terça-feira, 29 de abril de 2008

Por que só temos cantoras?

A Publifolha - editora de livros da Folha de S. Paulo - lançou mais um de seus volumes didáticos, desta vez sobre o fenômeno das cantoras de MPB, que dominam o cenário musical brasileiro desde os anos 60.


Para o público atual é difícil imaginar que no passado as referências eram homens como Francisco Alves, Vicente Celestino, Mario Reis, Orlando Silva, Silvio Caldas, enquanto as mulheres ocupavam posição secundária. O compositor Luis Tatit é quem assina o volume, ele mesmo parceiro por anos de uma outra grande cantora, Ná Ozetti, que ele lançou no grupo Rumo. A seguir, um aperitivo do livro.


RITA LEE E A ERA DAS CANTORAS NA CANÇÃO POPULAR

Vivemos no Brasil o auge da era das cantoras e, gradativamente, vem ampliando também o número de cantoras compositoras. De fato, um curioso fenômeno tem caracterizado nossa tão rica e festejada canção brasileira: há mais de 30 anos praticamente só surgem cantoras, que dividem com os compositores-cantores a linha de frente do estrelato nacional; há muito tempo não assistimos ao lançamento bem-sucedido de um intérprete masculino que não apresente simultaneamente as credenciais de autor musical.

Claro que essas afirmações precisam ser devidamente matizadas. Surgem duplas sertanejas, crooners de banda e mesmo cantores restritos a uma faixa de consumo menos exigente, mas nada que se assemelhe ao surgimento de artistas como Francisco Alves, Mário Reis, Orlando Silva ou João Gilberto, cuja produção erigiu a própria linguagem da canção brasileira. O bastão de João Gilberto foi entregue aos compositores que, interpretando as próprias canções, vêm fazendo da música brasileira um dos principais artigos de exportação.

Mas se cada um cuida basicamente de sua obra, as cantoras, que brotam sem cessar de todo canto do país, encarregam-se de aproximar as tendências e de estabelecer uma coerência panorâmica de todos estilos presentes na canção brasileira. São elas as profissionais do canto que encomendam composições aos autores, escolhem repertório concentrado ou diversificado, transitam pelos gêneros e exibem seus dotes vocais ou interpretativos.

Palco das grandes mudanças do século 20, a década de 1960 também testemunhou a atuação crepuscular dos cantores stricto sensu e o nascimento da era dos compositores-intérpretes e das vozes femininas. Realmente, foi na tv Record de São Paulo que nomes como Jair Rodrigues, Agnaldo Rayol, Wilson Simonal e quase toda a turma de intérpretes da jovem guarda (Ronnie Von, Eduardo Araújo, Wanderley Cardoso etc.), que não deve ser confundida com os compositores Erasmo e Roberto Carlos, viveram sua última fase de grande sucesso. O espaço desses cantores começava a ser ocupado por compositores-
intérpretes como Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor etc. E para estabelecer elos entre esses estilos havia as cantoras, que apenas iniciavam uma carreira, cuja fecundidade pôde ser avaliada nas décadas seguintes: Elis Regina, Nara Leão, Maria Bethânia, Gal Costa e Rita Lee. Esta última com particularidades que comentaremos adiante.

O que teria acontecido aos cantores, que sempre figuraram como verdadeiros proprietários do cancioneiro popular pré-bossa nova? E por que essa "crise" atingiu apenas o universo musical masculino?

A primeira resposta - superficial, mas necessária para situar o problema - deve esclarecer que não se tratava, evidentemente, de uma ineficácia repentina da interpretação daqueles cantores que protagonizaram momentos extraordinários da canção dos anos 60. Cada vez mais, porém, os autores se sentiam capacitados a conduzir a própria obra até a gravação e a apresentação ao público. Claro que essa decisão artística vinha acompanhada por uma recompensa financeira nada desprezível numa época em que os autores já pretendiam
viver exclusivamente da música.

Lembremos ainda que essa crise só poderia mesmo atingir o universo masculino, uma vez que as mulheres, à época, praticamente não compunham. Só esse fato já baixava consideravelmente o grau de concorrência no mercado dos intérpretes. Se o autor precisasse de uma voz e de uma execução totalmente distintas das suas, propendia naturalmente para o canto feminino.

O início desse avanço dos compositores no terreno dos intérpretes pode ser localizado nos anos 1966 e 1967, por ocasião dos famosos festivais de música promovidos pela tv Record. A apresentação de "A Banda", composição que lançou Chico para o grande público, já deixava claro que havia uma extrema hesitação por parte dos organizadores do evento: o êxito da marcha dependeria mais da intervenção direta do compositor ou do desempenho de uma intérprete consagrada? Não conseguindo solucionar o dilema, os promotores escalaram Chico Buarque (o compositor) e Nara Leão (a intérprete) para uma dupla execução da mesma música, a primeira mais intimista, só ao violão, e a segunda (pouco) mais expansiva com o acompanhamento de uma pequena fanfarra, tudo como se a voz do compositor ainda não fosse suficiente para sustentar a própria canção e, por outro lado, somente a voz da cantora já não fosse mais suficiente para caracterizar o trabalho integral do autor. A canção
"Disparada", que fora programada apenas com o intérprete Jair Rodrigues, e que dividiu com "A Banda" o prêmio máximo do festival, encontrou ainda novo fôlego quando recebeu a interpretação envolvida de um de seus autores, Geraldo Vandré, que passou então a repartir com Jair Rodrigues a glória obtida pelo trabalho.

Essa fase de transição ainda permaneceria no festival do ano seguinte, quando Edu Lobo, compositor da vitoriosa "Ponteio", defendeu sua canção ao lado de Marília Medalha (a cantora), em vozes uníssonas, como se um precisasse compensar eventais insuficiências do outro. Em terceiro lugar, mais uma vez, Chico Buarque compareceu como compositor de "Roda Viva" para interpretar sua obra escorado pelos cantores do mpb4. Nesse mesmo festival, Gilberto Gil (com "Domingo no Parque") e Caetano Veloso (com "Alegria Alegria"), segundo e quarto lugares respectivamente, já haviam assumido em definitivo a condição de compositores-cantores, abrindo a rota que todos seguiriam mais tarde.

Dos anos 70 em diante, ao lado de novos compositores-intérpretes, como Moraes Moreira, Ivan Lins, Gonzaguinha, João Bosco, Fagner, Alceu Valença, Djavan etc., surgiriam cantoras de grande sucesso, como Simone, Joana, Beth Carvalho, Clara Nunes, Elba Ramalho, Zizi Possi, Fafá de Belém e Baby do Brasil; pouco depois, essa tendência viria a se consolidar com a aparição de Marina Lima, Marisa Monte, Tetê Espíndola, Leila Pinheiro, Paula Toller, Ná Ozzetti, Vânia Bastos, Adriana Calcanhotto, Daniela Mercury, Cássia Eller, Zélia Duncan e teríamos que nos satisfazer com um inventário permanentemente aberto para acompanharmos a velocidade dos lançamentos de vozes femininas. Tudo isso sem contar que o mercado comporta uma impressionante convivência de veteranas com estreantes, todas abocanhando uma boa fatia do sucesso da música popular.

"Todos Entoam"
Autor: Luiz Tatit
Editora: Publifolha
Páginas: 448
Quanto: R$ 49,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da
Publifolha.

Um comentário:

Bárbara disse...

sim..eu acho que deveria ter mais contores.. eu prefiro ELES hahah

mas ao mesmo tempo, eu queria ter uma presidente governando o Brasil...