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Sally Field e Daniel Day-Lewis já levaram o Actors Guild Awards, ele também o Globo de Ouro |
Já faz algum tempo que Peter Pan de Hollywood acordou
para as mazelas da América e vem se tornando um crítico de seu país. Há quem se
refira a “O Terminal” (2004), “Guerra dos Mundos” (2005) e “Munique” (também
2005) como uma trilogia sobre os Estados Unidos pós-11 de setembro.
Seu recente “Lincoln”, embora se passe no século XIX,
refere-se à divisão atual dos Estados Unidos, não pela escravidão, mas pela
visão de mundo entre os adeptos do Tea Party e o resto do país. Nem mesmo a
crise econômica causa pelo capitalismo selvagem sem freios defendido por eles fez com
que suas convicções fossem abaladas. O resultado é um Congresso praticamente
paralisado em meio à maior depressão econômica desde os anos 1930.
O guru da nova direita, Luis Felipe Pondé, rejeita na Folha
de S. Paulo a aproximação que o crítico de cinema do mesmo jornal,
Ricardo Calil, fez entre Lincoln e Obama, por que acha o segundo um banana, que
só se reelegeu por ser negro (não é verdade, no pleito do ano passado ficou claro
que o que os americanos não queriam era a volta do governo para os muito ricos,
cristãos, heterossexuais – ainda que no armário – e, preferencialmente, brancos).
Mas Calil tem razão em ver no subtexto nem tão sutil uma mensagem para o atual
presidente. Se é isso o que ele fará em seu derradeiro quatriênio, e o que
veremos.
Outro articulista importante da Folha, Elio Gaspari, adorou
o filme, já que mostra de forma crua e chocante para leigos idealistas, como é
que se fazem as leis nas democracias representativas, mesmo as leis mais nobres. Mas
não há opções realistas a esse sistema, como bem observou Winston Churchill (“A
democracia representativa é o pior sistema que existe, com exceção de todos os
outros”). Nenhum jornalista que já tenha coberto qualquer legislativo acharia
extraordinário o que acontece em “Lincoln”: é assim que é nos EUA, nas
democracias européias e no Brasil (com diferenças importantes e fundamentais, mas, no fundo, é o mesmo). A alternativa a esse toma-lá-dá-cá é a ditadura, que é muito pior.
O Lincoln de Daniel-Day Lewis (tem tudo para quebrar o
recorde do Oscar com uma terceira vitória como melhor ator principal) deixa
isso claro na explicação que dá a seu gabinete sobre a necessidade da emenda
mesmo depois de sua declaração de libertação dos escravos nos Estados
Confederados. Nenhum presidente teve tanto poder quanto ele durante a Guerra
Civil, mas seus atos executivos embasados no estado de guerra aproximavam-se de
uma ditadura, e ele sabia disso. Tudo o mais poderia ser revertido ou
contestado na paz, menos a escravidão, e por isso a necessidade de uma emenda
constitucional que tornasse permanente a abolição da escravidão. A rigor, Pondé
tem razão quando diz que não foi a liberdade dos negros que levou ao fraticídio
americano, mas o desejo dos 11 estados confederados de deixar a União e manter
o dixie way of life que podemos ver
em versão devidamente edulcorada em “...E o Vento Levou”. A famosa Constituição
Americana dava brechas para isso, só que Abraham Lincoln achou, com razão, que
isso transformaria a América em dois – ou mais – países de segunda, e manteve a
União a ferro e fogo. O mundo seria outro que a América do Norte se tornasse
uma versão mais fria das fragmentadas Américas do Sul e Central. Isso é ser estadista. Ao centralizar
a ação nos últimos meses da presidência e da vida de Lincoln, Spielberg deixa
essa questão em segundo plano e se concentra na liberdade aos negros, o motivo
idealista da guerra.
Cinematograficamente, entretanto, o resultado não é tão bom.
O filme é muito falado, muito solene e se sustenta na atuação de Day-Lewis, em
alguns momentos secundados por Sally Field como a primeira-dama Mary Odd
Lincoln (seu estilo soap opera cai
como uma luva no papel) e pos Tommy Lee Jones como o abolicionista radial
Thadeus Stevens. Somente quem se interessa por política e história como eu, meu amigo João Marcos Martinho e
Elio Gaspari apreciamos de fato. Assim, mesmo sem ser um filmão, “Argo” é muito
mais cinema, e acho que ganha pontos no Oscar.