ano passado. Ah, sim: Billy Bob Thorton ganhou o premio de melhor Ator em Série Dramática por “Goliath”, mas who cares? 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Debate entre os candidatos a prefeito de Indaiatuba


O início do debate, em foto da colega Samanta de Martino postado no Facebook
O Debate entre os candidatos a prefeito de Indaiatuba, que aconteceu ontem, dia 20, na Faculdade Max Planck, foi um momento histórico na história da cidade. Organizado pela instituição de ensino em parceria com a 113ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o evento foi transmitido com exclusividade pela TV Sol Comunidade, que se por um lado constituiu um desafio técnico e, por que não dizer, de credibilidade para a emissora, por outro deixou de fora a imensa maioria do eleitorado, já que apenas assinantes da NET tem acesso á sua programação. Uma abertura para transmissão on line daria uma importância e alcance muito maior. Mas não dá para excluir o componente comercial da equação, já que não deixa de ser um programa de televisão, que tem que se pagar.

Todos os candidatos compareceram: o favorito Bruno Ganem (PV), o situacionista Nilson Gaspar (PMDB), Rinaldo Wolf (PT), Gervásio Silva (PTB) e Emanoel Messias (PMN).  Isso provavelmente não aconteceria se a iniciativa fosse somente da TV, já que nesse caso, o mediador seria o “repórter” policial Rubinho Queiroz. Obviamente, como me informaram os irmãos Flavia Vaz e Caio Guimarães, que chefiam a redação da TV Sol, isso foi descartado após o escândalo do vazamento do áudio em que o “repórter” foi flagrado maquinando em favos do candidato Nilson Gaspar (PMDB). A organização da Max Planck com o aval da OAB deu um caráter se isenção ao debate, que aconteceu de forma democrática e dentro das regras pré-estabelecidas e aceitas por todos os participantes. O senão foi o atraso de 45 minutos, que carregou toda a programação até altas horas.

Esse tipo de encontro serve para que os postulantes apresentem suas ideias e mostrem a que vieram na campanha. Assim, Ganem demonstrou preparo para expor suas propostas, ideias novas e uma agressividade moderada contra o ponto fraco da atual administração, que são os processos criminais de corrupção que levaram o prefeito licenciado Reinaldo Nogueira para a cadeia e envolvem o próprio candidato Gaspar, que teve o sigilo bancário quebrado pela Justiça. Foi aplaudido quando citou o sumiço dos R$ 53 milhões aplicados pela atual administração em um banco posteriormente liquidado pelo BC, contrariando a legislação, e o que poderia ter sido feito com esses recursos. Sublinhou por diversas vezes seu conceito de Cidade Inteligente, que por meio da tecnologia pretende maximizar os recursos e agilizar o atendimento à população. Com esperteza, usou algumas perguntas, até de adversários, para falar de seu próprio plano de governo, como um veterano em debates. Oito anos de trabalho legislativo valem alguma coisa.

Gaspar por sua vez, embora bem treinado, como Ganem, a usar todo o tempo disponível, demonstrou muito nervosismo a princípio, já que é neófito em campanhas eleitorais e insistiu no discurso da continuidade, de que em time que está ganhando não se mexe, o que até faria sentido não fosse a prisão de seu padrinho e mentor, em um processo de desapropriações fraudulentas, o que significa corrupção administrativa. E o nome da coligação é "Reinaldo Nogueira". Gaspar também não teve resposta à acusação de Gervásio sobre a participação de integrantes da mídia, em tese isenta, em sua campanha, revelada no mesmo escândalo de vazamento de áudio supracitado. Em vez disso, repetiu a história de que Bruno tem por trás de sua candidatura os irmãos José Carlos e Flávio Tonin, ambos ex-prefeitos, para quem não conhece a história da cidade. A comissão julgadora formada por diretores da OAB local indeferiu o pedido de resposta pedido pela assessoria de Ganen, talvez porque seus integrantes também já estivessem cansados, como todos, e concluíram que a afirmação de Gaspar não significa nada e já é desespero de causa de quem estava oito pontos atrás na última pesquisa divulgada.

Gervásio ainda remói a defenestração da Secretaria da Habitação, e sua agressividade tornou o debate muito mais interessante. Insistiu em sua experiência como empresário e gestor da pasta da Habitação na administração passada, quando se licenciou para se candidatar a vereador, a pedido do prefeito Reinaldo Nogueira, e quando obteve a maior votação para a chapa situacionista, não teve o cargo de volta. Isso o levou a uma posição de quase oposicionista na Câmara e ao lançamento de sua candidatura a prefeito. Sua posição em quarto lugar na pesquisa do Jornal Todo Dia, divulgada no último dia 8, deve tê-lo decepcionado. Foi quem mais insistiu na corrupção da atual administração, ainda que seus dois irmãos tenham sido presos no mesmo processo policial que envolveu Reinaldo e seu pai, Leonício.

Rinaldo Wolf (PT), por sua vez, surpreendeu na mesma pesquisa ao despontar em quarto lugar. Sua participação no debate, no entanto, foi uma decepção. Limitou-se a defender os governos Lula e, principalmente, Dilma Roussef, mandou um “Fora Temer!” e apresentou como sua prioridade de governo o velho Orçamento Participativo. No contexto atual do seu partido, é como uma freira pregando no bordel.

É difícil saber a motivação de Emanoel Messias (PMN) em concorrer à Prefeitura. Foi vereador uma vez, não se reelegeu, não tem proposta, acha boa a atual administração e, em resumo, não disse a que veio.

Muitos esperavam ver mais sangue, com um confronto direto entre os dois principais concorrentes, Bruno e Gaspar. Dentro das regras eleitorais, a forma como se deu o debate se Indaiatuba é um modelo do qual não se pode fugir muito. É democrático dar espaço igual a todos, mesmo aos que não tem chance, mas resulta nessa chatice. Entre os principais eleitorados, ninguém vai mudar o voto por causa do que assistiu ontem, o que é bom para quem está na frente. No máximo, o Gervásio vai ultrapassar o Rinaldo na próxima pesquisa, o que também não vai mudar nada. Mas a democracia, de um modo geral, ganhou com o debate. Pontos para a a Max Planck, OAB, TV Sol Comunidade e para os candidatos, que não fugiram da raia..

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As Olimpíadas e a autoestima do Brasil

Roberta Sá encarna Carmem Miranda no encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio
Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro acabaram ontem e – adivinhem só? – foi um sucesso! A poucos dias do início, ninguém diria que o evento mobilizaria o País, daria um upgrade na sua imagem internacional e que nossos atletas teriam a melhor performance olímpica da história. Ou que o maior vexame das Olimpíadas seria de um gringo, americano ainda por cima.
Paulinho da Viola cantando o Hino Brasileiro: para chorar de tão lindo
A coisa começou bem já na  cerimônia de abertura. Eu mesmo nem ia assistir, estava me preparando para sair de casa, quando passei em frente á televisão e parei, hipnotizado pela beleza da festa criada por Daniela Thomas, Fernando Meirelles e Andrucha Waddington (todos cineastas, by the way) e  pela música. Ah, a música! Paulinho da Viola, nosso sambista mais classudo, cantando o Hino Nacional foi de arrancar lágrimas. Benjor com seu “País tropical”, Daniel Jobim cantando “Garota de Ipanema” para Gisele Bundchen desfilar, Gilberto Gil mandando
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
“Aquele abraço” para o Rio e com o compadre Caetano recebendo a jovem Anitta como a popstar do momento mostraram ao mundo e lembraram a nós que é o Brasil. Enquanto isso, o 14 Bis pilotado pelo Santos Dumont/Tuca Andrada sobrevoava virtualmente a Cidade Maravilhosa, o cenário que, de cara, já dava alguns corpos de vantagem sobre outras sedes olímpicas.
Nos Jogos, em si, teve de tudo: redenção para Diego Hypólito, Poliana Okimoto, Rafaela Silva e o vôlei masculino; as inéditas medalhas de ouro no futebol e no boxe olímpico; o surgimento do prodígio Thiago Braz no salto com vara; o resgate de tradições com o Tiro de Felipe Wu e das velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze. E as despedidas dos mitos
Anitta, a principal cantora opo da atualidade, entre Caetano e Gil: se você não
gostou, aposto que os pais da Tropicália adoraram
Michael Phelps e Usain Bolt das Olimpíadas.  Este último une uma performance espetacular com marketing pessoal imbatível. Há quem atribua à simpatia, mas eu acho quem que o comparou com Munhamad Ali está certo. Não admiramos Bolt por ser simpático, mas por ser quase sobre-humano na pista. Como os antigos atletas gregos, ele se elevou à condição de semideus com seu triplo tricampeonato olímpico, invicto em finais olímpicas.
O encerramento de ontem coroou esses fabulosos Jogos do Rio. Da direção, saem os cineastas, entra a carnavalesca Rosa Magalhães para que tudo acabe em samba. Uma festa da diversidade brasileira culminando com um carnaval para gringo em escala olímpica. E o Japão apresentando seu cartão de visitas, lembrando a todos que a próxima Olímpíada será do outro extremo do mundo, tanto geográfica quanto em quase tudo o mais.

Izabel Goulart e Leandra Leal no encerramento

De toda a forma, o recado estava dado. O Brasil pode estar na merda, mas não é uma merda, ao contrário do que os projetas do apocalipse andaram trombeteando. Um país com tudo isso e capaz de espantar a todos – inclusive a nós, brasileiros, agora com muito orgulho, com muito amor – pode muito mais. Independente do ladrão/incompetente/populista da vez no governo.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

CR7 e a a diferença entre o melhor e o maior

Outro dia li um texto que diferenciava o melhor jogador do maior jogador. Dentro desse critério, Messi seria melhor tecnicamente que Maradona, mas o segundo seria maior por ter levado a Argentina à conquista da Copa do Mundo de 1986 e feito o modesto Napoli campeão italiano pelas duas únicas vezes em sua história.
Neste domingo, Cristiano Ronaldo se consolidou como maior jogador português de todos os tempos. Se há tempo ele já havia superado Luis Figo, ainda restava dúvidas em relação a Eusébio, que levou Portugal ao terceiro lugar na Copa de 66 e o Benfica às duas únicas conquistas da Liga dos Campeões da Europa. Com a conquista da Eurocopa pela seleção portuguesa, que CR7 liderou dentro e fora de campo, não há mais o que discutir. É a primeira vez que os lusos ganham um título de primeira linha em toda sua história, que inclui o doloroso vice em 2004, quando perderam para a Grécia em casa.
Mas o que talvez seja mais importante, nesta temporada, o craque português colocou alguns corpos e vantagem sobre seu eterno rival Lionel Messi, com as conquistas da Champions League e da Eurocopa. O prodígio argentino não apenas fracassou em três torneios de seleções em três anos seguidos, como ainda anunciou que deixaria de jogar pela Argentina. É indiscutível a supremacia técnica do argentino, mas seus fracassos com uma seleção que tem ainda Higuain, Aguero, Di Maria e Mascherano são inexplicáveis. Portugal de CR7 era nitidamente inferior à França, especialmente com a saída do craque ainda no primeiro tempo, mas a entrega do time luso diante de um adversário que parecia acreditar que resolveria a partida a qualquer momento foi emocionante. Extenuados ao disputar a terceira prorrogação no torneio, os portugueses ainda eram animados e orientados por um Cristiano Ronaldo que dividiu a função de técnico com Fernando Santos. Na hora da premiação, os companheiros decidiram que ele, o líder do time, ergueria a taça ao invés de Nani, o capitão que terminou o jogo.

Hoje, podemos cravar que Cristiano Ronaldo é maior do que Messi.

terça-feira, 8 de março de 2016

Filmes para assistir no Dia Internacional da Mulher

Marcos Kimura

Em janeiro, o Cineclube Indaiatuba exibiu “As Sufragistas”, de Sara Gravon, que bateu o recorde de público em 10 anos de atividade dessa sessão especial dos cines Topázio. É interessante também notar que o recorde anterior era do filme “A Separação”, que embora não tratasse diretamente do feminismo, abordava os papéis de homem e mulher na família numa sociedade regrada por uma doutrina religiosa patriarcal. Pensando em como o Cinema contribui para uma reflexão a respeito, fiz uma listinha de filmes que abordam o assunto com talento, relevância e sensibilidade.

Para começar, o próprio “As Sufragistas”, que opta por mostrar o movimento pelo voto feminino na Inglaterra do início do século XX do ponto de vista de uma mulher comum, e não de suas líderes ou da organização como um todo. O resultado é um retrato dos preconceitos, sacrifícios e luta pelos quais as militantes tinha que passar em uma jornada que só seria vitoriosa muitos anos depois.  Atuações pungentes de um elenco encabeçado por Carey Mulligan, Helena Boohan-Carter e participação afetuosa de Meryl Streep ajudam muito a direção sensível, mas convencional de Sarah Gravon.

Outro filme exibido pelo Cineclube Indaiatuba sobre o tema é o libanês “E agora, onde vamos?”, da diretora e atriz Nadine Labaki, que ganhou notoriedade internacional a parti de “Caramelo”, também exibido no Cineclube. Ambientado numa pequena pequena aldeia que tem como ligação com o resto do país uma pequena ponte, o filme já começa com um cortejo fúnebre de mulheres no cemitério local, prestando homenagem a filhos, irmãos, maridos e outros parentes mortos na interminável guerra civil entre cristão e muçulmanos. Unidas na dor, na saída elas se separam, cada grupo indo para seu lado da cidade. Decididas a acabar com o morticínio, elas acabam usando diversos subterfúgios para distrair os homens da ideia de vingança, desde interrompendo o sinal da TV para que não vejam o noticiário até patrocinar um grupo de belas estrangeiras perdidas nos rincões do Líbano. Embora tenha seus momentos engraçados, o longa destaca que, em todos os conflitos, a mulher é sempre quem enterra e chora os mortos.

Também exibido pelo Cineclube Indaiatuba e igualmente de uma mulher árabe, Haifaa Al-Mansour, “O Sonho de Wadjda” é também o primeiro filme oficialmente realizado na Arábia Saudita. Ele acompanha a adolescente do título, que gosta de brincar com os garotos e que sonha em comprar uma bicicleta que viu numa loja do bairro. Só que além de não ter o dinheiro, andar de bicicleta é algo proibido às mulheres em seu país. Ao mesmo tempo, a mãe enfrenta problemas oriundos da sociedade machista e acaba se comovendo com a luta da filha pelo seu singelo sonho. O que amplia o interesse sobre este trabalho é que não se trata da ótica etnocentrista ocidental, mas de uma mulher inserida nessa sociedade, e que conseguiu fazer um filme muito bom sem apelar para saídas fáceis.

Tomara que seja mulher” é um clássico dos anos 80, o único da lista dirigido por um homem, o grande Mario Monicelli, com um elenco de estrelas: Catherine Deneuve, Liv Ullman e Steffania Sandrelli. Os homens são Philippe Noiret, Bernard Blier e o Giuliano Gemma dos western spaghetti..  Um grupo de mulheres opta por viver numa fazenda na Toscana praticamente sem homens, á exceção de um tio idoso e senil. Obviamente, nem tudo é hramonia, e a ausência masculina é sentida apesar dos pesares, mas, ao final, quando uma das jovens fica grávidas, todas torcem que seja mais uma mulher, como diz o título.


Finalmente, defendendo as cores nacionais, o recente “Que horas ela volta?”, de Ana Muylaert, com show da dupla Regina Casé e Camila Márdia. Carioca de duas gerações, Regina se consolida com o título cujo equivalente masculino um dia já foi de Jofre Soares, o de “maior atriz nordestina do mundo” (vide “Eu, tu, eles”). Como a mãe que opta por deixar a filha com uma irmã na terra natal para ganhar a vida como empregada doméstica em São Paulo, ela dá tridimensão ao personagem que com outra atriz poderia cair na caricatura. A atuação é complementada pelo contraste oferecido por Camila, uma jovem vindo de outro momento político-econômico-social do Brasil, cujo inconformismo chega a soar inconveniente para o espectador acostumado dom aquele status quo (no Exterior, as pessoas entranhavam era comportamento senhorial dos donos da casa até para tomar um copo d’água).Um filme que não apenas dá o protagonismo – e antagonismo, da parte da personagem da ótima Karine Teles – mas também vislumbra uma nova realidade para as jovens como Camila, que não apenas escapa do destino da mãe como a desperta da relação perversa que ela via como afetuosa.