sábado, 19 de outubro de 2013

O centenário do Poetinha

A efeméride da semana é o centenário de Vinícius de Moraes, comemorado hoje, dia 19 de outubro. Ontem, o programa Sarau, da Globo News, trouxe as remanescentes do Quarteto em Cy, grupo descoberto pelo Poetinha, e a cantora Joyce Moreno, que foi regra três de Toquinho, ao substituí-lo como acompanhante de Vinícius em uma turnê pela América Latina. O Canal Brasil, por sua vez. passou o belo documentário "Vinícius", de Miguel Faria Jr., que traz um Chico Buarque saudoso, nada preocupado em preservar intimidades do amigo, muito antes de se tornar o desastrado porta-voz do grupo Procure Saber.

Morto em 1980, o autor de Soneto da Separação não será atingido pelo movimento anti-biografias porque já tem a sua, "Vinícius, Poeta da Paixão", de José Castello, que revela o lado trágico de uma vida cheia de viagens, amigos, poesia, música e mulheres movida a muito uísque, o cachorro engarrafado que ajudou a matá-lo aos 66 anos.Sem patrulhas, por favor, porque viver intensamente foi uma escolha pessoal, e ainda foi mais longe que diversos popstars muito mais jovens. Em todos os sentidos.

Paulo Francis fez um retrato cruel dele em "Cabeça de Papel" e achava que Vinícius passou a se dedicar á rima fácil da música popular por ter perdido a mão para a poesia séria. Eu acho que ele quis fazer sua poesia sair das prateleiras das bibliotecas e dos saraus eruditos e ir para a rua, ao alcance das pessoas comuns. A parceria com Tom Jobim, um popular com um pé e meio no erudito, consolidou as possibilidades de fazer arte de qualidade num meio de muito maior alcance que a literatura tradicional. Sem falar nas benesses da boemia, badalação e mulheres bonitas.  

O legado do Poetinha nesses tempos estranhos é dificil de definir. Luis Fernando Veríssimo nos lembra como ele ajudou várias gerações de homens a seduzir mulheres com seus poemas de romantismo derramado, mas será que Soneto da Fidelidade ("De tudo ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento"), ainda cola em tempos de "Gata me liga mais tarde tem balada/Quero curtir com você na madrugada/Dançar, pular/Até o sol raiar" (Que rima! Que lirismo!)?

Mas apesar do mercantilismo, do hedonismo, da ânsia pelo poder e fama neste novo século pós-Vinícius de Moraes, o que ele nos deixa é uma visão de um mundo, onde "quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não", "quem tem mulher para usar ou pra exibir" não está com nada; e "para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro, seja lá como for".

Afinal de contas, "mesmo com toda a fama, com toda a brahma, com toda a cama, com toda a lama, a gente vai levando", "porque hoje", dia de seu Centenário, "é sábado!"   




Um comentário:

Thieres Duarte disse...

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