domingo, 30 de março de 2008

Quem ganhou a Guerra Fria?


Quem leva “Jogos do Poder” a sério pode pensar que o fim da Guerra Fria foi algo simples assim, por vontade e perseverança de um congressista malandro, uma socialite texana e um agente da CIA com problemas com hierarquia. Isso é tão ridículo quanto atribuir ao papa João Paulo II a Queda do Muro de Berlim, como aconteceu na última sessão do Cineclube. Quer dizer, todo mundo tem direito à opinião, mas não de proferir sandices como se fossem verdades estabelecidas.

“Charles Wilson’s War” – título original – tenta resgatar a interessante história do congressista texano que por meio de uma subcomissão do Legislativo e diversos contatos consegue enviar recursos, treinamentos e armas para que a guerrilha afegã derrotasse o Exército Vermelho. É um roteiro de Aaron Sorkin, o criador da série “The West Wing” – o melhor seriado sobre política de todos os tempos – que infelizmente não se deu tão bem em longas como na sua obra-prima televisiva. Dos quatro roteiros assinados por ele três são sobre política: “Questão de Honra”, “Meu Querido Presidente” e “Jogos do Poder”. O melhor, no entanto, é o suspense “Malícia”, acho que é o primeiro filme em que deu para levar Nicole Kidman a sério como atriz.

Em favor de Sorkin e do diretor Mike Nichols, sabe-se que a versão original foi modificada porque a verdadeira Joanne Harring ficou escandalizada ao ver na avant-premiére que o filme sugeria que os armamentos que ela e Wilson conseguiram para os afegãos teriam servido para armar a Al Qaeda e, de alguma forma, contribuído para o 11 de setembro. Como a mulher tem prestígio suficiente para ser interpretada por Julia Roberts, só restou uma leve menção ao fato, no finalzinho.

Acho que o único produto hollywoodiano que fez explicitamente esse link entre a intervenção americana no Afeganistão e o novo terrorismo islâmico fundamentalista foi “Nova York Sitiada”, de 1998, que profetizava tanto uma América aterrorizada por atentados quanto a reação xenófoba da superpotência. A agente da CIA Anette Bening representava a promiscuidade - literal – entre a comunidade de informações americanos e os terroristas treinados por ela e que se voltariam contra seus antigos patrocinadores. Em “Jogos de Poder”, só se fica com a primeira parte da história, o que a torna meio sem sentido dentro do contexto histórico atual. Pra que então fazer esse filme hoje? Para celebrar um herói desconhecido? Não com esse elenco oscarizado e um diretor de primeira linha, ainda que decadente.

Julia não tem muita função na trama além de seduzir Tom Hanks na cama e para a causa afegã e serve mais para dar destaque à personagem Joanne. Restam a Hanks – abaixo de suas atuações habituais – e Philip Seymour Hoffmann – que está conseguindo bons papéis após seu prêmio da Academia – segurarem a onda. As a montagem final não valoriza os diálogos afiados e os acontecimentos meio que se precipitam no último quarto do filme.

O fim da União Soviética não acabou com a História, como quis Francis Fukuyama (“e pur si muove”, diria Galileu...) nem fez surgir a “Nova ordem Mundial” anunciada por George Bush pai (não há ordem mundial, para dizer o mínimo). Os eventos desde a queda do Muro de Berlim, seguida da derrubada uma a uma dos governos aliados de Moscou, até a tentativa de golpe militar contra Mikhail Gorbachev e a decretação do fim da URSS foram acompanhadas de forma atônita e passiva pelos EUA e seus serviços de inteligência.


O que aconteceu no Afeganistão foi quase um replay oposto do Vietnã, com a diferença de que, embora os EUA nunca mais tenham sido os mesmos após o envolvimento no Sudeste Asiático, a economia e sistema político americanos tinham estrutura para resistir ao baque de uma derrota humilhante para um país subdesenvolvido. A URSS não, como podemos ler em “A Era dos Extremos”, de Eric Hobsbawn, e “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, de Paul Kennedy. O regime se sustentava na auto-estima do povo russo – não soviético – e no aparato militar, que sucumbiram na retirada apressada do Afeganistão. Que de rincão perdido na Ásia se transformou em peça chave na geopolítica mundial, trazido à tona não apenas pelo terror fundamentalista e pela intervenção americana, mas também pela literatura e, agora, o cinema.

Um comentário:

Bárbara disse...

na verdade eu não assisti este filme. Porém ontem eu vi JUNO.
Eu cheguei no cinema com o pé atrás em relação a JUNO,achei que seria aqueles filmes de adolescente sem graça.
Mas o enredo é muito bom, e faz pensar em detalhes da vida.
Creio que o que acontece no filme seja uma situação muito complicada, e que realmente fica par nós pensarmos.
Na minha simples opinião JUNO deveria ganhar algum premio por melhor História..
Abraços