Aproveito o Dia do Jornalista, hoje, uma segunda-feira, para listar meus filmes favoritos que tem colegas como protagonistas. O primeiro é fácil, "A Primeira Página" (1974), de Billy Wilder, a enésima adaptação da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur, mas valorizada pelo cinismo do diretor e pelo elenco com a dupla Walter Matthau & Jack Lemmon, e uma muito jovem Susan Sarandon. Trata-se da cobertura da execução de um pobre coitado acusado de assassinar um policial, que acaba tendo uma reviravolta com o surgimento de provas que o inocentam. Mathau é o editor que faz com que seu melhor repórter, Lemmon, desista de abandonar o jornalismo por um emprego estável e o casamento com a rica e bela Sarandon
Em segundo lugar, do mesmo Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (1951), com Kirk Douglas como um ambicioso repórter que vai parar num lugarejo e transforma um acidente num circo por meio do qual pretende voltar á ribalta da profissão. O recente "Quarto Poder (1997), de Costa Gravas, é quase um remake deste, como Dustin Hoffman no papel do jornalista inescrupuloso e John Travolta como um zelador que faz um grupo e estudantes reféns para ter de volta seu emprego.Aqui já estamos na era da TV e da notícia convertida em entretenimento, mesmo tema de outro grande filme, "Rede de Intrigas" (1976), de Sidney Lumet, em que Pete Finch é um âncora em vias de ser demitido que tem um ataque de nervos no ar, ameaçando se matar. Ao invés de perder o emprego, ele vira a principal atração da emissora, disparando verdades inconvenientes que o público adora. Numa ironia do destino, Finch ganhou o Oscar de melhor Ator, mas póstumo.
"Todos os homens do presidente" (1976), de Alan J. Pakula, tem a vantagem de ser baseada naquela que pode ter sido a mais importante reportagem do século XX, já que derrubou o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos EUA, Richard Nixon. Dustin Hoffmann e Robert Redford interpretam Carl Bernstein e Bob Woodard, repórteres do Washington Post que colocaram o prédio Watergate nos livros de história.
Difícil limitar "Cidadão Kane" (1941) ao tema jornalismo, mas o roteiro de Herman J Mankiewicz e Orson Welles é preciso quando mostra a transformação do jornalismo em meados do século passado, e o poder que os magnatas da imprensa teriam com essa modernização, como William Randolph Hearst - o modelo do filme - Assis Chateaubriand e Roberto Marinho em terras tupiniquins.
"O Jornal" (1994), de Ron Howard, não é tão bom quanto os acima citados, mas traz um problema importante para o jornalismo: o processo industrial da mídia impressa versus o compromisso jornalístico. O velho bordão "Parem as máquinas!" já não existe há décadas, pressionado pelas demandas trabalhistas, de distribuição e logística da imprensa. É nesse campo que se dá o embate entre o editor-chefe Michael Keaton e a diretora industrial Glenn Close, ambos jornalistas, que que entram em conflito por conta de uma notícia e última hora que pode salvar uma vida, mas comprometer todo o cronograma do jornal.
E você, jornalista e/ou cinéfilo, tem algum outro preferido sobre essa mais do que carreira ou profissão, mas uma vocação de vida?
Futebol, mulher, cinema, música, política e outros assuntos de botequim.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Jornalistas no cinema
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terça-feira, 1 de abril de 2014
Há meio século...
Marcos Kimura

Mais do que rememorar o início de um dos períodos mais negros
da história do País, a efeméride deveria servir para olharmos para o presente de
olho nas semelhanças com o cenário de meio século atrás. Está havendo um
recrudescimento do moralismo ( “mulher com roupa curta está pedindo para ser
atacada”), da intolerância e até mesmo do saudosismo da caserna, como atesta
a ridícula – porém, significativa – tentativa de reeditar a Marcha com Deus e a
Família. De certa forma, tudo isso é devidamente alimentado por uma imprensa
decadente que vê na manipulação da informação como forma de voltar a ser relevante
como foi na época das Diretas Já e na deposição de Fernando Collor.
Curiosamente, quando o povo foi às ruas no ano passado,
jornais, revistas e TVs foram apanhados de surpresa, e por conta dos recentes
cortes de pessoal feito nas redações por conta da crise das mídias
tradicionais, restou pouca gente com experiência para fazer uma cobertura
decente dos acontecimentos. Praticamente toda a mobilização foi feita por meio
das redes sociais, que andaram se transformando em palanques, fontes de
informação (falsas e verdadeiras) e manifestações on line, que muitas vezes se veem
frustradas na vida real (nas urnas, especialmente) levando a muitos desses
militantes de sofá a culpar o povo “ignorante” por não sabe votar. Por outro
lado, houve quem tirou a bunda da cadeira e partiu para a mobilização de
verdade, seja à esquerda ou à direita. Ainda é cedo para enxergar algum reflexo
nas eleições que se aproximam.
Pior de tudo é a volta da paranoia anticomunista, que acusa
este governo de querer transformar o Brasil num gigantesca Cuba ou Venezuela. O
anticomunismo é o tradicional catalisador de golpes e tentativas de na América
Latina, e mesmo sendo um anacronismo, a volta insistente desse discurso nos
últimos meses não deixa de ser preocupante.
O que alivia é ver os quartéis em silêncio, sem qualquer
tentativa de usar a data politicamente para confrontar o atual regime democrático.
Claro que o cenário mundial é outro, mas à parte a Guerra Fria no auge no
início dos anos 60 (pouco tempo depois da Crise dos Mísseis de Cuba) o golpe
brasileiro tinha começado a ser gestado em 1922, no Tenentismo. A partir do
episódio do Forte de Copacabana, em que 18 militares e civis enfrentaram as tropas
fiéis a Artur Bernardes, grande parte da oficialidade passou a acreditar na
missão redentora das Forças Armadas de salvar o País das mãos os oligarcas da
política do Café com Leite. A participação na Revolução de 30 foi frustrada
pelas artimanhas de Getúlio Vargas para permanecer no poder, e após 15 anos,
derrubaram o ditador para garantir uma eleição em que dois militares concorriam.
O retorno de Vargas, desta vez eleito diretamente, fez os quartéis
ficarem em polvorosa e tribunos como Carlos Lacerda, secundados por grande
parte da imprensa, pregavam o golpe descaradamente. Getúlio conseguiu reverter
a situação e forma extrema, suicidando-se adiando em 10 anos a quartelada
anunciada.
Quando ela aconteceu, Lacerda, Adhemar de Barros e outros
líderes acharam que, exilando o legado getulista juntamente com o governo João
Goulart, finalmente havia chegado a vez deles. Só que desta feita, os militares
estavam dispostos a exercer o poder sem
a interferência de políticos carismáticos, e cassaram os direitos políticos dos
aspirantes ás eleições de 1965, que nunca aconteceu.
Segundo Elio Gaspari em sua importante obra “As Ditaduras”,
defende que o regime militar implodiu por conta da insubordinação da Linha Dura,
responsável pelo aparato repressivo que, quando não havia mais militantes da
lutar armada para prender, torturar e matar, passou a caçar qualquer opositor. Ernesto Geisel e seu “bruxo”, Golbery do
Couto e Silva, articularam então a abertura lenta, gradual e progressiva,
exonerando o generais mais extremistas e concedendo a anistia parcial.
Mesmo passado todo esse tempo depois da tropa ter se recolhido
à caserna, parece haver um acordo silencioso entre as Forças Armadas e os
sucessivos governos democrático para que os militares não se manifestem sobre
assuntos políticos, em troca de não se investigar os diversos episódios
obscuros da ditadura militar. A atual Comissão da Verdade começa a arranhar a
superfície dos mistérios do período, como a possível assassinato de Juscelino
Kubistchek e o desparecimento de Rubens Paiva. Mesmo assim, os responsáveis
vivos permanecem impunes, muitos sob o manto de uma Lei de Anistia concedida
por seus pares, o que vai na contramão dos vizinhos do Cone Sul, cujos
militares também haviam deixado garantias de impunidade no aparato legal, devidamente
derrubadas pela democracia. Como é que se supõe que o Brasil siga em frente
como país civilizado enquanto os crimes da ditadura permanecerem impunes e
fatos históricos como a morte de João Goulart no exílio ou o atentado do
Rio-Centro continuarem sem solução?
Meio século depois do 1º de abril de 1964, ele permanece um
corpo insepulto na sala de estar da democracia. É um cadáver em decomposição a
céu aberto.
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