Havia decidido escrever uma crônica por semana para reativar este blog, abandonado por conta da demanda de serviço do Light na Night, meu atual ganha pão (que vai muito bem, obrigado, graças aos leitores e anunciantes que o prestigiam). Por conta disso, acabei virando no últimos meses mais colunista social e fotógrafo que antes, praticamente abandonando o texto, que é meu ofício.
O retorne de Luis Felipe Scolari me deu o assunto perfeito para este retorno. Falou-se muita bobagem a respeito, como, por exemplo, que em dois anos dirigindo o Palmeiras, ele "só" ganhou a Copa do Brasil. Em treze anos, os dois únicos títulos importastes do Alviverde Paulistano foram a Libertadores de 1999 e esta última Copa do Brasil, ambas dirigidas por Felipão. Quanto ao rebaixamento no Campeonato Brasileiro, ele foi o primeiro a dizer do perigo de cair, ainda no calor da vitória no torneio que da acesso direto à Libertadores do ano quem vem. Como duas diretorias ineptas, falta de dinheiro para contratações e um elenco medíocre que passou a achar que era o Barcelona por conta do título do primeiro semestre, o técnico pouco pode fazer.
Agora, por mais que considere Felipão muito superior a Mano Meneses tanto em bagagem, quanto em caráter, ele terá que superar uma escrita maldita. Nunca na história desse País um técnico conseguiu ganhar duas Copas do Mundo, muito pelo contrário: a demais tentativas após a consagração sempre acaba em desastre. Começamos com Vicente Feola, técnico campeão do mundo em 1958, que não dirigiu a seleção em 62 por motivos de saúde, mas foi o comandante do vexame de 1966, a primeira desde 1938 em que o Brasil saiu na primeira fase (na verdade, nunca mais fizemos uma campanha pior desde então). O injustiçado Zagalo, que muita gente acha que herdou o time pronto de João Saldanha (não é verdade: a equipe que do Tri era muito diferente da que disputou as Eliminatórias), foi para a disputa na Alemanha em 1974 certo que seria Tetra. Foi superado pela Laranja Mecânica holandesa de Rinus Mitchell e Johann Cruyff, e ainda perdeu o terceiro lugar para a Polônia de Lato. Em 1998 ele ganhou outra chance, que terminou no ainda inexplicado piripaque de Ronaldo às vésperas da final, que Zidane e companhia venceram por humilhantes 3 a 0.
Parreira ganhou a nova Taça Fifa (a Jules Rimet, como sabemos, ficou definitivamente por aqui, na forma de lingotes, anéis, correntes ou seja lá o que mais os ladrões e receptadores fizeram com ela) pela primeira vez para o Brasil em 1994, com um time criticado como retranqueiro, que dependeu muito da ótima forma de Romário na época. Tentou se redimir diante da torcida em 2006 montando um Dream Team, que foi à Copa da Alemanha como se as partidas fossem um mero compromisso burocrático a ser cumprido antes de levantar a taça. Novamente, Zinedine Zidane nos deu um choque de realidade nas quartas-de-final, com direito a chapéu em cima de Ronaldo.
Até mesmo Tele Santana, que formou a seleção que encantou o mundo em 1982, fez uma segunda Copa melancólica em 86, cujo o momento mais marcante foram os dois gols espíritas de Josimar e ainda tivemos que assistir Diego Armando Maradona carregar o time ás costas rumo ao segundo título mundial da Argentina.
A tradição, portanto, esta contra Felipão, e também a atual safra de jogadores, inferior á de 2002, 2006 e até mesmo 2010. Do time atual, o técnico gaúcho só trabalhou com Kaká, o novato do Penta que hoje é o veterano da equipe. Salvo uma contusão (toc, toc, toc) acho que ele está garantido na Copa. As estrelas devem ser as mesmas de Mano Menezes, mas a diferença estará no talento motivador, na expertise em mata-matas (se nos derem uma fase de grupos como a de 2002, melhor ainda) e na montagem do sistema defensivo.
Concordo que, no momento atual, Muricy e Tite estão em momentos melhores (alguém vê seriamente Abel Braga como campeão do mundo?), mas ambos se veem diante de desafios importantes em seus atuais clubes: o técnico do Santos á procura e um time que sobreviva sem Neymar e o do Corinthians em busca do inédito Mundial Interclubes. Felipão, desempregado desde que abandonou o Titanic palmeirense, era a escolha óbvia. Agora, terá que ser mantido mesmo que perca a Copa das Confederações (nunca uma equipe que venceu esse torneio de fancaria ganhou o que interessa, no ano seguinte), mesmo em casa e sob a pressão da mídia e da oposição, que mcomeça a se formar em torno do insatisfeito padrinho de Mano Menezes, André Sanchez.
Futebol, mulher, cinema, música, política e outros assuntos de botequim.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
A volta de Felipão
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Topázio apresenta 12º Festival de Filmes Italianos
A Lui Cinematográfica realiza o 12º Festival do Filme
Italiano a partir de quinta-feira. Os filmes terão sessões às 15h e 19h30 nas
quintas feiras até o dia 4 de outubro, sempe no Multiplex Topázio do Shopping
Jaraguá.
A mostra será aberta por “Habemus Papam”, de Nanni Moretti, que já foi exibido pelo Cineclube
Indaiatuba em abril. Um personagem num posição inusitada que sofre um surto de
síndrome do pânico e é obrigado a se submeter em segredo a sessões de
psicanálise foi o ponto de partida tanto da comédia “A Máfia no Divão” (1999)
quanto o seriado “Família Soprano” (1999-2007). Em ambos os casos, o paciente
em questão era um chefão da Máfia e no filme de hoje, o lider de outra
instituição tipicamente italiana, o Vaticano. O grande ator francês Michel
Picoli (“A Bela da Tarde”, “A comilança”) interpreta o papa que, na hora de
surgir aos fiéis que aguardavam a eleição do Colégio de Cardeais como novo
Santo Padre, tem um surto de pânico e recua. Como ele já aceitou o cargo, o
protocolo da Igreja Católica cai num impasse. O que fazer? O papa assume ou não
o cargo? A imprensa de todo o mundo pressiona para saber o nome do eleito.
O porta-voz do Vaticano, interpretado pelo ator polonês
Jerzy Stuhr (colaborador de Krzysztof Kieslowski em trabalhos como “A igualdade
é branca”) é obrigado a se desdobrar para manter a mídia longe do imbróglio e
se manter dentro dos parâmetros rituais. Um médico e chamado, mas logo se vê
que é um trabalho para a Psicanálise, e justamente um terapeuta ateu (Nanni
Moretti) entra em cena, em meio de um grupo de cardeais de vários países.
Enquanto o papa entra em crise existencial, pois não se julga apto para o
cargo, o psicanalista e os cardeais, todos impedidos de deixar o Vaticano por
causa do segredo a ser mantido, dedicam-se a jogos como carteado e um torneio
de vôlei, onde fica escancarado o peso da geopolítica na distribuição de forças
dentro da Santa Madre Igreja Católica.
Não
vendo muito progresso com o terapeuta, o porta-voz resolve levar o Sumo
Pontífice para fora dos muros do Vaticano para se consultar com uma
psicanalista mulher (Margherita Buy, de “O quarto do filho”). Dessa vez, o papa
é tocado pela conversa e foge, se perdendo pelas ruas de Roma e indo parar num tearo em que um grupo interpreta “A
gaivota”, de Tchecov. Como observa o crítico Marcel Hessel, do site Omelete, “Assim
como Tchékhov, Moretti também tem gosto pela sátira que fica entre o trágico e
o cômico”. “A grande sacada aqui, que faz a ponte com Tchékhov, é revelar que
Melville sonhava ser ator - uma frustração da juventude, ‘já que eu era péssimo
no palco’, diz ele. O que o papa talvez não perceba (mas Moretti faz questão de
dizer) é que o papado é também uma forma de encenação”, prossegue.
Nanni Moretti é um dos raros diretores do cinema italiano
atual que é rapidamente identificado, graças a trabalhos como “Caro Diário”
(1993) e “O quarto do filho” (2001), ambos premiados em Cannes, o primeiro lhe
dando o troféu de Direção e o segundo obtendo a cobiçada Palma de Ouro como
melhor filme.
Sobre “Adorável
Pivelina”, filme que será exibido dia 21, segue avaliação do crítico de O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin.
Na primeira sequência de Adorável Pivellina, uma mulher já de certa idade, Patti
(Patrizia Gerardi), procura por seu cão num jardim. A câmera (na mão) a
acompanha. Patti não encontra o cachorro fujão (ele reaparecerá depois), mas
acaba por achar uma criança sozinha, num balanço, a garotinha de que fala o
título em italiano.
A mãe deixou um bilhete e
uma foto, e mulher resolve adotar a pequena Asia (Asia Crippa), apesar da
insistência do marido, Walter (Walter Saabel) em entregar o caso à polícia.
Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que tem grandes dificuldades
para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha e a integra à
vida da pequena trupe.
O filme embarca logo de
saída em um tom documental que não deixa de surpreender o espectador. Muitas
cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público,
mas, afinal, onde está a história?
Ora, como sabemos, muitas
vezes a graça da coisa reside, exatamente, na observação do acontecimento
vivido, nessa espécie de simulacro “da vida como ela é”, tão rente ao real
quanto seja possível ao cinema. No caso, o cotidiano desses personagens de um
circo pobre, que, por acaso, se situa na Itália, mas poderia ser em qualquer
lugar, e aqui mesmo, no Brasil.
A situação é universal e, ao mesmo tempo,
italianíssima. Tudo se passa nos arredores de Roma, naqueles arrebaldes meio
desolados, cheios de edifícios populares e que foram locação favorita de alguns
filmes de Pier Paolo Pasolini. A referência a Pasolini, aliás, se amplia num
passeio à feia praia de Óstia, onde ele foi assassinado por um garoto de
programa, em 1975.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.
Eles vencem a aposta com
uma série de trunfos nas mãos. Primeiro, a criança é encantadora, de fato. Mas,
se sabe, péssimos filmes também são feitos com crianças adoráveis. É que, no
caso, os “dotes” da menina Ásia Crippa são utilizados com inteligência pela
dupla. Há, também, a espontaneidade dos atores naturais, que fazem os
personagens como se interpretassem as próprias vida, o que é bem caso. Em
especial, a figura de Patti, com seus cabelos vermelhos e ar protetor de mamma
romana. Com diálogos improvisados, o filme adquire frescor notável.
Por fim, introduz-se um
elemento de suspense em toda essa situação. Quem será essa mãe, que abandonou a
“pivellina” encantadora, ou, pelo menos, a deixou emprestada por algum tempo à
outra? Essa pergunta fica implícita, rondando o filme e, embora não formulada
de todo, lhe dá um dinamismo psicológico notável. Não conseguimos evitar a
pergunta implícita: e com quem ficará a pequena no final?
No dia 28, a atração será “A primeira coisa bela”, resenhada abaixo pelo decano Rubens Edwald Filho.
Felizmente ainda tem
distribuidores que tentam lançar filmes italianos no mercado brasileiro apesar
das dificuldades. Antigamente a gente conhecia todos os astros da Itália que
eram enormemente populares por aqui .
Infelizmente o cinema lá
enfrenta dificuldades econômicas, aliás, como todo País e não reconhecemos os
nomes ou os rostos (uma das poucas sobreviventes da Idade de Ouro do cinema
italiano é Stefania Sandrelli, que era adolescente quando foi revelada em Divórcio
a Italiana, de Pietro Germi, e hoje faz papeis de matrona, ainda bonitona por
sinal).
Não há como negar que o
cinema italiano já não tem mais o mesmo padrão de qualidade, de uma época em
que exibia os melhores fotógrafos, os melhores diretores de arte e mesmo
compositores. O cinema deles tinha uma cara e um padrão, que hoje se perdeu.
Mas ainda tem características próprias, continua ser a humano, popular,
intensamente crítico e dramático sem cair em clichês.
Dentre seus novos valores
descobertos pelo Festival de Cannes está este Paolo Virzi (este já é seu décimo
terceiro trabalho como diretor e segundo me parece vimos apenas um deles no
Brasil, que foi “Meu Caso com o Imperador”, 06, com Daniel Auteil e Monica
Belucci, que está longe de ser o mais característico e pessoal, mas que eu
descrevi como “Boa comédia italiana que conta em tom de farsa, como teria sido
a estadia do Imperador Napoleão na Ilha de Elba em seu exílio, depois de
Waterloo.
Esta nova comédia dramática
foi super premiada, ganhou três Davids de Donatello (ator, atriz e roteiro), e
mais 15 indicações, ganhou festivais de Salerno,Sannio e Montpellier, foi
finalista como diretor no European Film Award. Além de ter sido indicado
oficialmente ao Oscar de filme estrangeiro.
Basicamente pinta o retrato
de uma professor de curso secundário de cerca de 40 anos, misantropo e que é
forçado a visitar sua mãe de quarenta e poucos anos, que esta para morrer. São
quatro décadas de problemas e crises que ele tem que resolver. Os críticos
americanos acharam que o filme não foge de certo sentimentalismo semelhante aos
trabalhos de Tornatore, ainda que compensado por grandes interpretações de todo
o elenco.
O filme começa em 1971, num
concurso de beleza de verão, em que Anna (Ramazzotti, que na vida real é mulher
do diretor) ganha mas deixa o marido enciumado e o casal de filhos observando.
No tempo presente, o garoto
virou o professor e é praticamente sequestrado pela irmã Valeriz (Pandolfi)
para visitar a mãe que está morrendo de câncer num asilo. Dali em diante, o
filme alterna passado e presente, explicando aos poucos como o herói foi
ficando traumatizado e amargo.
Sem cair na caricatura,
como muitos filmes italianos dantes e de hoje, A Primeira Coisa Bela usa como
título uma canção popular de 1970 que a mãe cantava para suas crianças em
momentos de problemas (a trilha musical é do irmão do diretor Carlo Virzi). O
fotógrafo Nicola Pecorini usa cores laranja e sépia para o passado.
Enfim, é
um filme de emoções, sentimentos que tem
grande chance de dialogar com o público brasileiro, em particular o paulistano.
Fechando a mostra, no dia 4 de outubro será exibido o “clássico”
“Dio como ti amo”. Clássico entre
aspas porque não o é no sentido estrito do termo – um filme memorável por sua
qualidade – mas por ter marcado época, especialmente em Indaiatuba, por razões
diversas. Feito na esteira do sucesso da canção de autoria de Domenico Modugno,
vencedora do Festival de San Remo em 1966, e que tornou a cantora Gigliola Cinquetti
uma estrela internacional. Como na época se consumia tanto músicas quanto
filmes italianos em profusão no Brasil, multidões foram assistir “Dio come ti
ano” no País. Gigliola interpreta uma bela e inocente jovem de família pobre
que se apaixona pelo noivo rico de sua melhor amiga. Emocionados com a paixão
da moça, seus familiares a fazem se passar por uma princesa para que ela possa
viver este romance impossível. Destaque para a o clímax no aeroporto, quando
ela toma o microfone da torre de controle e canta a música-título para o amado
que está em um avião. Brega? Sem dúvida, mas fazia o antigo Cine Alvorada ser
inundado por lágrimas de donas-de –casa em sessões vespertinas patrocinadas por
uma marca de sabão em pó.
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quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Woody Alen perde o rumo para Roma
![]() |
Penelope Cruz, única espanhola entre diversos italianos |
Dizem que todos os caminhos levam a Roma, mas esse não foi o
caso para Woody Allen. De todos seus recentes filmes-homenagens a cidades
europeias (alguns deles, generosamente subsidiados pelas respectivas
prefeituras – “Para Roma com Amor” é a pior. E curiosamente, na semana passada,
a revista Sight and Sound divulgou sua lista anual de melhores filmes de todos
os tempos, ressaltando as escolhas de alguns diretores convidados, Alen entre
eles. Os top 10 do novaiorquino são 1º ) Ladrões de Bicicletas (1948, de Vittorio De Sica); 2º) O Sétimo Selo
(1957, de Ingmar Bergman); 3º) Cidadão Kane (1941, de Orson Welles); 4º)
Amarcord (1973, de Federico Fellini); 5º) 8 1/2 (1963, também de Federico
Fellini); 6º) Os Incompreendidos (1959, de Francois Truffaut); 7º) Rashomon
(1950, de Akira Kurosawa); 8º) A grande Ilusão (1937, de Jean Renoir); 9º) O
Discreto Charme da Burguesia (1972, de Luis Bunuel) e, 10º) Glória Feita de
Sangue (1957, de Stanley Kubrick). Como se vê, a lista de Mr. Allen tem três
filmes de diretores italianos, contra apenas dois de americanos, dois de
autores franceses, um espanhol, um sueco e um japones. Fica, portanto, frisada
sua predileção pelo cinema produzido na Itália.
Infelizmente seu
filme mais recente não consegue chegar a ser uma homenagem decente a essa
cinematografia que ele tanto aprecia. O episódio italiano de “Tudo o que voce
sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar” (1972) é um tributo
mais adequado do que todo “Para Roma com Amor”. Allen parece ter tentado
homenagear uma moda da Itália dos anos 60 – o filme de episódios amarrados por
um tema em comum. Alguns resultavam em obras de qualidade, como “Rogopag”
(1963), cujo título era formado pelos nomes dos diretores Rosselini, Goddard,
Pasolini e Gregoretti; outros eram produtos oportunistas que reuniam realizadores
e elenco de prestígio como chamariz do público, como “As Bonecas” (1965).
Allen amarra –
frouxamente – seus episódios em torno da Cidade Eterna, mas esta resulta numa
Roma para turista, estereotipada, sem alma. O melhor segmento, o do estudante
de arquitetura Jesse Eisenberg sendo
seduzido por Ellen Page, como a amiga maluca de sua namorada; é cópia de “Igual
a tudo nessa vida”, incluindo o conselheiro vivido por Alec Baldwin, que no
outro filme era vivido pelo próprio Allen.
O episódio mais
fraco é, de longe, o do casal interiorano, justamente que remete mais á comédia de costumes
clássica italiana. À exceção de Penelope Cruz, os demais atores estão mal
dirigidos, talvez por causa da barreira do idioma, desperdiçando um enredo que
poderia ser melhor. Destaque para a rápida aparição de Ornella Muti, ex-musa de
Marco Ferreri, inesquecível em “Crônica do amor louco” (“Love”, diria o
recém-falecido Ben Gazzara, com Ornella debruçada na janela...).
Para finalizar, a
idade tirou a graça de Allen como comediante, algo que já dava para notar em “Scoop”
(2006), sua aparição anterior como ator, uma pena, já que ele foi um dos
grandes do humor verbal americano. Ao
mesmo tempo, Roberto Benigni continua previsível e sem graça.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Gore Vidal (1925-2012)
Gore Vidal, ou Eugene Louis Vidal, falecido ontem aos 86
anos, era um dos meus escritores favoritos. Nem tanto por seu estilo ou
particular talento literário, mas por ser um escritor de ideias. Praticamente
todos seus romances e novelas carregam suas convicções sobre política, o ser
humano, história em geral (grande parte de sua produção são romances
históricos) e, principalmente sua amada América. Vindo de uma família da
aristocracia ianque: um de seus primos é o ex-vice e candidato a Presidencia
derrotado, Al Gore; seu avo, Thomas Gore, foi senador por Oklahoma e aparece em
diversos de seus livros como personagem, e sua irmã por afinidade, Jacqueline
Bouvier, ficou famosa com o sobrenome Kennedy, depois, Onassis.
Paulo Francis dizia que ele era um tory (apelido dos
conservadores ingleses) anarquista. Homossexual assumido (seu primeiro romance
de sucesso, The City and the Pillar, uma ode ao amor que – na época - não
ousava dizer seu nome, causou escândalo e sensação nos anos 50), tinha horror a
manifestações do tipo Parada Gay; frequentador das altas rodas políticas, era
feroz crítico do bipartidarismo americano, que dizia ser um partido único com
duas alas direitistas. Mas foi acusado de racista, antissemita e outras coisas
por conta de suas posições pessoalíssimas. Por exemplo, achava que drogas
deviam ser liberadas por dizer respeito à saúde pessoal (se fossem liberadas, o
tráfico deixaria de ter sentido) mas que
por um filho no mundo, por conta das consequencias para a comunidade, deveria
ser mediado pelo estado, ou pela sociedade. É mole ou quer mais?
Ele acreditava que a civilização judaico-cristão havia
destruído o humanismo já existente na Antiguidade, e ele defende essa tese em
“Juliano”, romance histórico sobre a vida do imperador romano de mesmo nome,
que passou a História como “O Apóstata”, por ter tentado trazer de volta os
rituais pagãos, na contramão se seus antecessores, Constantino entre eles. Mas
era tarde demais para os mistérios de Elêusis (que Vidal recria com emoção, embora
ninguém saiba ao certo como eram os ritos de iniciação), a rica Mitologia
Greco-Romana e, principalmente, as seitas concorrentes do Cristianismo, Mitra e
Ísis. Em “Criação”, ele leva a ação para o fundamental século V a.C. no qual,
no período de uma vida humana co-existiram Zoroastro (ou Zaratustra), Dario (o
Grande), Temístocles, Buda, Jina (fundador do jainismo, culto seguido por
Gandhi), Lao-Tsé, Confúcio, Péricles, Sócrates, Heródoto e Tucídides, entre
outros. O autor faz com que eu protagonista, o persa Ciro Spímata, conheça
todos esses personagens, que fundamentam quase todo o saber civilizado de hoje.
Ele é um neto de Zoroastro, que cresce na corte de Dario, torna-se amigo de
Xerxes, e é enviado em missões à India e depois á China. Ele termina a vida
como embaixador da Pérsia em Atenas, algo parecido como ser o representante do
Kremlim em Washington. Em suas andanças pelo Mundo Antigo ele conhece o
Zoroastrismo, o Budismo, o Jainismo e o Taoísmo, mas se encanta mesmo com
Confúcio, o primeiro pensador político. O Confucionismo é menos uma religião e
mais uma doutrina de organização social e política, que ora era aplicada, ora
erradicada pelos mandatários de plantão no Império do Meio, mas que de certa
forma explica a coesão da China desde então, fazendo desse país a mais antiga
civilização contínua do mundo.
Em 1967 inicia suas Narrativas do Império (certamente, ele
nem sabia que faria uma série tão longo, tanto é que ela foi escrita fora da
ordem cronológica), com Washington D.C., que seria o sexto de sete livros da
série. Depois dele vieram (pela sequencia de publicação) Burr (1973), 1876
(1976), Lincoln (1984), Império (1987), Hollywood (1990) e A Era de Ouro
(2000). A ordem histórica seria Burr (que conta a história de Aaron Burr,
veterano das Guerra da Independência, terceiro vice-presidente dos EUA e que
ficou famos por matar Alexander Hamilton, um dos líderes da Revolução
Americana, num duelo), Lincoln (sobre a Presidência de Abraham Lincoln), 1876
(ano do centenário da Independência, das eleições mais fraudulentas das
história e do massacre do General Custer), Império (sobre o nascimento do
império americano ultramarino com a guerra contra a Espanha), Hollywood (que
trata da entradas dos EUA na I Guerra Mundial e a nascente indústria do cinema),
Washington D.C. (que aborda os anos pré-II Guerra Mundial) e A Era e Ouro (que
abarca o pós-guerra e o surgimento da superpotência americana).
Apesar de serem em geral livros deliciosos de se ler e muito
instrutivos sobre a Matriz do Norte, Paulo Francis, seu maior divulgador no
Brasil, considera todos eles literatura de segunda, preferindo suas incursões
não-realistas em Myra Beckenbridge (de 1968, que resultou num filme desastroso
com Rachel Welch) e Dulluth (1983). Desse estilo também fazem parte Myron (1974,
continuação de Myra), Kalki (1978), Ao
vivo do Calvário (1992) e Fundação Smithsonian (1998). Todas satirizam o
american way of life com altas doses de sarcasmo e cinismo de quem viveu a Era
de Ouro americana, que foi do final da II Guerra até o dèbâcle no Vietnã, como
membro da elite, jovem promessa literária e integrante da Camelot de John
Fitzgerald Kennedy. O que veio depois foi só o horror.
Seus ensaios discorrem sobre isso. A primeira coletânea
deles publicada – e organizada – no Brasil foi De Fato de de Ficção, em que
pela primeira vez conhecemos essa face do escritor que até então só conhecíamos
como romancista. Entre suas teses polêmicas, estava a de que, após o advento do
cinema falado, o roteirista é que passou a ser o verdadeiro autor dos filmes.
Para confirmar a tese, ele contava sua experiência em Hollywood, como escritor
de Bem-Hur, em que para explicar o ódio de Messala contra o ex-amigo Ben-Hur
(supostamente, apenas por este se negar na campanha de romanização da Judéia), ele
sugeriu um caso amoroso entre os dois na juventude, tudo nas entrelinhas para
não escandalizar a classe média e o protagonista Charlton Heston. O diretor
William Wyler acabou topando com a ressalva de que nunca deixasse “Chuck”
(Heston) saber disso. Quando vemos o filme sabendo desse contexto, tudo parece
muito óbvio, com a cumplicidade do intérprete de Messala, Stephen Boyd, que,
como escreve Vidal “sempre que olhava para Ben-Hur, parecia um homem faminto
vislumbrando um jantar através de uma vidraça”. Vidal acha que até a morte
Heston não se deu conta, mas Pedro de Queiroz refuta, citando a cena do
reencontro, em que os olhos dos dois brilham como dois namorados.
O escritor este no Brasil em 1987, a convite da Companhia
das Letras, e eu estive na palestra que ele deu no Masp. Uma das piadas era um
aviso repentino de que ele acabara de receber a notícia de que a biblioteca do
presidente Ronald Reagan tinha pegado fogo. “E ele nem tinha acabado de colorir
os dois livros”, emendou rápido. Se Vidal desprezava Reagan, passou a odiar
George W. Bush depois do 11 de setembro, acusando-o de usar o pânico gerado
pelos atentados de 11 de setembro para jogar a Constituição no lixo. Foi uma
voz solitária em meio aos discursos patrióticos em toda a mídia, que o jogou no
ostracismo. Onze anos depois, quem estava certo afinal de contas?
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Os “ensinamentos” de Steve Jobs
Se em vida, Steve Jobs foi uma lenda da inovação
tecnológica, após a morte virou uma espécie de divindade da área da
administração e gestão. Basta ir a qualquer livraria que podem ser encontrados
incontáveis volumes que usam seu nome em vão, mas não se engane: o único
indispensável é a biografia – quase oficial – de Walter Issacson, que saiu logo
após a morte do CEO da Apple. É quase oficial porque, embora encomendada pelo
próprio Jobs (que com seu aval permitiu ao escritor acesso a pessoas que
dificilmente concederiam entrevista), o biografado não aprovou nem leu o
resultado final, para que o livro fosse o mais isento possível. Isso é
extraordinário para alguém sabidamente controlador, mas pode ser compreendido
quando conhecemos o drama vivido por ele a partir do diagnóstico de câncer.
Para quem se sentir atraído por algumas das opções de
leitura mais baratas, um alerta: não existe lição em administração a ser
aprendida com Steve Jobs, a não ser negativa. Seu sucesso é resultado de
inteligência e personalidade únicas, dentro de um contexto histórico específico.
Antes dos 30 anos, Steve Jobs já era uma lenda do Vale do
Silício, graças à revolução do Apple II, que praticamente criou o mercado de
computadores pessoais, algo restrito a nerds (geeks) mas que hoje é um
eletrodoméstico tão difundido quanto a máquina de lavar roupas. O Macintosh
inovou com a interface gráfica e o mouse, conceitos vencedores, mas foi
superado pela Microsoft em marketing e devido a diversas falhas do projeto,
como a falta de memória, que obrigava o usuário a gravar seus trabalhos em
disquetes. Fora da empresa, comprou a divisão de animação digital da Lucas Film para transformá-la na Pixar. Em seu segundo turno como CEO da Apple, primeiro salvou a empresa da
falência lançando o Power Mac e iMac, e depois revolucionou a indústria da
música com o i-Pod, depois a telefonia móvel com o i-Phone, e finalmente lançar
o que pode ser a pá de cal na mídia impressa com o i-Pad (Isso merece um post à
parte).
A espetacular saída de Jobs da empresa que criou junto com o
amigo e geek supremo Steve Wozniak, pelas mãos de John Sculley, o executivo que
lutou para tirar da Pepsi para comandar a Apple (“Você quer passar o resto da
vida vendendo água adocicada ou quer uma chance de mudar o mundo?”, foi o
lendário desafio lançado por Jobs a Sculley) é contada em todas as etapas e com
depoimentos dos principais envolvidos. Issacson,
embora fã do seu biografado, não esconde seu péssimo gênio (destratava subordinados constantemente), sua falta de
consideração com as pessoas (demorou anos para reconhecer sua primeira filha) e mesmo sua falta de escrúpulos (conspirava constantemente contra colegas). O que não o coloca em pé de igualdade entre os capitalistas inovadores.
Thomas Alva Edison foi um gênio inquestionável no ramo das
invenções, mas foi um empresário ganancioso e inescrupuloso. Ao perder para
Nicola Tesla na questão corrente contínua (Edison) x corrente alternada
(Tesla), passou a perseguir o adversário até levá-lo à ruína. Hollywood surgiu
graças a Edison por que ele detinha a patente do kinetoscópio, que embora muito
diferente do cinematógafo dos Lumière, lhe permitia cobrar royalties da indústria
começava a engatinhar nos EUA. Por isso, os primeiros produtores resolveram
fugir para a ensolarada Califórnia, onde, além de não ter de pagar para Edison,
podiam filmar o ano todo. Henry Ford, o inventor da linha de produção que
tornou o automóvel um produto popular, além de ser implacável com grevistas
(mandava seus seguranças particulares mandar bala nos piquetes, sob olhar
complacente das autoridades constituídas) era anti-semita militante, que nutria
simpatia por Adolf Hitler. Ambos deixaram empresas que sobrevivem até hoje, a
General Eletric e a Ford Motors. Essa era uma das ambições de Steve Jobs;
deixar um legado, uma companhia que sobrevivesse a ele, não importando os
corpos que fossem deixados pelo caminho.
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segunda-feira, 30 de julho de 2012
Mulheres em Acorde no Shopping Jaraguá
O show do Mulheres em Acorde sexta-feira no Shopping Jaraguá foi, como se esperava, um sucesso, e consolida essas atrações musicais como um instrumento para a fidelização do público para o mall do Centro. Kika Baldasseirini, Monica Ávila, Sara Bonfim e Sonia di Morais desfilaram as canções que fizeram mais sucesso ao longo da carreira do grupo, abrindo, inclusive, com "Pagu", de Rita Lee, que havia ficado fora das últimas apresentações.
Um detalhe que me chamou a atenção é que às 20h, hora marcada para o show, a praça de alimentação do Jaraguá ainda tinha diversas cadeiras vagas. Só às 20h30 a lotação esgotou. É o famoso "horário brasileiro": público e organizadores sabem que o negócio só começa meia-hora depois.
Para quem perdeu, domingo elas voltam a cantar, só que em Campinas, no Teatro do Sesc, às 15h, também com entrada franca
Um detalhe que me chamou a atenção é que às 20h, hora marcada para o show, a praça de alimentação do Jaraguá ainda tinha diversas cadeiras vagas. Só às 20h30 a lotação esgotou. É o famoso "horário brasileiro": público e organizadores sabem que o negócio só começa meia-hora depois.
Para quem perdeu, domingo elas voltam a cantar, só que em Campinas, no Teatro do Sesc, às 15h, também com entrada franca
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As Mulheres em Acorde encantando o público do Jaraguá |
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Kika Baldasseirini e Sara Bonfim |
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Mônica Ávila e Soninha di Morais |
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As cantoras com a excelente banda |
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Ariadne e Ariane Campos curtindo o Mulheres em Acorde |
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Os atores Fernando Almeida e Fernanda Bugallo, que vão participar da montagem de A Ópera do Malandro |
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As psicólogas Isabela Vargas e Erika Vendramini com Cláudio e Mônica |
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Os amigos Julia, Mary, Rafaela e Guilherme |
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Bianca Baldasseirini Wolff foi ver a mamãe Kika cantar ao lado do marido Juliano Henrique |
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Ana Laura entre as irmãs (gemeas?) Lais e Ligia |
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Menininhas deram um show a parte em frente ao palco |
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Rafaella Calonga promovendo a Feira de Noivas do Jaraguá e a Nishi Royale a caráter |
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quinta-feira, 26 de julho de 2012
Sobre o obelisco da rotatória do 'Teiadão'
A Prefeitura anunciou o início das obras de reconstrução do obelisco que ficava na rotatória da Avenida Conceição, em frente ao Instituto de Reabilitação e Prevenção em Saúde Indaiá
(IRPSI), o popular Telhadão. Reproduzo a seguir o texto que escrevi na Tribuna de Indaiá a respeito da destruição da obra de José Paulo Ifanger, nosso mais importante artista plástico contemporâneo, e o comentário feito após a promessa feita pelo prefeito Reinaldo Nogueira na Rádio Jornal, após a denúncia da imprensa e intensa mobilização nas redes sociais.
Obra de José Paulo Ifanger vai parar no lixão
Prefeitura diz que consultou Pró-Memória mas presidente diz
que não sabia
Marcos Kimura
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Restos do monumento jogados no lixão |
O obelisco da rotatória da Avenida Conceição, em frente ao Instituto
de Reabilitação e Prevenção em Saúde Indaiá (IRPSI), o popular Telhadão, desapareceu
de um dia para o outro. Obra do artista plástico José Paulo Ifanger, falecido
no final de 2011, a obra foi inaugurada nos anos 80 para marcar a inauguração
da Avenida Conceição. “Para o Zé Paulo, ela representava o progresso que a
cidade vivia então, que era representada pela abertura daquela avenida
perimetral, quase um mini-rodoanel da cidade”, explica o ex-prefeito José
Carlos Tonin, que encomendou o obelisco. “Quando minha mulher contou que iam
por a obra abaixo, achei que era brincadeira. E agora, esta semana, derrubaram
mesmo”, conta.
A arquiteta Ana Paula Ifanger Sinisgalli, filha de José
Paulo, diz que ganhou um triste presente de aniversário, que foi na última
terça-feira. Em sua página na rede social Facebook, ela manifestou sua
indignação com a “falta de respeito à arte e à cultura da nossa cidade”,
recebendo a solidariedade de diversos amigos. Ela disse à Tribuna que a família
está desolada com o descaso. “Imagine se meu pai estivesse vivo. Quando
pintaram o obelisco de uma cor feia ele foi lá, levou uma foto pra usarem um cor
melhor. Agora botaram tudo abaixo!”, diz.
Em nota oficial, o
secretário de Obras, José Carlos Selone, “informou que a retirada do
monumento foi necessária para a implantação do projeto de trânsito na
confluência das avenidas Conceição e Bernardino Bonavita. Ele ressalta que a
obra tem como objetivo melhorar a fluidez do trânsito no local e,
consequentemente, tornar o trecho mais seguro para condutores de veículos
e pedestres, considerando que acidentes graves já foram registrados
naquele ponto da cidade.”
A reportagem perguntou, por meio da
Assessoria de Comunicação da Prefeitura, se não foi levada em consideração que se
tratava de uma obra de arte ou se cogitou sua transferencia para outro local. A
resposta foi que A
Prefeitura solicitou uma avaliação por parte da Fundação Pró-Memória, que concluiu
que a remoção e transporte do monumento da rotatória da Av. Conceição para
outro local na cidade despenderia de alto custo, por isso não foi feito. Procurado
pela Tribuna, o presidente da Fundação Pró-Memória, Antonio Reginaldo Geiss,
disse que não sabia da remoção do obelisco nem que ele era de autoria de José
Paulo Ifanger.
A
Tribuna perguntou ainda à Prefeitura se uma outra obra de José Paulo Ifanger,
que fica na rotatória das Avenidas Conceição, Presidente Kennedy e Engenheiro
Fábio Barnabé, também poderia desaparecer com a reforma que será feita lá, e a
resposta foi que o projeto ainda não está pronto e, segundo o secretário de
Obras, o objetivo inicial é não mexer nos monumentos, mas, em alguns casos, a
mudança se faz necessária para melhorar a segurança no trânsito.
Inconformado
O
conselheiro e fundador da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, Antonio da Cunha
Penna, diz que não se conforma com a falta de respeito da Prefeitura em relação
à entidade, que só é reconhecida em relação à guarda de fotografias velhas e do
Arquivo Público. Mas nas demais atribuições relativas à Memória, não somos
consultados para nada.“Por exemplo, a fachada do centenário Cemitério Velho foi
mudado sem nenhuma consulta”, lembra.
“Na
terça-feira, durante a reunião do Conselho Deliberativo, coincidentemente manifestei
meu descontentamento com essa falta de respeito e no dia seguinte tive essa
confirmação, quando fiquei sabendo que o monumento, que é um bem público, obra
de um artista indaiatubano importante, foi destruído. Outros monumentos do
artista José Paulo Ifanger, bem como o nosso pontilhão Fepasa são bens públicos
sujeitos a terem o mesmo destino. Como se não bastasse a falta de instrumentos
legais para se preservar bens particulares, dos quais restam bem poucos, como a
casa do Major Alfredo da Fonseca, que até recentemente estava preservada e foi
descaracterizada por uma reforma. (Publicado em 3 de setembro de 2011)
A César o que é de César e ao povo o que é do povo
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O obelisco original |
Não pretendia retornar ao assunto, mas já que o prefeito
Reinaldo Nogueira resolveu consertar o erro, retomamos o assunto. Para quem não
sabe, em entrevista na quarta-feira à Rádio Jornal – em cujos estúdios ele se
sente cada vez mais “em casa” – nosso alcaide reconheceu que houve um erro e
que vai reconstruir o obelisco da rotatória do Telhadão em local próximo. A
informação foi confirmada pela Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura. Lógico
que ele não citou a Tribuna de Indaiá em sua fala, mas é inegável que o barulho
provocado pelo jornal acendeu o debate que pegou fogo pela Internet,
principalmente no Facebook, onde surgiu uma nova comunidade, Indaiatuba Ativa, criado
na segunda-feira e que até quinta-feira já tinha 278 membros.
À exemplo do Doutor Hélio, quando quis desqualificar a
votação do seu impeachemnt, o prefeito Reinaldo Nogueira disse que a
movimentação em torno do assunto era “política”. Ora, mas certamente que é.
Tudo o que se refere à vida da cidade é política, ou “arte ou ciência da
organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte
aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos
(política externa). Nos regimes democráticos,
a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos
públicos com seu voto ou com sua militância.”
Então, quando cidadãos protestam e debates assuntos
relativos é cidade é sempre política, independente de partidos. O fenômeno
Internet permite que as mobilizações aconteçam em tempo muito curto e que os
assuntos repercutam em tempo real. Mas ainda assim, um “empurrãozinho” das
mídias tradicionais são necessárias, como se ve nesse caso e no impeachment do
Doutor Hélio.
O prefeito de Campinas caiu nem tanto por conta da
mobilização de seus opositores, mas pela indignação dos cidadãos diante da
gravidade das denúncias do Ministétrio Público, suficientes para que a Justiça
decretasse prisão temporária de vários denunciados, inclusive o vice-prefeito
Demétrio Vilagra, atualmente (na época) no comando do Executivo. Tudo com uma
cobertura histórica dos meios de comunicação, principalmente da EPTV, que mudou
a habitual pauta “água com açucar” de seu telejornal vespertino para bombardear
o espectador diariamente com repercussão do caso ou com novas denúncias. Mesmo
que nada ligasse diretamente o nome de Hélio de Oliveira Santos aos escândalo
da Sanasa, o envolvimento de sua esposa, tida como chefe da quadrilha, provocou
o seu impeachment. “Não basta à mulher de César ser honesta, ela tem que
parecer honesta.”
Em Indaiatuba, a destruição do obelisco é um elemento a mais
dentro diversos outros assuntos, como o muro milionário da Câmara erguido por
empresas fantasmas e a desapropriação pelo Município de terreno do próprio
prefeito – tudo denunciado e apurado pela imprensa – , e que vem causando uma
crescente indignação pública manifestada na Internet. A reconstrução do
monumento é, certamente, uma vitória da mobilização pública apartidária em
conjunto com a mídia. Mas ela não deve ficar restrita a isso. A luta para
contruir a cidade que sonhamos, mais humana, mais segura, com maior
transparencia, passa pela informação, discussão e ação.
PS: fora o custo da reconstrução que vai recair sobre os
impostos que todos pagamos, não vejo nada de errada na reconstrução, já que se
trata de um projeto do artista José Paulo Ifanger e não uma escultura. Da mesma
forma, a manutenção do muro de taipa do Pau Preto, que na verdade ruiu há
muitos anos atrás, também é importante pela questão simbólica. No Japão, o
Templo de Ise, erguido em madeira há 1500 anos e que é reconstruído a cada 20
anos seguindo o projeto e método originais. Então, a mais antiga estrutura
civil da cidade merece ser também ser preservada pelo mesmo método, como
testemunha de nossas origens.(Publicado em 17 de setembro de 2011)
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terça-feira, 17 de julho de 2012
Segunda-feira de gala no cinema
Nesta segunda-feira, fiz programa duplo de cinema, assistindo quase
na sequencia "Na Estrada", de Walter Salles; e “Sombras da
Noite”, de Tim Burton. Dois grandes filmes, mas completamente diferentes.
Vamos começar pelo fim. “Sombras da noite” é, como Pedro de
Queiroz comentou
no Facebook, “ reúne o melhor de ‘Batman Returns’, ‘Ed Wood’ e ‘Sleepy
Hollow’ e vai até além”. Para quem conhece o Pedro – um cinéfilo com um olhar
muito pessoal, mas fundamentado – sabe que esses são seus Burtons preferidos. E
acho que meus também.
A
produção foi uma iniciativa de Johnny Depp, fã da soap opera original, que, segundo Pedro, chegou a ser exibido no
Brasil com o título “Sombras Tenebrosas” (Cortesia de sua memória prodigiosa.
Isso você não acha nem no Google). Embora seja da mesma geração, não assisti,
mas intuo que Burton manteve as reviravoltas típicas do gênero do original.
Curiosamente, quase ninguém da crítica especializada se deu conta das qualidades
do filme, que se não for o melhor de Burton, certamente é o melhor pós-“Planeta
dos Macacos” (e olhe que isso inclui os notáveis “Peixe Grande e suas Histórias
Maravilhosas” e “Sweeney Todd”). Acho que a principal dificuldade foi “encaixar”
a obra num gênero: É terror? É “terrir”? Não, é uma soap-opera dark, como o
original.
Depp
é novamente o outsider, como em todas as suas colaborações com Tim Burton. De
novo, Helena Booham-Carter é a amante-cúmplice-ocasional, como em “Peixe grande
e suas histórias maravilhosas” e “Sweeney Todd”. Michelle Pfeiffer, que viveu
um dos seus grandes momentos no cinema como a Mulher-Gato de “Batman – O Retorno”,
deve ter sido escalada só para dizer a memorável linha “You'll have to
imagine us on a better day”. Mais “Crepúsculo dos Deuses” impossível.
Pedro refere cena de sexo entre Barnabas e Angelique a “Batman
– O Retorno”, mas lembra também o longo beijo entre Ingrid Bergman e Cary Grant
em “Interlúdio” e, replicado pelo próprio e Eve Marie-Saint em “Intriga Internacional”, em que Hitchcock
aplica um grande drible no Código Hays. A referência ao Ciclo Poe de Roger Corman, de fato, é quase explícita. A
participação de Christopher Lee é interessante. Da mesma forma como Ed Wood
ressuscitou o ex-Drácula Bela Lugosi, Tim Burton trouxe à tona o Vampiro da
Noite da Hammer em “A Lenda do Cavaleiro Se Cabeça” (só depois desse é que ele
foi chamado para as trilogias “Star Wars” e “Senhor dos Anéis”), “A Fantástica
Fábrica de Chocolate” (como... dentista!) e agora sendo possuído por um
vampiro.
Manter a ação nos anos 70, ao invés de atualiza-lo aos dias
atuais foi um achado. As referencias pop – especialmente na música – são sensacionais,
coroada pela participação de Alice Cooper (“A mulher mais feia que já vi”,
segundo Barnabas Collins). Barry White, T. Rex, Carpentes (“Do you mean to say that she has a penchant
for woodworkers?” Sensacional!) e Elton John compõe a colagem musical do
filme, algo raro para Tim Burton, que em geral prefere trilhas musicais
originais. Mas as canções não apenas dão fundo musical, mas também comentam a
ação (“No more, Mr. Nice Guy”, “I’m sick of you”).
***
“On the Road”,
romance seminal de Jack Kerouac, seria para a Geração Beat o que “Acossado” foi
para a Nouvelle Vague. Se Walter Salles não foi fiel à narrativa propriamente
dita – e quem poderia? – conseguiu extrair em sua obra o espírito do romance e
o período em que se passa, com muito sexo, drogas e bebop, a trilha sonora
oficial dos beatniks. É um dos melhores
trabalhos do diretor, do nível de “Terra Estrangeira”, “Central do Brasil” e “Abril
Despedaçado”, só que desta vez com um elenco internacional recheado de nomes de
prestígio, como Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, além
do trio central formado por Sam Riley, Garret Hedlund – que mostra um talento
insupeito para quem viu “Tron 2” – e Kristen Stewart, num trabalho no mínimo
corajoso para quem é um ícone da sociedade de consumo adolescente.
Escrevi anteriormente que o livro foi publicado no Brasil
pela Braziliense, mas diversas fontes dão conta de que foi pela gaúcha LP &
M, com tradução de Eduardo “Peninha” Bueno, o que faz muito sentido. Devo ter
sido traído pela memória porque, na época, praticamente tudo o que era
relevante foi publicado pela Brazileinse, então dirigida pro Luiz Schwarcz,
futuro Companhia das Letras.
Anyway, assistindo o filme, veio-me a lembrança o período em
que li o livro, meados dos anos 80, uma época em que vários elementos da
história estavam na moda no Brasil, incluindo a literatura beat. O bebop estava
sendo redescoberto, na época, os únicos discos disponíveis do gênero eram os da
Imagem, praticamente piratas, com péssima qualidade sonora, muitas vezes gradas
ao vivo com equipamento amador, mas que revelavam a genialidade de Charlie
Parker, Dizzy Gillespie e companhia. Logo, a loja de discos Breno Rossi
começaria a lançar edições de melhor qualidade, incluindo Miles Davis, Duke
Ellington e outros gigantes do jazz. Não foi à toa que foi na época que começou
o saudoso Free Jazz Festival. Outra coisa que talvez passe batido por alguns é
a cabine de orgone de Old Bull Lee, originário das teorias de Wilhelm Reich,
outra moda dos anos 80 (na verdade, da virada dos 70 para os 80) no Brasil.
Nessa mesma, época eu estudava Psicologia e escrevi um
trabalho para o professor João Augusto Freyze Pereira (autor de “O que é loucura”,
da coleção Primeiros Passos) tentando estabelecer o fenômeno da moda das
literaturas noir (Dahiell Hammet e Raymond Chandler) e beat com o período
contemporâneo no Brasil. Era muita ambição intelectual, mas ele gostou do tema,
mesmo tendo pouco a ver com o que ele estava ministrando.
A coisa em comum entre os escritores noir e os beat era o
fato de serem do pós-guerra – a Primeira Guerra para Hammet e a Segunda para
Kerouac e companhia. E os anos 80 no Brasil? Bom, não vínhamos de um conflito
global, mas de uma ditadura militar que, se não teve a dimensão das “guerras
sujas” no Chile e Argentina, deixou cicatrizes profundas, que perduram até
hoje. Nós que entramos na universidade no início dos anos 80, convivíamos com
veteranos das passeatas de 1977, provocadas pelos assassinatos do jornalista
Wladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho. Esses, por sua vez, tinham
como gurus e ídolos os caras que tinham ido para a luta armada, alguns mortos e
desparecidos e outros exilados. Com a abertura política e posterior
redemocratização, nossa geração ficou entre o engajamento político e o
hedonismo do sexo, drogas e roquenrol. Daí a curiosa identificação com o
frenesi sensorial dos beat e o desencanto e cinismo de Hammet com as “causas”
(ainda que ele tenha se negado a dedurar seu antigos companheiros de Partido
Comunista, mesmo que não acreditasse mais em Marx.). Para nós, egressos dos
anos de chumbo que apenas vimos de relance, havia o peso desse passado recente,
mas também a perspectiva de um porvir sem palavras de ordem, mais livre em
todos os sentidos. Talvez por isso nos identificássemos com os beatniks, mesmo
separados deles por quatro décadas.
terça-feira, 3 de julho de 2012
As efemérides de dois clássicos sci-fi
Este ano se completam os 35 anos do lançamento de “Star Wars
– Episódio IV”, na época ainda “Guerra nas Estrelas”, e os 30 anos de “Blade
Runner”, cujo subtítulo brasileiro, “Caçador de Andróides”, foi rapidamente esquecido.
O impacto do primeiro foi gigantesco na época do lançamento,
a ponto de se considerado um turning point da indústria de Hollywood, enquanto
o segundo só conseguiu construir sua reputação ao longo dos anos, já que foi um
retumbante fracasso na estreia. Uma das vantagens de ser um velho é ter
assistido ao lançamento dos dois no cinema, duas das mais expressivas
experiências cinematográficas em minha vida de cinéfilo.
Há muito tempo, numa galáxia distante
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Poster que foi usado no lançamento no Brasil |
A única coisa que vi que mais ou menos reproduz o impacto
que foi “Guerra nas Estrelas” em seu lançamento no cinema foi um episódio de
“That’70s Show”, em que o bando de Eric Forman fica boquiaberto na abertura do
filme. Nunca antes no cinema uma nave espacial demorava 30 segundos para passar
pela tela. Até então, as espaçonaves do cinema eram maquetes do tamanho de
pratos, que cuspiam fagulhas pela cauda, imitando a propulsão de foguete.
George Lucas inovou com seus modelos enormes, cheios de detalhes, que davam uma
sensação de realismo inédita até então (Ok, no espaço, o som não se propaga,
mas quem estava prestando atenção nisso?). Sem falar na criação de um dos melhores vilões de todos os tempos: Darth Vader, com sua máscara com frente de carro esporte, capacete de nazista, respiração de asmático e sempre à bordo de seu pretinho básico.
Que garoto não sonhava com uma aventura que misturasse capa
e espada, aventuras espaciais e até um toque de samurais? Além da Ordem Jedi
ser uma mistura de Cavaleiros Templários com filosofia zen, e seu estilo de
luta lembrava mais os duelos de guerreiros japoneses, uma das inspirações
confessas de Lucas foi o filme “A Fortaleza escondida”, de um jidai gekki
(filme da época dos samurais) de Akira Kurosawa. E onde Star Wars se parecia
com essa produção nipônica? Porque a história era narrada seguindo a trajetória
de dois personagens periféricos na grande trama principal, no caso, os dróides
C3PO e R2D2.
Lucas ainda seguiu as diretrizes do mestre Joseph Campbell a
respeito dos mitos, e criou uma mitologia própria que é seguida com fervor até
hoje, em pleno século seguinte. Fez a ficção-científica voltar à ordem do dia –
foi indiretamente responsável por levar o seriado “Jornada nas Estrelas” ao
cinema – e fez com que o foco das grandes produções se voltasse ao público
adolescente, a ponto de, nos anos 80, Paulo Francis parodiar a célebre frase
“não confie em ninguém com mais de 30 anos” com “a Hollywood de hoje não confia
em ninguém com mais de 15 anos de idade mental”.
Recentemente, relançou o "Episódio 1" em 3D, numa tentativa de apresentar sua saga às novas gerações. Não cheguei a ver porque tinha acabado de rever o filme na TV por assinatura, e a cada revisão ele fica pior. A explicação dada para incluir os dróides é estúpida. No primeiro filme, quando eles são capturados pelos Jawas, dá-se a entender que eles são artigos de ponta, e não velharias como seriam se tivessem mais de 20 anos de construção.
“Todas essas lembranças ficarão perdidas no tempo, como
lágrimas na chuva”
Logo que saí da sessão de “Blade Runner” no Cine Marabá, no
início de 1983, tive a certeza que tinha assistido uma obra-prima. Depois dessa
primeira vez, vi o filme 15 vezes, sem contar em vídeo. No final daquele ano,
ele já tinha status de cult, tendo sido eleito um dos melhores de 83 pela
enquete do Cinesesc – embora tenha estreado no Brasil em dezembro de 1982 – e estabeleceu o visual dark-gótico que predominaria naquela década
(com reflexos no cinema nacional, em filmes como “Cidade Oculta”).
Mas o que tornava “Blade Runner” tão bom? Ridley Scott e os
roteiristas David Peoples e Hampton Fancher transformaram a história de Philip
K. Dick numa distopia pós-apocalíptica urbana que falava fundo áqueles anos em
que o holocausto nuclear parecia inevitável (pouco tempo antes, o telefilme “O
dia seguinte”, sobre um ataque nuclear aos EUA, chegara a ser exibido nos
cinemas). 2019 parecia tão distante na época, mas os elementos urbanos do filme
– megacidades poluídas, com engarrafamentos eternos, habitadas por
trombadinhas, punks e hare krishnas – eram familiares ao público de 1982. Também
havia a influencia de "The Long Tomorrow", história em quadrinhos de Dan O’Bannon
em parceria com Moebius, que fornecia o clima de um film-noir sci-fi e o
desenhista o visual futurista pós-moderno, que inspirou ainda "O Quinto
Elemento", e virou um episódio do desenho "Heavy Metal".
"Blade Runner" foi o primeiro filme a ter um
"Director's Cut" lançado nos cinemas (depois virou "carne de
vaca"). Em 1989, um funcionário da Warner Bros encontrou nos arquivos uma
cópia da obra em 70 mm e, alguns meses depois, esses rolos foram exibido num festival
de filmes clássicos especificamente na banda de 70 mm. Para a surpresa de
todos, era uma versão diferente da conhecida, e logo gerou uma enorme
curiosidade entre os cinéfilos, que achavam ter encontrado a "versão do
diretor" (que sempre reclamou da narração em off - que Harrison Ford foi
obrigado a fazer a contragosto meses depois do fim das filmagens - e da
seqüência final feita a partir de cenas não aproveitadas de "O
Iluminado", ambas impostas pelo estúdio após as reações negativas do
público nas prévias). Ridley Scott foi ver e disse que não era a sua versão,
entretanto a onda sobre a cópia foi tanta que convenceu a Warner a relançar o
filme em 92 – 10º aniversário da versão original - com a edição do diretor.
A “versão final” de Scott, de 2007, não difere muito da de 92, embora a atriz Joanna
Cassidy tenha sido convocada para refazer sua cena de morte – que acabou saindo
mal-feita na primeira versão - , se fixando mais no aperfeiçoamento dos efeitos
visuais e em consertar certas incoerências do roteiro. Mas os questionamentos
sobre a condição humana, sobre a busca por Deus, a degradação do meio-ambiente
e até dos seres humanos por conta da poluição, clonagem de seres vivos e a
inviabilidae cada vez maior das grandes metrópoles mantém o filme interessante
mesmo passados um quarto de século. “Blade Runner” – junto com “Mad Max 2” –
ajudou a definir o visual da década de 80, com a poluição visual dos grandes
outdoors animados, fotografia escura, visual cyberpunk, as ombreiras da Rachel
e - o que foi mais evidente na época – a música de Vangelis. O “Tema de Blade
Runner” originou a praga do “saxofone de motel” por toda a década de 80,
culminando, é claro, no chatíssimo Kenny G. Mas foram as versões apócrifas e
semi-oficiais que fizeram sucesso, porque o músico grego se recusou a gravar
ele mesmo uma trilha oficial até 1994, com Dick Morrissey tocando o sax na
famigerada faixa.
Num futuro próximo – para nós – a Humanidade degradou tanto
o planeta que partiu em busca de novos mundos para habitar. Paralelamente
desenvolveu andróides biomecânicos para fazer o trabalho pesado, lutar por e
satisfazer sexualmente seus senhores. A última geração desses robôs - os Nexus
6 - é tão parecida aos humanos que apenas um teste emocional chamado
Voight-Kampf é capaz de identificá-los, além do fato de só viverem quatro anos.
Quando eles se rebelam, são proscritos da Terra e, se apanhados, são
sumariamente executados. Os policiais encarregados e perseguir e eliminar os
replicantes ilegais são chamados de blade runners.
Muito desse futuro ainda é distante de nós – colonização de outros
planetas, viagens espaciais que permitam isso, carros voadores – mas vários
aspectos nos são familiares – a degradação ambiental do planeta, megalópoles
inabitáveis, clonagem de animais e “asiatização” do mundo. Outra coisa que
causou impacto na época eram os detalhes contemporâneos, como a presença de
punks, hare-krishnas e publicidades de diversas marcas na época famosas
(curiosamente, muitas acabaram, como a Atari e a Pan-Am).
Outros detalhes muitas vezes despercebidos são bastante reveladores. Há os
famosos reflexos avermelhados nos olhos dos replicantes, o que inclui nos de
Deckard-Harrison Ford numa cena deste Final Cut, em que o diretor impõe de vez
sua versão de que o protagonista é um andróide. Além disso, enquanto todos os
replicantes são altos, fortes e bonitos (à exceção de Léo), os humanos do filme
são feios e deformados, o que não é o caso de Ford. O sonho do unicórnio –
introduzida ou recuperada na versão de 1992 – já era um indício de que Deckard
era um replicante e que Gaff (Edward James-Olmos) sabia.
A escalação do elenco é um caso à parte, especialmente a do protagonista
Deckard, mais um exemplo da sorte de Herrison Ford em ganhar grandes papéis de presente.
O personagem tinha sido pensado por Scott para seu amigo Michael Douglas, mas
quando este conseguiu grana para seu projeto “Tudo por uma Esmeralda” desistiu
de Deckart. A princípio, parecia que o filho de Kirk tinha se dado bem, já que
a cópia descarada de “Caçadores da Arca Perdida” foi um sucesso de bilheteria e
“Blade Runner” não. No entanto, hoje em dia ninguém mais tem vontade de ver as
peripécias dele, Kathleen Turner e Danny de Vito numa América do Sul de araque,
enquanto o sci-fi estrelado por Ford é relançado no mínimo uma vez por década.
O próprio Harrison Ford achou que tinha embarcado numa furada, pois já era uma
estrela importante, com dois Star Wars e “Os Caçadores da Arca Perdida” no
currículo. Passou todo o tempo brigando com o diretor e ficou furioso quando
foi convocado para fazer a narração em off meses depois do fim das filmagens.
Toda essa zanga e frustração é passada na sua atuação, que acabou ficando
perfeita no contexto da obra. Sua opinião sobre o trabalho foi mudando à medida
que o filme foi virando cult.. Quem não se cansa de elogiar “Blade Runner” é
Rutger Hauer: afinal é o filme que lhe abriu as portas em Hollywood e definiu a
persona cinematográfica que assumiria a partir daí. Era o favorito de Anne Rice
para ser seu vampiro Lestat no cinema, e a versão para a telona de 94 teria
sido outro com ele no lugar de Tom Cruise. Não consigo nem imaginar quantas
vezes os nerds nas convenções de sci-fi devem ter pedido para ele recitar sua
fala final: " I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time... like tears in rain... Time to die."
Das moças, quem se deu melhor
foi Daryl Hannah, que se tornou uma estrela importante e namorou John-John
Kennedy. Já decadente em 2004, Quentin Tarantino a fez repetir a morte de Pris
em “Kill Bill parte 2”. A Rachel que Scott criou sobre a bela Sean Young é uma
das imagens mais fortes do filme, mas a carreira da atriz não decolou. Quase
foi a Mulher-Gato de “Batman – O Retorno”, mas ao ser preterida por Michelle
Pfeiffer, foi ao set vestida como a personagem para confrontar o diretor Tim
Burton. Afinal, ela já havia perdido o papel de Kim Basinger no primeiro
“Batman” porque havia se ferido numa queda de cavalo. Joanna Cassidy já não era
uma novata, tinha estreado no ano de 1968 numa ponta em “Bullitt”, e foi a
única a participar fisicamente da edição final de 2007, para refazer a cena de
morte de Zhora, e ficou feliz ao constatar que ainda cabia no figurino de 30
anos atrás.
***
Em 2009, o site Total Sci-Fi Online elegeu “Blade Runner” como o melhor filme d ficção-científica de todos os tempos. A escolha aconteceu porque o longa teria um "senso real de tristeza, medo e anseios, e um amargo senso de humor". Além disso, eles também destacam as interpretações de Harrison Ford, como "um herói muito mais sombrio do que Han Solo" e de Rutger Hauer, no que é chamada de "a melhor performance de sua carreira". Resumindo, o filme é considerado uma obra-prima.
Blade Runner superou produções que fizeram muito mais sucesso na época de seus lançamentos, como Star Wars e ET. Veja abaixo a lista com os dez primeiros colocados:
1 – Blade Runner (1982)
2 – 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968)
3 – Star Wars (1977)
4 – Alien (1979)
5 – Metropolis (1927)
6 – O Dia em que a Terra Parou (1961)
7 – O Exterminador do Futuro (1984)
8 – Planeta dos Macacos (1968)
9 – E.T. (1982)
10 – Solaris (1972)
Algumas curiosidades da lista:
·
Ridley Scott emplacou
dois filmes na lista do top 10, Blade Runner ( 1º) e Alien (4º);
·
Toda a primeira trilogia Star
Wars está entre os 100, o original ( 3º), O Império
contra-ataca ( 13º) e O Retorno do Jedi ( 35º).
Nenhum da segunda trilogia entrou no ranking.
·
James Cameron tem quatro
filmes na lista, O Exterminador do Futuro 1 (7º) e 2 (32º), Aliens ( 15º)
e O Segredo do Abismo (42º). Steven Spielberg também tem
quatro, ET ( 9º), Encontros Imediatos de Terceiro
Grau ( 11º), Jurassic Park (25º) e Minority
Report ( 57º). George Lucas, que não se considera um diretor, tem
o mesmo número de filmes arrolados: os três Star Wars originais
e THX 1138( 92º). Paul Verhoeven tem três trabalhos rankeados, O
Vingador do Futuro (20º), Robocop ( 24º) e Tropas
Estelares ( 76º). Stanley Kubrick tem dois, 2001(2º)
e Laranja Mecânica ( 27º), assim como Andrei Tarkovsky
com Solaris (10º) e Stalker ( 50º).
George Miller pos os dois primeiros Mad Max na lista, o II
em 34º (Uma injustiça, merecia colocação melhor) e o I em 70º.
Também com dois trabalhos entre os 100 estão Terry Gilliam, com Brazil ( 17º)
e Os 12 Macacos (83º); John Carpenter, com O Enigma do
Outro Mundo ( 23º) e Fuga de Nova York ( 52º);
e David Cronenberg com A Mosca ( 31º) e Videodrome ( 62º,
outra injustiça);
·
Dois filmes da série
original Star Trek estão entre os 100, o clássico A
Vinçança de Khan ( 19º) e A Terra Desconhecida ( 67º,
pra mim, faltou A Volta para Casa), mas também a reinvenção da franquia por
J.J. Abrahams, Star Trek ( 93º).
·
Os atores que mais aparecem
na lista são Harrison Ford com Blade Runner e os três Star
Wars; Arnold Schwartzenegger, nos dois primeiros Exterminadores mais
O Vingador do Futuro; Charlton Heston com O Planeta dos Macacos ( 8º), A
Última Esperança da Terra ( 49º) e No ano de 2020 ( 72º)
- sendos os tres bastante apocalipticos.
·
Apenas Wall-E ( 37º), Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças ( 45º),Minority Report, A
Fonte da Vida ( 60º), Filhos da Esperança ( 66º), Donnie
Darko ( 71º), Moon ( 74º), O Homem
Duplo ( 77º), Serenity ( 88º), Primer (90º,
inédito aqui) e Star Trek são deste século.
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