terça-feira, 6 de maio de 2008

A Primeira Página, domingo, 17h30 no Casarão


"A Primeira Página" é um cult movie pessoal que compartilho com meus amigos Pedro de Queiroz e Antônio da Cunha Penna (outros filmes de estimação que só nós gostamos são "Showgirls" - mas aí temos a companhia de Inácio Araújo - e "Rápida e Mortal", de Sam Raimi, antes do sucesso com "Homem-Aranha"). Durante anos só tive acesso a ele na versão dublada da televisão, já que ele nunca foi lançado em VHS e no cinema ele estreou em 1974, quando eu tinha 11 anos.

Está longe do sucesso comercial de "Se Meu Apartamento Falasse" ou "Quanto mais quente melhor" e foi, de modo geral, subestimado pela crítica. Mas é o melhor trabalho da última fase da filmografia de Billy Wilder - que, pessoalmente, sobreviveria 21 anos ao fim de sua carreira como diretor. É visto como uma resistência do veterano ao novo cinema que começava a tomar conta de Hollywood, com nítidas influências européias. É engraçado alguém falar nisso, já que o próprio Wilder era austríaco e discípulo do alemão Ernst Lubistch. Mas os ares europeus da época vinham da França da Nouvelle Vague, da Itália dos mestres Fellinil, Antonioni e Visconti e não do classissismo pré-2a Guerra Mundial.

Em meio ao escândalo Watergate, o debâcle no Vietnã e ao advento da contracultura, pegar uma peça dos anos 20 que já havia gerado um filme de sucesso - "Jejum de Amor", de Howard Hawks - parecia um anacronismo. Mas me parece que duas coisas motivavam Wilder: uma era mostrar que muito do chamado mundo moderno já estava presente no período entre-guerras e a outra resgatar o espírito original do texto de Ben Hecht e Charles McArthur, que foi, de certa forma, distorcido por Hawks ao fazer de Hildy Johnson e Walter Burns ex-cônjuges interpretados por Rosalind Russell e Cary Grant.

Trazer Jack Lemmon e Walther Mathau para esses papéis não é tão óbvio como pareceria anos depois, já que esse era apenas o terceiro dos dois juntos e o sergundo sob as ordens de Wilder, que os reuniu pela primeira vez para fazer "Essa Loura Vale um Milhão", em 1966. Essa mudança - ou retorno ao original - transforma o que era uma come´dia romântica numa comédia cáustica focada na atividade jornalística, da época e de sempre.

Vinte e três anos antes, o cineasta vinha de sucessivos êxitos na carreira e seu nome ainda não era automaticamente ligado ás comédias, quando lançou "A Montanha dos Sete Abutres". A imprensa em geral não aceitou a visão negativa sobre a profissão e enterrou o filme sob uma avalanche de críticas negativas. Só que o talento de Wilder era muito maior que a força de seus detratores e ele se reergeu rapidamente com uma sucessão de grandes filmes como "Inferno 17", "Sabrina", "O Pecado Mora ao Lado", "Testemunha de Acusação" e "Quanto mais quente Melhor".

Se em "A Montanha..." Kirk Douglas é um jornalista renegado disposto a qualquer coisa para voltar ao topo da profissão, em "A Primeira Página" é a imprensa como um todo que é retratada, ora como um negócio para vender jornais, ora como o Quarto Poder capaz de derrubar os poderosos - ao menos, numa democracia.

O dilema de Hildy, entre uma vida tranquila ao lado da bela esposa fazendo jingles para agência de publicidade do sogro e o front diário da reportagem, com salários de fome e onde não há hora extra nem finais de semana, é vivido até hoje por qualquer jornalista digno do nome. Quando seus olhos brilham enquanto escreve o texto final sobre a conspiração envolvendo o prefeito e o xerife sua escolha está feita. Seu editor Walter Burns sabe de que estofo é feito seu principal repórter e que seu espírito vai morrer na vida boa, ainda que feliz. Por isso, o que ele tenta fazer durante todo o filme é apenas dar um empurrão na direção certa, mesmo contra sua vontade.

Como editor, ele sabe que seu público quer sangue nas manchetes e que uma boa imagem vale por mil palavras - daí o divertido subterfúgio para ter uma foto do enforcamento. Por outro lado, sabe que um bom jornal deve se opor aos poderosos, principalmente na Chicago dos anos 20.

O personagem de Matthau é feito na medida para ele: cínico, sem escrúpulos para atingir seus fins mas motivado pela crença de que trabalha por um bem maior. Seu ato final e o seu destino descrito no final do filme são pontos altos do filme.

Nos periféricos da trama é que identificamos a intenção do diretor de evocar fatos contemporâneos. A moda da psicnálise - em voga desde o final dos anos 60 - é satirizada na figura do Dr. Max J. Eggelhofer, cuja composição deve ter sido prazeirosa para Wilder, compatriota de Freud; a tensão racial da época evocada pelo fato do policial morto ser negro - fato que dificilmente causaria comoção nos anos 20 - e o escândalo político desvendado pela imprensa remete inevitavelmente a Watergate.

Por tudo isso e mais um pouco é que programei esse filme para o Videoclube do Casarão, domingo às 17h30. Espero vocês lá.

Um comentário:

Bárbara disse...

ok ok !!

eu recebi o convite especialmente via msn numa conversa informal de quinta-feira (quinta?) Portanto venho informar que o filme me chamou a atenção

e por isto eu vou
chegarei lá pontualmente às 17h15 !

abraços !