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Kevin McKidd é Lucius Vorenus e Ray Stevenson é Titus Pullo em "Roma" |
A Band abre seu novo pacote de atrações internacionais com a
exibição da macrossérie “Roma”, produção original da HBO e que será apresentada
todas as terças às 22h30. É a produção
que abriu as portas para inúmeras outras com pano de fundo histórico – como os três
segmentos de “Spartacus”, “Os Bórgas”, “The Tudors” e “Os Pilares da Terra”,
também exibido pela Band. Mas “Roma” foi mais longe em termos de pesquisa,
reconstituição e dramaturgia. Sem falar nas interpretações do excelente elenco,
quase todo britânico.
A série conta na primeira temporada a ascensão e queda de
Caio Julio César, e na segunda, as guerras civis de Marco Antonio, primeiro
contra Brutus e os assassinos de César, e depois, contra Otávio, o sucessor
escolhido pelo ditador. Como em “Guerra nas Estrelas” (George Lucas confessou
que copiou a ideia de Akira Kurosawa em “A Fortaleza Escondida”), a narrativa é
centrada em dois personagens periféricos às grandes tramas políticas, os
legionários Lucius Vorenus (Kevin McKidd, de “Grey’s Anatomy”) e Titus Pullo
(Ray Stevenson, que fez um dos fracassados “Justiceiros” da última década). O
nome dos dois foi tirado diretamente das “Crônicas da Guerra da Gália”, do
próprio César, e são os únicos soldados comuns a serem nomeados por ele.
Vorenus é um centurião orgulhoso de suas origens e um fiel partidário da República,
enquanto Pullus é um típico legionário: briguento, mulherengo e bêbado. A personalidade
apolínea do primeiro se choca constante com a dionisíaca do segundo, mas a
amizade entre ambos sobrevive às guerras e tragédias.
Por questões diversas, Vorenus se liga a Antônio (James Purefoy,
que é o serial killer do novo seriado “The Following”) enquanto Pullus se torna
uma mistura de guarda-costas e treinador do jovem Otávio (Max Pirkis na adolescência
e Simon Woods como adulto), o futuro imperador Augusto. Mas apesar da política ser, oficialmente, uma
jogo para homens, as grandes intrigantes da trama são Servília (Lindsay Duncan,
de “Sob o sl de Toscana”), mãe de Brutus e amante de César; e Otávia, mãe de
Otávio e amante de Antônio. Os escritores de “Roma” (entre os quais Bruno
Heller, de “The Mentalist”; e John Millius, de “Apocalipse Now”) usam esse
recurso para ilustrar o papel feminino na aristocracia romana, muito longe da
imagem tradicional de submissão e passividades.
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Ciáran Hinds é o melhor Julio Cesar das telas |
Entre as grandes figuras históricas, o galês Ciáran Hinds (“A
soma de todos os medos”, “A Mulher e Preto”) compõe o melhor Julio César que já
vi, melhor que Rex Harrison na “Cleópatra” com Elizabeth Taylor ou Louis
Calhern no “Julio Cesar” de Joseph L. Mankiewcz. David Bamber interpreta um
Marco Cícero bem de acordo com o que a história registra, orador brilhante e
político precavido, que se opõe a César mas não participa da conspiração que o
mata. Muito divertida a Cleópatra de Lindsay Marshall, não exatamente bonita,
mas muito sensual e fogosa, como recentes descobertas demonstram. Purefoy
compõem um Antonio bem diferente de Richard Burton e mais próximo do que a
história conta.
Curiosamente, o roteiro foge das grandes frases – César não
diz “A sorte esta lançada” ao atravessar o Rubicão nem “Até tu, Brutus (ou
filho, segundo outras versões)” enquanto agoniza no Senado. O famoso discurso
de Antonio no funeral de César, que o ponto alto da peça “Júlio César” de
Shakpespeare, também é escamoteado ao espectador, que só o vê o antes e depois
da elegia que muda o curso das coisas para os conspiradores que tentaram salvar
a República.
Claro que o programa diverte muito mais quem gosta de
história, mas também é um entretenimento de primeira para quem quer saber só de
intriga, ação e sexo dentro de uma moralidade muito diferente da que herdamos pós-ascensão
do Cristianismo, já na decadência de Roma.
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