segunda-feira, 10 de março de 2008

Não há país para os velhos


Acabo de sair da sessão do grande ganhador do Oscar, "Onde os fracos não tem vez". Acho que o título original - canhestramente traduzido acima - é importante para entender o filme. Xerife ligado aos velhos tempos por conta da família e dos amigos, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) já viu de tudo na vida e não gosta do rumo que as coisas estão tomando. Llwelin Moss (Josh Brolin) foi duas vezes para o Vietnã, no auge da guerra, e ao voltar tem que se contentar com um trabalho de merda e um trailer caindo aos pedaços. Anton Chigurh (Javier Barden) é um assassino de aluguel psicopata, frio em sua eficácia, incansável, capaz de qualquer coisa para cumprir seus objetivos e sua palavra. A vida dos três se cruzam quando Moss se depara com com que foi uma transação de drogas que deu errado, um monte de cadáveres e uma mala com dois milhões de dólares. É a chance de realizar o sonho americano com sua jovem mulher.
Ao investigar a matança e depois o envolvimento de Moss, o xerife Bell se dá conta de que está lidando com algo novo, no caso, Chigurh. As pistas e corpos vão se acumulando e - numa cena chave num quarto de motel - ele percebe o desfecho inevitável do drama e decide que é hora de desistir. Moss não percebe isso, é um cara duro, mas tem suas vulnerabilidades. Chigurh não. É implacável, paranóico e, por isso, dificilmente é surpreendido.
Há uma dose de xenofobia no saudosismo de Bell e na trama em geral. Os bons velhos tempos do xerife Bell são os do Texas do comercial de Malboro, branco e anglo-saxão. Ele, Moss e o "investigador" Carson Wells (Woody Harrelson) são típicos cowboys modernos, enquanto Chigurh tem cara de latino e sobrenome impronunciável. O filme é ambientado nos anos 80, quando o presidente era Reagan e as restrições à imigração mexicana se ampliaram. Em breve, os sucessores do xerife passariam a patrulhar a fronteira caçando chicanos, legal ou ilegalmente. Os novos tempos que assustam Bell são representados por um matador que não poder ser detido, nem pelo acaso?
Mais surpreendente que o final, que deixa a platéia pasma e até furiosa, é a vetusta Academia de Hollywood ter premiado este filme tão pouco didático e amoral, absolutamente fora dos padrões habituais. Com todo o sangue derramado, o tema é o tempo: o que muda, na visão do xerife Bell; o perdido, que é buscado pelo loser Moss; e o timing, o ritmo perfeito que os irmãos Cohen imprimem à narrativa. Já para Chigurh, o tempo não importa. Não tem elos, laços afetivos ou fidelidades externas a si mesmo. A composição antológica de Barden só não foi adequada ao Oscar recebido porque deveria concorrer ao prêmio de ator principal, e não de coadjuvante.

Um comentário:

Tamara disse...

Chiguhr, ou "Sugar", é a antítese do pragmatismo tão caro à nossa sociedade, ainda que sob as vestes de um psicopata. E que psicopata! Deixa qualquer outro no chinelo!