Gore Vidal, ou Eugene Louis Vidal, falecido ontem aos 86
anos, era um dos meus escritores favoritos. Nem tanto por seu estilo ou
particular talento literário, mas por ser um escritor de ideias. Praticamente
todos seus romances e novelas carregam suas convicções sobre política, o ser
humano, história em geral (grande parte de sua produção são romances
históricos) e, principalmente sua amada América. Vindo de uma família da
aristocracia ianque: um de seus primos é o ex-vice e candidato a Presidencia
derrotado, Al Gore; seu avo, Thomas Gore, foi senador por Oklahoma e aparece em
diversos de seus livros como personagem, e sua irmã por afinidade, Jacqueline
Bouvier, ficou famosa com o sobrenome Kennedy, depois, Onassis.
Paulo Francis dizia que ele era um tory (apelido dos
conservadores ingleses) anarquista. Homossexual assumido (seu primeiro romance
de sucesso, The City and the Pillar, uma ode ao amor que – na época - não
ousava dizer seu nome, causou escândalo e sensação nos anos 50), tinha horror a
manifestações do tipo Parada Gay; frequentador das altas rodas políticas, era
feroz crítico do bipartidarismo americano, que dizia ser um partido único com
duas alas direitistas. Mas foi acusado de racista, antissemita e outras coisas
por conta de suas posições pessoalíssimas. Por exemplo, achava que drogas
deviam ser liberadas por dizer respeito à saúde pessoal (se fossem liberadas, o
tráfico deixaria de ter sentido) mas que
por um filho no mundo, por conta das consequencias para a comunidade, deveria
ser mediado pelo estado, ou pela sociedade. É mole ou quer mais?
Ele acreditava que a civilização judaico-cristão havia
destruído o humanismo já existente na Antiguidade, e ele defende essa tese em
“Juliano”, romance histórico sobre a vida do imperador romano de mesmo nome,
que passou a História como “O Apóstata”, por ter tentado trazer de volta os
rituais pagãos, na contramão se seus antecessores, Constantino entre eles. Mas
era tarde demais para os mistérios de Elêusis (que Vidal recria com emoção, embora
ninguém saiba ao certo como eram os ritos de iniciação), a rica Mitologia
Greco-Romana e, principalmente, as seitas concorrentes do Cristianismo, Mitra e
Ísis. Em “Criação”, ele leva a ação para o fundamental século V a.C. no qual,
no período de uma vida humana co-existiram Zoroastro (ou Zaratustra), Dario (o
Grande), Temístocles, Buda, Jina (fundador do jainismo, culto seguido por
Gandhi), Lao-Tsé, Confúcio, Péricles, Sócrates, Heródoto e Tucídides, entre
outros. O autor faz com que eu protagonista, o persa Ciro Spímata, conheça
todos esses personagens, que fundamentam quase todo o saber civilizado de hoje.
Ele é um neto de Zoroastro, que cresce na corte de Dario, torna-se amigo de
Xerxes, e é enviado em missões à India e depois á China. Ele termina a vida
como embaixador da Pérsia em Atenas, algo parecido como ser o representante do
Kremlim em Washington. Em suas andanças pelo Mundo Antigo ele conhece o
Zoroastrismo, o Budismo, o Jainismo e o Taoísmo, mas se encanta mesmo com
Confúcio, o primeiro pensador político. O Confucionismo é menos uma religião e
mais uma doutrina de organização social e política, que ora era aplicada, ora
erradicada pelos mandatários de plantão no Império do Meio, mas que de certa
forma explica a coesão da China desde então, fazendo desse país a mais antiga
civilização contínua do mundo.

Em 1967 inicia suas Narrativas do Império (certamente, ele
nem sabia que faria uma série tão longo, tanto é que ela foi escrita fora da
ordem cronológica), com Washington D.C., que seria o sexto de sete livros da
série. Depois dele vieram (pela sequencia de publicação) Burr (1973), 1876
(1976), Lincoln (1984), Império (1987), Hollywood (1990) e A Era de Ouro
(2000). A ordem histórica seria Burr (que conta a história de Aaron Burr,
veterano das Guerra da Independência, terceiro vice-presidente dos EUA e que
ficou famos por matar Alexander Hamilton, um dos líderes da Revolução
Americana, num duelo), Lincoln (sobre a Presidência de Abraham Lincoln), 1876
(ano do centenário da Independência, das eleições mais fraudulentas das
história e do massacre do General Custer), Império (sobre o nascimento do
império americano ultramarino com a guerra contra a Espanha), Hollywood (que
trata da entradas dos EUA na I Guerra Mundial e a nascente indústria do cinema),
Washington D.C. (que aborda os anos pré-II Guerra Mundial) e A Era e Ouro (que
abarca o pós-guerra e o surgimento da superpotência americana).
Apesar de serem em geral livros deliciosos de se ler e muito
instrutivos sobre a Matriz do Norte, Paulo Francis, seu maior divulgador no
Brasil, considera todos eles literatura de segunda, preferindo suas incursões
não-realistas em Myra Beckenbridge (de 1968, que resultou num filme desastroso
com Rachel Welch) e Dulluth (1983). Desse estilo também fazem parte Myron (1974,
continuação de Myra), Kalki (1978), Ao
vivo do Calvário (1992) e Fundação Smithsonian (1998). Todas satirizam o
american way of life com altas doses de sarcasmo e cinismo de quem viveu a Era
de Ouro americana, que foi do final da II Guerra até o dèbâcle no Vietnã, como
membro da elite, jovem promessa literária e integrante da Camelot de John
Fitzgerald Kennedy. O que veio depois foi só o horror.
Seus ensaios discorrem sobre isso. A primeira coletânea
deles publicada – e organizada – no Brasil foi De Fato de de Ficção, em que
pela primeira vez conhecemos essa face do escritor que até então só conhecíamos
como romancista. Entre suas teses polêmicas, estava a de que, após o advento do
cinema falado, o roteirista é que passou a ser o verdadeiro autor dos filmes.
Para confirmar a tese, ele contava sua experiência em Hollywood, como escritor
de Bem-Hur, em que para explicar o ódio de Messala contra o ex-amigo Ben-Hur
(supostamente, apenas por este se negar na campanha de romanização da Judéia), ele
sugeriu um caso amoroso entre os dois na juventude, tudo nas entrelinhas para
não escandalizar a classe média e o protagonista Charlton Heston. O diretor
William Wyler acabou topando com a ressalva de que nunca deixasse “Chuck”
(Heston) saber disso. Quando vemos o filme sabendo desse contexto, tudo parece
muito óbvio, com a cumplicidade do intérprete de Messala, Stephen Boyd, que,
como escreve Vidal “sempre que olhava para Ben-Hur, parecia um homem faminto
vislumbrando um jantar através de uma vidraça”. Vidal acha que até a morte
Heston não se deu conta, mas Pedro de Queiroz refuta, citando a cena do
reencontro, em que os olhos dos dois brilham como dois namorados.
O escritor este no Brasil em 1987, a convite da Companhia
das Letras, e eu estive na palestra que ele deu no Masp. Uma das piadas era um
aviso repentino de que ele acabara de receber a notícia de que a biblioteca do
presidente Ronald Reagan tinha pegado fogo. “E ele nem tinha acabado de colorir
os dois livros”, emendou rápido. Se Vidal desprezava Reagan, passou a odiar
George W. Bush depois do 11 de setembro, acusando-o de usar o pânico gerado
pelos atentados de 11 de setembro para jogar a Constituição no lixo. Foi uma
voz solitária em meio aos discursos patrióticos em toda a mídia, que o jogou no
ostracismo. Onze anos depois, quem estava certo afinal de contas?