quarta-feira, 5 de março de 2008

Se houver guerra, a culpa é do Lula

É impressionante como a Grande Imprensa brasileira aproveita qualquer coisa para tentar desestabilizar o governo Lula, como se mensalões, cartões corporativos e outros não bastassem por si. Agora há pouco, no Bom Dia Brasil, Alexandre Garcia criticou a posição do Brasil de considerar o ataque da Colômbia em território do Equador como violação de soberania, contrargumentando que as Farcs são um grupo que tenta desestabilizar um governo democraticamente eleito e que o presidente equatoriano deveria ter se preocupado antes em desarmar os guerrilheiros dentro de suas fronteiras. Essa é a lógica da ideologia da "Guerra contra o Terrorismo" criada pelo governo George W. Bush e que está sendo usada pela Colômbia para justificar o que por qualquer leitura diplomática foi um atentado á soberania alheia, tanto é que mesmo na OEA, apenas o Grande Irmão do Norte apoiou integralmente o colombiano Álvaro Uribe, sendo que Canadá e Bahamas se mantiveram neutros, Brasil, Argentina, Bolivia, Nicarágua, Venezuela e República Dominicana criticaram duramente a Colômbia e Panamá, Uruguai, Perú, El Salvador e Guatemala também repudiaram a violação do território equatoriano, ainda que achem que se deve investigar a ligação dos governos Chavez e Correa com as Farc. Ou seja, a única diplomacia que concorda com Alexandre Garcia é a da Casa Branca.

Até mesmo o governo da França, do conservador Nicolas Sarkozy, lançou suspeitas de que Uribe sabia que o líder das Farc morto no ataque, Raúl Reyes, era o principal interlocutor com os governos de Paris e Quito para a libertação dos 41 reféns políticos do grupo, incluindo a franco-colombiana Ingrid Betancourt.

É evidente que as Farc são hoje uma quadrilha que vive do tráfico de cocaína e do seqüestro. Mas usar esse fato para a dupla violação do território de um país vizinho (uma no bombardeio e outra para recolher corpos e equipamentos) seria o mesmo que o o Brasil atacar o Paraguai para acabar com as quadrilhas de roubo de carros e contrabando de drogas, armas e outros.

Em situação semelhante, a Turquia avisou com semanas de antecedência a intenção de invadir o território iraquiano para combater a guerrilha curda. Quando o fez, violando a soberania do vizinho, os americanos - que efetivamente controlam o Iraque - passaram recibo, já que o governo de Ancara é um antigo aliado estratégico e a justificativa da Guerra contra o Terror foi inventada por eles mesmo. Também fica aqui a pergunta que Alexandre Garcia e a imprensa conservadora faz ao Equador: porque o Iraque, ou seus patrões ianques, não desarmou os guerrilheiros curdos? A resposta é a mesma, a dificuldade de acesso à região e a porosidade das fronteiras, principalmente no que diz respeito às populações, mais ligadas à etnia que a uma nacionalidade imposta.

PS: Esqueci de mencionar a manchete ululante da Folha de S. Paulo hoje: "Bush apóia Colômbia e ataca Chavez". Um furo impressionante.

2 comentários:

Kleber Patricio disse...

Parabéns pela análise, jap. Lúcida e verdadeiramente democrática, como fazem os jornalistas que estimulam as pessoas a pensar e saber.

Éber Sander disse...

Excelente, meu caro Kimura.
Mais uma vez a imprensa conservadora e marrom vai culpar o Lula.
Todo mundo sabe que o governo dos EUA está feliz com essa história.
E o Lula, ora o Lula, botemos a culpa nele... é isso o que pensa a imprensa golpista.